O presidente do Equador,
Daniel Noboa, acusou Petro de
instigar guerrilheiros a entrar no território equatoriano. Em postagem nas redes sociais, ele disse ter sido informado por
"múltiplas fontes" da incursão, feita através da fronteira norte que os países dividem.
Petro rebateu as falas de Noboa e acusou o equatoriano de firmar uma aliança conservadora com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe para sabotar as eleições presidenciais do país deste ano.
Ele disse ainda que o governo colombiano sabe que armas e explosivos que municiam o narcotráfico entram na Colômbia através da fronteira equatoriana e anunciou um plano de segurança para a região.
O episódio é mais um na
crise diplomática entre os países sul-americanos, intensificada em 16 de março, após um ataque aéreo em território colombiano resultar em 27 mortos. Petro acusou o Equador de realizar a investida; Noboa negou qualquer incursão no país vizinho.
Hugo Albuquerque, jurista, analista geopolítico e editor da Autonomia Literária, afirma à
Sputnik Brasil que historicamente os países são bastante próximos, mais do que a média da América Latina, já tendo sido até mesmo uma mesma nação,
a Grã-Colômbia. No entanto, ele lembra que a tensão atual não é a primeira vivenciada entre os países, com uma situação bastante similar no passado, quando a Colômbia era governada por um presidente de direita, Álvaro Uribe, e o Equador pelo socialista Rafael Correa.
Agora, ele aponta uma "situação inversa". Para ele, na prática, o Equador tem sido uma base para a ação norte-americana, mesmo com o governo norte-americano sendo impopular entre a população equatoriana, que votou contra a presença de bases estadunidenses no país.
No entanto, ele frisa que algumas ações não são necessariamente planejadas pelos EUA e partem do próprio Noboa. "É difícil saber o que é planejado desde os EUA e o que é planejado a partir de Quito, mas tem muita coisa que parte do Noboa organicamente."
Ricardo Leães, professor e pesquisador de relações internacionais, avalia que a raiz da crise diplomática entre Colômbia e Equador é a agenda adotada pelos EUA para dominar a América Latina. Ele destaca que, em 2025, o governo estadunidense publicou sua Estratégia Nacional de Segurança, documento que delineia as principais estratégias do país em relação ao mundo.
"Ele fala na busca por se articular com governos parceiros da região, e aí a gente vê uma articulação que existe com governantes de extrema-direita, como os da Argentina, do Chile e também do Equador."
Leães enfatiza que a Estratégia Nacional de Segurança dos EUA também fala em evitar a atuação de potências extrarregionais na região, uma maneira de se referir à China e à Rússia. "Ou seja, Trump quer que as Américas sejam só para os americanos, no caso os estadunidenses."
Por fim, no documento a Casa Branca enfatiza o combate ao narcotráfico, equiparando traficantes à terroristas. Na visão de Leães, Noboa tenta se alinhar a essa agenda, buscando "emular um pouco do 'sucesso'" da guerra às drogas que o presidente salvadorenho, Nayib Bukele, teve em El Salvador.
A estratégia do equatoriano inclui ilustrar um contraste com a figura de Petro, uma vez que durante muito tempo as FARC foram associadas ao narcotráfico. "Ele quer botar a pecha de que a extrema-direita combate o narcotráfico, enquanto a esquerda é a favor do narcotráfico."
A situação se agrava ainda mais devido às
eleições na Colômbia no fim do ano. "Donald Trump já teceu críticas públicas contra Petro e certamente não quer que o candidato de Petro se eleja." Nesse prisma,
Noboa se coloca como um "bom soldado" de Washington, e, por isso, não há nada que o Brasil ou qualquer outro país latino-americano possa fazer para mediar a crise.