Localizada no Ártico, com 5,6 mil quilômetros de extensão, majoritariamente em território russo, a Rota Marítima do Norte é a via mais curta que conecta a Europa e a Ásia. Ela reduz a distância entre os continentes em cerca de 40% quando comparada ao canal de Suez, considerado crucial para o comércio global por conectar o Oriente ao Ocidente através do Egito.
Em 2024, o tráfego pela Rota Marítima do Norte atingiu 37,9 milhões de toneladas, com projeção de crescimento contínuo impulsionado por investimentos e pela coordenação da estatal Rosatom, que centraliza operações e suporte com quebra-gelos.
Dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês) apontam que mais de 80% do comércio global é feito pela via marítima. Diante disso, há uma busca por alternativas menos movimentadas e sem interrupções, como ocorreu em 2021 em Suez quando o cargueiro Evergreen encalhou por seis dias, causando um prejuízo de estimado de US$ 80 milhões.
A rota tampouco é afetada por conflitos, seja pirataria ou o ocorre atualmente com o estreito de Ormuz, que em decorrência da guerra lançada pelos Estados Unidos contra o Irã foi bloqueado por Teerã como forma de pressão.
À Sputnik Brasil, Nathana Garcez Portugal, doutora em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, avalia que a Rota Marítima do Norte tem potencial para ganhar relevância por reduzir significativamente a distância e o consumo de combustível entre portos do Leste Asiático e do Norte da Europa.
"Um único incidente [o encalhe do Evergreen] foi capaz de impactar cadeias globais inteiras. Nesse sentido, a Rota do Mar do Norte oferece uma alternativa que diversifica os corredores marítimos e reduz a dependência de gargalos como Suez."
Porém, ela avalia que, transformar-se em alternativa dominante ao canal de Suez é outra questão. "O canal de Suez possui infraestrutura consolidada, alta previsibilidade operacional e integração com cadeias logísticas globais."
"O cenário mais provável não é de substituição, mas de complementaridade: a Rota do Norte tende a funcionar como corredor estratégico alternativo, especialmente em momentos de crise ou gargalos em Suez."
Para ela, uma das maiores vantagens da rota ártica é evitar áreas de maior risco geopolítico e criminal, como o mar Vermelho e regiões próximas ao golfo de Aden, historicamente associadas a ameaças de pirataria e conflitos. "Por outro lado, os seguros na Rota Marítima do Norte tendem a incorporar outros fatores de risco, como os danos por gelo, falhas mecânicas em temperaturas extremas e dificuldade de salvamento em casos de emergências."
Já Leonardo Paz, professor de relações internacionais do Ibmec-RJ, considera que a Rota Marítima do Norte tem potencial para se consolidar como uma rota comercial bastante relevante e que, sem dúvida, vai diminuir a dependência de rotas tradicionais.
Porém, ainda não é possível saber quanto tempo vai levar até ela se tornar plenamente navegável, nem se será durante todo o ano.
"Tem um porém realmente complexo, que, quanto mais navegável ela ficar, quer dizer que está tendo mais degelo, um maior aquecimento global. O dia que essa rota estiver plenamente navegável, durante todo o ano, é porque a gente vai ter uma série de outros problemas do ponto de vista do aquecimento climático."
A rota ártica beneficia o Brasil?
A situação ao redor de Ormuz fez cair em 31% as exportações brasileiras aos países do golfo Pérsico. Nesse ponto, os especialista avaliaram se a abertura da Rota Marítima do Norte pode beneficiar o Brasil.
Para Paz, a América do Sul como um todo deve se beneficiar pouco com ela devido a distância. "Dificilmente um cargueiro brasileiro vai subir todo o Atlântico para poder chegar no Norte."
Portugal, por sua vez, considera que a Rota Marítima do Norte vai beneficiar o Brasil de forma indireta, uma vez que ela alterará a dinâmica da logística global.
"Se o fluxo entre Ásia e Norte da Europa migrar parcialmente para a rota ártica, portos como Roterdã e de Hamburgo podem reorganizar seus fluxos, o que impacta redes de transbordo utilizadas pelo comércio brasileiro", explica.
Além disso, uma maior eficiência no eixo Ásia-Europa pode aliviar a pressão sobre rotas tradicionais, gerar redistribuição de fretes e alterar custos logísticos globais, beneficiando indiretamente exportadores brasileiros.
"O impacto, portanto, não seria a partir de uma conexão direta, mas sim por meio de uma reconfiguração sistêmica do comércio marítimo."