"Estreitar os laços de amizade tradicionais das forças navais." Assim, o comandante da segunda divisão da Esquadra, contra-almirante Carlos Marcelo Fernandes, resumiu a participação das marinhas de cerca de dez países das Américas na operação conjunta, que acontece pela 11ª vez na região. Os exercícios militares estão previstos para o período de 11 a 14 de maio no litoral do Rio de Janeiro. Com foco em preparar uma resposta coordenada para ameaças comuns no ambiente marítimo, a operação contará com a participação dos Estados Unidos, que enviaram o porta-aviões USS Nimitz.
A expectativa é de que o navio chegue ao Rio de Janeiro no próximo fim de semana. Considerado o porta-aviões nuclear mais antigo em operação no mundo, a estrutura norte-americana tem cerca de 330 metros de comprimento e, por ter propulsão nuclear, possui autonomia de combustível praticamente ilimitada. Além disso, permite que dezenas de aeronaves sejam operadas de forma simultânea em missões de ataque e defesa.
Diante desse poderio e das relações conturbadas entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, a Sputnik Brasil conversou com especialistas sobre o simbolismo da presença do porta-aviões nuclear no país. O professor aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e integrante do Núcleo de Estudos de Defesa, Inovação, Capacitação e Competitividade Industrial (UFFDefesa) Eduardo Brick lembra que operações conjuntas entre as marinhas dos dois países são comuns e ocorrem há várias décadas e, neste momento, não vê nenhuma ameaça ao país.
"Essa presença é uma demonstração de força, com toda certeza, já que qualquer visita com esse dinamismo de guerra tem uma simbologia importante: é um país mostrando que tem esse poder, que pode chegar aqui, mas nada disso é uma novidade", enfatiza. Inclusive, em 2024, durante a edição da operação no litoral do Sudeste brasileiro, o grupo-tarefa foi liderado pelo porta-aviões USS George Washington, que é da mesma classe do enviado atualmente e opera sob características similares.
Apesar disso, o especialista avalia que há uma "mensagem" que os Estados Unidos querem transmitir na região ao enviar uma estrutura desse porte para o exercício militar conjunto. "Um navio desse porte tem uma mensagem mais forte ainda, não há dúvida. Mas, para o Brasil, é melhor se fazer de 'desentendido' e receber bem", defende.
EUA e a pressão cada vez maior sobre a América do Sul
Após se reunirem em duas ocasiões no ano passado e até apontarem a "química" entre os dois presidentes das maiores economias das Américas — ocasiões que culminaram com a redução do então tarifaço contra o Brasil e o fim de sanções econômicas contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes —, as divergências entre eles parecem ter voltado a dominar as relações em 2026. Neste mês, Lula citou os embates do norte-americano com o papa Leão XIV, contrário à guerra promovida por Washington contra o Irã. "O Trump não precisava ficar ameaçando o mundo", afirmou à época.
Dias depois, em meio à prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, condenado a mais de 16 anos de prisão no Brasil e considerado foragido, os Estados Unidos determinaram a expulsão do delegado brasileiro envolvido na detenção realizada pelas autoridades migratórias. O governo brasileiro reagiu com a retirada das credenciais diplomáticas de um agente de imigração norte-americano que atuava em Brasília (DF).
Em meio a todas essas tensões, as atividades do porta-aviões foram mantidas no território brasileiro. O professor aposentado da UFF comenta os impactos da política externa de Trump para toda a América do Sul desde que retornou ao poder — contexto no qual os Estados Unidos demonstraram a intenção de "ter um controle maior sobre o que acontece no hemisfério". Por isso, vê a vinda da embarcação inserida nessa lógica de demonstrar poder e, ao mesmo tempo, tentar atrair o Brasil para uma órbita mais alinhada aos interesses da Casa Branca.
Ao mesmo tempo, em fevereiro de 2023, o governo brasileiro também chegou a autorizar que dois navios de guerra iranianos atracassem no Rio de Janeiro — ocasião que gerou tensões com Washington. "Isso foi criticado pelos Estados Unidos, mas, mesmo assim, o Brasil recebeu as embarcações. Então, dentro dessa linha, eu considero que isso é uma coisa correta e tenta mostrar que você não está tomando partido nem de um lado nem de outro", conclui, ao pontuar que o Brasil tem como política não manter nenhuma "aliança militar clara".
'Prática comum de cooperação'
O doutorando e mestre em estudos marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN) Allan Antunes avalia à Sputnik Brasil que os exercícios militares com os Estados Unidos fazem parte de uma prática comum de cooperação entre Forças Armadas, voltada à preparação e construção de capacidades de defesa, e não necessariamente à antecipação de conflitos. Segundo ele, a desconfiança da sociedade civil é recorrente, mas muitas vezes decorre da associação direta entre atividade militar e guerra.
"Só para dar um exemplo, desde a criação do Ministério da Defesa, em 1999, até 2018, foram mais de 270 ações de cooperação entre a Marinha do Brasil e países das Américas. Desse total, 50 ocorreram com os Estados Unidos, e isso se deve ao fato de que ambas as forças navais convergem em um objetivo: delimitar o entorno estratégico do continente americano como zona de interesse", justifica, ao citar, no caso brasileiro, a Amazônia Azul — território marítimo que chega perto do tamanho de todo o continente europeu.
O especialista destaca ainda que, embora haja tensões diplomáticas recentes, a cooperação militar deve ser entendida como política de Estado, marcada por continuidade histórica. Nesse sentido, exercícios conjuntos refletem uma relação consolidada entre as marinhas ao longo das últimas décadas.
"Então, a Marinha do Brasil ganha com esse tipo de exercício de capacitação, na medida em que, quando a Marinha dos Estados Unidos firma esses acordos de cooperação e de exercícios conjuntos, tudo é previamente bem delimitado entre as autoridades navais competentes. Fica muito bem acordado o que será feito, qual tipo de exercício será realizado, se haverá uso de armamento, quando começa, quando termina e em que contexto essa cooperação será prestada."
Segundo Antunes, essa previsibilidade garante segurança e controle nas operações e permite ganhos mútuos. Enquanto o Brasil amplia sua capacitação operacional, os Estados Unidos também se beneficiam ao operar em um ambiente diferente do seu entorno imediato, como o Atlântico Sul. O especialista ressalta ainda que esse tipo de interação se insere no campo da diplomacia naval, que complementa a diplomacia tradicional. "A gente costuma associar diplomacia a embaixadas e consulados, mas existe também a diplomacia naval, que é fundamental para a capacitação mútua das forças", afirma.
Sobre a presença de grandes meios navais, Antunes pondera que ela pode ser interpretada como demonstração de poder, mas não deve ser automaticamente associada a esse objetivo. Segundo ele, exercícios conjuntos também funcionam como sinalização de presença e cooperação. "Todo tipo de exercício conjunto, embora não tenha como objetivo principal ser uma demonstração de força, pode sim ser interpretado dessa forma. Mas isso não significa que ele tenha sido feito com esse propósito", destaca.
Por fim, o especialista chama atenção para um desafio estrutural do Brasil no campo da defesa. Segundo ele, o país ainda enfrenta limitações como dependência tecnológica e dificuldade de consolidar uma estratégia de longo prazo, o que impacta sua autonomia.
"Se a gente entende que existe uma dependência, seja tecnológica ou doutrinária, isso não é exclusivo da Marinha, mas do Brasil como um todo. E a saída passa por decisões políticas, investimento contínuo e maior integração entre Estado e sociedade", conclui.