"Quando o monumento foi inaugurado, em 1966, um senhor disse ao meu pai que havia sepultado durante a guerra um soldado brasileiro. Meu pai, que já havia encontrado outros corpos de membros da FEB, pesquisou e pediu autorizações para fazer a escavação nos escombros de Montese e o encontrou quase um ano depois. Não havia identificação, e no bolso de sua calça havia uma imagem de Nossa Senhora Aparecida", disse.
"Em 2021, o historiador Helton Costa, em parceria com um italiano e com a colaboração financeira de muitas pessoas, conseguiu pegar o DNA dos parentes vivos de Fredolino Chimango para fazer comparação genética com o corpo que foi encontrado apenas em 1967, e foi constatado que não era ele. Portanto, o soldado desconhecido, há mais de 80 anos, segue sem ter sua identidade revelada", comenta.
"Alguns livros, inclusive escritos por ex-combatentes, apontavam que era Fredolino Chimango. A tentativa para descobrir de quem é aquele corpo, que foi encontrado sem a dog tag [placa de identificação], foi uma iniciativa particular. Inclusive, um biólogo italiano entrou em contato com muitos brasileiros e não obteve resposta", discorre.
"Alguns falavam que poderia ser o cabo Fredolino Chimango, que morreu durante a batalha de Montese. Ele, assim como meu pai, era de Passo Fundo [RS]. Meu pai conhecia muito bem o Chimango e muitas vezes dizia que aquele corpo do soldado desconhecido não era do Fredolino", revela.
Memórias do front e do pós-guerra em Pistoia
"Meu pai chegou à Itália em outubro de 1944, era sargento. Quando a guerra acabou, voltou ao Brasil, mas prometeu casar com minha mãe e retornou em 1947 ao ser incluído na 3ª Guarda do cemitério. Quando os corpos foram exumados [e levados para o Rio], ele teve que partir, mas acabou sendo designado para ser o guardião do monumento, antes de achar o corpo do soldado desconhecido que ainda repousa aqui", detalha.
"Minha mãe sempre lembrava que meu pai, quando começou a conhecer meus avós, levou um quilo de açúcar. Ela pegou uma colher de sopa e começou a comer porque fazia anos que não conseguia comer açúcar [devido à escassez]. Isso [de não desperdiçar comida] ainda se vê nas pessoas que viveram a guerra. Foi uma lição para a vida", relembra.
Legado da FEB na Itália ainda segue em construção
"A FEB ainda é muito lembrada e conhecida na área por onde passou. Mas no restante da Itália, ninguém sabe, porque nos livros escolares os aliados são os ingleses e americanos. Quando eu era jovem, na escola, eu levantava a mão para falar que era filho de um ex-combatente quando os professores colocavam a participação do Brasil como secundária", relata.
"Cada local cria a sua memória sobre a guerra. A Itália foi ocupada por tropas alemãs e depois, com a invasão da Sicília pelo exército dos EUA, do qual o Brasil fazia parte, junto com demais forças aliadas, focou em algumas cidades como Montese e Pistoia. Uma maneira de difundir essa história seria por meio de políticas públicas, que deveriam ter sido feitas ainda na época da guerra", conclui.