2ª Guerra Mundial: ecos, lições e marcas no século XXI

Monumento de Pistoia: onde repousa o corpo do único soldado desconhecido brasileiro da 2ª Guerra (VÍDEOS)

O Monumento Votivo Militar Brasileiro, em Pistoia, foi erguido no terreno do antigo Cemitério Militar Brasileiro em dezembro de 1944 para receber os mortos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Em 1960, os corpos dos pracinhas foram trasladados para o Rio de Janeiro, com exceção de um, que está enterrado como soldado desconhecido.
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Os restos mortais do único combatente brasileiro que repousa no local foram encontrados nos escombros da cidade de Montese após buscas lideradas pelo ex-combatente Miguel Pereira. Ele constituiu família em território italiano no pós-guerra, conforme conta seu filho, Mario, que ainda reside em Pistoia, em entrevista à Sputnik Brasil para o sétimo capítulo da série "Segunda Guerra Mundial: ecos, lições e marcas no século XXI".

"Quando o monumento foi inaugurado, em 1966, um senhor disse ao meu pai que havia sepultado durante a guerra um soldado brasileiro. Meu pai, que já havia encontrado outros corpos de membros da FEB, pesquisou e pediu autorizações para fazer a escavação nos escombros de Montese e o encontrou quase um ano depois. Não havia identificação, e no bolso de sua calça havia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida", disse.

Há alguns anos, tentou-se identificar esse combatente por meio de um exame de DNA. Na época, suspeitava-se que fosse Fredolino Chimango, mas o teste descartou essa hipótese. O fato é relatado por Daniel Dinucci, historiador especialista na FEB e autor do livro "São Gonçalo e a Segunda Guerra Mundial (1944–45)", ainda a ser lançado, que também falou com a reportagem da Sputnik.

"Em 2021, o historiador Helton Costa, em parceria com um italiano e com a colaboração financeira de muitas pessoas, conseguiu pegar o DNA dos parentes vivos de Fredolino Chimango para fazer comparação genética com o corpo que foi encontrado apenas em 1967, e foi constatado que não era ele. Portanto, o soldado desconhecido, há mais de 80 anos, segue sem ter sua identidade revelada", comenta.

Dinucci também enfatiza que a busca para saber a identidade do soldado desconhecido foi uma empreitada privada, sem ajuda governamental, e também aponta que a suspeita de que pudesse ser Chimango partiu de livros, inclusive escritos por pracinhas.

"Alguns livros, inclusive escritos por ex-combatentes, apontavam que era Fredolino Chimango. A tentativa para descobrir de quem é aquele corpo, que foi encontrado sem a dog tag [placa de identificação], foi uma iniciativa particular. Inclusive, um biólogo italiano entrou em contato com muitos brasileiros e não obteve resposta", discorre.

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Soldado brasileiro da FEB, Miguel Pereira, se casou no pós-guerra com a italiana Giuliana Menichini
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Antigo Cemitério Militar Brasileiro, em Pistoia
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Mario Pereira, filho de ex-combatente cuidou do Monumento Votivo Militar Brasileiro, em Pistoia por muitos anos
Mario Pereira, que também é pesquisador da FEB, contou que seu pai, no período em que os restos mortais foram encontrados, chegou a dizer que não era o corpo de Fredolino, porque ele o conhecia anteriormente.

"Alguns falavam que poderia ser o cabo Fredolino Chimango, que morreu durante a batalha de Montese. Ele, assim como meu pai, era de Passo Fundo [RS]. Meu pai conhecia muito bem o Chimango e muitas vezes dizia que aquele corpo do soldado desconhecido não era do Fredolino", revela.

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Bunkers na 'Cidade Maravilhosa': a memória esquecida da 2ª Guerra Mundial no Brasil (FOTOS, VÍDEOS)

Memórias do front e do pós-guerra em Pistoia

Atualmente, o espaço é administrado pelo Exército Brasileiro, mas por muito tempo esteve sob os cuidados do ex-combatente e integrante do 2º escalão da FEB, Miguel Pereira, já falecido, e de seu filho Mario, que relembra como seu pai se tornou encarregado de zelar pelo antigo cemitério, que anos mais tarde seria transformado em memorial.

"Meu pai chegou à Itália em outubro de 1944, era sargento. Quando a guerra acabou, voltou ao Brasil, mas prometeu casar com minha mãe e retornou em 1947 ao ser incluído na 3ª Guarda do cemitério. Quando os corpos foram exumados [e levados para o Rio], ele teve que partir, mas acabou sendo designado para ser o guardião do monumento, antes de achar o corpo do soldado desconhecido que ainda repousa aqui", detalha.

O pesquisador também relembrou como o pai, Miguel, conheceu sua mãe, Giuliana Menichini, durante o confronto, e confidenciou uma passagem que ela sempre contava: quando o então combatente trouxe um pacote de açúcar ao conhecer seus pais, ela ficou muito feliz com isso. Esse singelo relato reflete o período severo de escassez de comida, e essa lembrança ainda persiste na região.

"Minha mãe sempre lembrava que meu pai, quando começou a conhecer meus avós, levou um quilo de açúcar. Ela pegou uma colher de sopa e começou a comer porque fazia anos que não conseguia comer açúcar [devido à escassez]. Isso [de não desperdiçar comida] ainda se vê nas pessoas que viveram a guerra. Foi uma lição para a vida", relembra.

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A 2ª Guerra e os feitos da FEB seguem 'vivos' no Brasil pela reencenação histórica (VÍDEOS E FOTOS)

Legado da FEB na Itália ainda segue em construção

Apesar de todos os feitos dos expedicionários na libertação da população italiana do jugo nazifascista, segundo Mario, muitos ainda desconhecem essa história ou até mesmo minimizam a participação brasileira no conflito.

"A FEB ainda é muito lembrada e conhecida na área por onde passou. Mas no restante da Itália, ninguém sabe, porque nos livros escolares os aliados são os ingleses e americanos. Quando eu era jovem, na escola, eu levantava a mão para falar que era filho de um ex-combatente quando os professores colocavam a participação do Brasil como secundária", relata.

Para Dinucci, parte desse desconhecimento se deve tanto ao fato de a FEB ter feito parte de uma divisão do 5º Exército dos EUA e ter ficado focada em uma região, quanto à ausência de políticas públicas para que o esforço de guerra do Brasil seja lembrado, o que pode ter contribuído para esse parcial esquecimento e relativização por parte dos italianos.

"Cada local cria a sua memória sobre a guerra. A Itália foi ocupada por tropas alemãs e depois, com a invasão da Sicília pelo exército dos EUA, do qual o Brasil fazia parte, junto com demais forças aliadas, focou em algumas cidades como Montese e Pistoia. Uma maneira de difundir essa história seria por meio de políticas públicas, que deveriam ter sido feitas ainda na época da guerra", conclui.

Os estudos acadêmicos sobre a Segunda Guerra Mundial, assim como os relatos pessoais, são complementares não apenas para contar a história do conflito entre países, mas também para detalhar a vida cotidiana e como o campo de batalha marcou a vida dessas pessoas, que tipo de legado histórico-cultural foi deixado e quais lições foram aprendidas para que os mesmos erros não se repitam.
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