O santo padre começou sua passagem pela Argélia e depois esteve pelos outros três países, que não contavam com a presença de um papa em seu território havia 30 anos. Esta foi a terceira viagem apostólica de Leão XIV desde que foi escolhido papa, em 8 de maio do ano passado.
Na catequese da Audiência Geral, realizada na quarta-feira (29), na praça de São Pedro, no Vaticano, o papa ressaltou que desde o início de seu papado desejava visitar a África.
"Agradeço ao Senhor, que me permitiu realizá-la, como pastor, para encontrar e encorajar o povo de Deus; e também vivê-la como uma mensagem de paz em um momento histórico marcado por guerras e por graves e frequentes violações do direito internacional", expressou Leão XIV.
Mencionar eventos geopolíticos, neste caso, representa a inclinação do pontífice como peça atuante na diplomacia internacional?
Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Mamadou Alpha Diallo, mestre em ciência política e doutor em estudos estratégicos internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou que a presença do papa impacta tanto a religião quanto a fé, mas sua visita também carrega um aspecto político no contexto do sistema internacional.
"O papa é uma das principais autoridades quando a gente fala de geopolítica global, principalmente em momentos de conflito, de convulsões sociais, de guerras", afirma.
O analista aponta, ainda, que a presença do papa sempre é "um soft power, uma vitrine para quem o recebe".
Alexandre Iansen de Santana, diplomata brasileiro que atua na Tunísia, por sua vez, pontua que a ida de Leão XIV à África pode ser compreendida como um movimento multifacetado, mas ressalta que trata-se "mais de uma diplomacia afirmativa e normativa e de solidariedade do que propriamente geopolítica pura".
Para ele, um dos pontos mais enfatizados é o caráter solidário da viagem. Segundo ele, trata-se "muito mais da Santa Sé mostrar solidariedade ao continente africano e manter o espaço que eles já possuem do que propriamente outra coisa".
Essa perspectiva desloca o foco de uma leitura puramente geopolítica para uma dimensão mais normativa e pastoral. A visita a uma prisão em Bata, na Guiné Equatorial, por exemplo, é interpretada pelo diplomata como um gesto simbólico forte, pois "passa a mensagem de que os fiéis, não importa a situação em que estejam, eles não estão esquecidos". Ao mesmo tempo, Santana reconhece a ambiguidade política do evento. Ele observa que viagens papais podem ter um "lado protocolar" e ser usadas "até para legitimar governos locais", mas insiste que, nesse caso, predominou uma intenção de proximidade com os fiéis.
Até 2050, '40% dos católicos estarão na África', diz diplomata
O catolicismo na África está crescendo, ainda que com características próprias, marcadas por maior sincretismo e adaptação às culturas locais. Esta afirmação é consenso entre os analistas. De acordo com Santana, a Igreja no continente conseguiu se enraizar de forma mais orgânica e "se adaptar muito bem às matizes locais". Isso contrasta com outras regiões, como na América Latina, onde a instituição enfrenta perda de fiéis.
A questão demográfica aparece como decisiva. Segundo ele, "há estudos que [indicam que], até 2050, 40% dos católicos de todo o mundo estarão na África", o que reforça a ideia de que o continente é central para o futuro da Igreja. Nesse contexto, a visita papal é interpretada como parte de um movimento estratégico de longo prazo: "Eu vejo que essa visita é um sinal para começar a trilhar esse novo caminho".
No âmbito da expansão da Igreja Católica, Diallo chama a atenção para o continente africano novamente como um local de disputa, assim como em outros momentos da história.
"O continente continua sendo o centro da geopolítica, […] a disputa por fiéis também é uma disputa geopolítica. Então o continente está sempre na mira. Infelizmente, há sempre uma visão eurocentrada, uma visão colonialista do continente africano. Parece que é ali que se conseguem os objetivos de cada um: quem procurar recursos vai para o continente africano, quem procura fiéis, também vai para o continente africano."
Nesse sentido, o analista ressalta que a demografia africana é interessante para a Igreja Católica, uma vez que mais da metade da população, ou seja, mais de 500 milhões de pessoas, é de jovens, o que reforça o território como lugar de disputa para continuar a crescente da religião.