O presidente argentino Javier Milei acompanhou o depoimento de seu chefe de gabinete, Manuel Adorni, que passou cinco horas respondendo a perguntas sobre uma investigação por possível enriquecimento ilícito. O presidente, que raramente participa desse tipo de sessão, observou enquanto Adorni negava irregularidades e prometia provar sua inocência na Justiça.
O episódio transformou um relatório de rotina em um momento político tenso para um governo já pressionado por dois meses de escândalos e dificuldades econômicas. Pesquisas recentes mostram queda consistente na popularidade de Milei, que recuou dos 40% para a casa dos 30%, enquanto índices de confiança também despencam.
Segundo a mídia britânica, eleitores que celebraram sua vitória em 2023 agora expressam frustração diante da deterioração econômica. A oposição, embora ainda impopular, começa a se reorganizar e buscar nomes para 2027, em um cenário que analistas descrevem como mais aberto do que parecia no início do mandato.
A economia é o principal fator de desgaste. Apesar da desaceleração da inflação, a atividade no varejo e na indústria caiu, os salários reais encolheram e o desemprego atingiu o pior nível para um quarto trimestre desde 2020. De acordo com a apuração, comerciantes relatam queda nas vendas e percebem que as políticas do governo favorecem grandes empresas.
Nesse ambiente, escândalos envolvendo patrimônio de autoridades ampliaram a indignação pública. O caso mais sensível é o de Adorni, investigado por compras de imóveis e viagens incompatíveis com sua renda declarada. Ele afirma que adversários tiraram conclusões equivocadas, mas o desgaste político se intensifica.
Outros episódios incluem a renúncia de um alto funcionário por ocultar bens no exterior e novas revelações sobre o envolvimento de Milei em um suposto esquema de criptomoedas, que ele nega. Embora analistas apontem que parte das irregularidades possa estar ligada à sonegação generalizada no país, o impacto político é forte, já que Milei fez do combate à corrupção uma bandeira central de seu governo.
A crise se agrava com a ofensiva do presidente contra a imprensa, após barrar jornalistas do palácio presidencial por uma semana e intensificar ataques nas redes sociais. Paralelamente, cresce uma disputa interna entre Karina Milei e o estrategista Santiago Caputo, alimentando suspeitas de vazamentos e sabotagens dentro do próprio governo.
Apesar de avanços no controle da inflação e projeções de crescimento do Fundo Monetário Internacional (FMI), os benefícios se concentram em setores exportadores que empregam pouca gente, afirmou a mídia. Indústria e varejo sofrem com importações mais baratas, juros altos e perda de renda, enquanto a percepção pública sobre a economia segue negativa.
Analistas consultados pela apuração afirmam que o governo precisa reequilibrar prioridades e focar na atividade econômica para recuperar apoio antes das eleições de meio de mandato. Medidas recentes, como congelamento de combustíveis e estímulos ao crédito, são vistas como sinais iniciais, mas ainda insuficientes para reverter a sensação de piora entre os argentinos, para quem o caso Adorni se tornou um símbolo do descontentamento crescente.