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Queda de Assad dá protagonismo à Turquia e faz Erdogan ser 'bajulado' por europeus, notam analistas

© AP Photo / Darko VojinovicRecep Tayyip Erdogan durante uma reunião em Belgrado. Sérvia, 11 de outubro de 2024
Recep Tayyip Erdogan durante uma reunião em Belgrado. Sérvia, 11 de outubro de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 23.01.2025
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Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que a Síria é a "galinha dos ovos de ouro" do Oriente Médio e que a Turquia tem tido um papel relevante no país desde 2016.
Há um mês, o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) chegou ao poder na Síria derrubando o governo de Bashar al-Assad e com a promessa de uma gestão moderada. Desde então, o tabuleiro geopolítico da Síria segue indefinido, passando por mudanças internas e externas e tornando o futuro do país uma incógnita.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas analisam a possibilidade de a crise da Síria ser solucionada este ano e quais os países interessados no território sírio.
Andrew Traumann, professor de relações internacionais no Centro Universitário Curitiba (UniCuritiba), mostra-se cético quanto a um futuro moderado na Síria sob o governo do HTS, que já foi parte integrante do Daesh (organização proibida na Rússia e em vários outros países).

"Eu vejo como uma jogada de marketing essa moderação, porque ao mesmo tempo que há esse discurso para o público externo, há também para o público interno. A gente tem visto declarações oficiais falando: 'Esse aqui vai ser o Estado sunita, islâmico etc.' Nós já temos notícias de perseguições a minorias", afirma.

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Segundo Traumann, a saída de Assad deu protagonismo à Turquia e ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que já vem sendo "bajulado" pela União Europeia (UE) por ser considerado uma pessoa-chave nas negociações para a transição do novo governo sírio. Isso porque Erdogan vem tendo um papel bastante relevante no conflito sírio desde 2016.

"Isso tudo vai começar muito mais por causa do surgimento de um grupo chamado YPG, que é considerado um dos braços do PKK, que a Turquia considera como um grupo terrorista, e é um grupo de libertação curda […]. Os curdos têm presença em quatro países: na Síria, no Iraque, no Irã e, evidentemente, na própria Turquia. Eles têm essa ambição de criar um Curdistão, essa ambição de criar um Estado nacional. Por isso, a Turquia interveio."

No entanto, ele considera difícil para os curdos concretizarem o desejo de criar seu próprio Estado, porque o território abrange quatro países, sendo um deles a Turquia, um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Com isso, os curdos não têm apoio nem de atores relevantes do Oriente Médio nem a simpatia do Ocidente à causa.
Dominique Marques, professora de relações internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), enfatiza que a queda de Assad fortaleceu o papel da Turquia como ator relevante no Oriente Médio, sobretudo com a Rússia concentrada no conflito ucraniano.

"A Turquia já vem querendo assumir um papel de liderança no Oriente Médio por conta da questão de Israel com a Palestina. Então Erdogan diz assim: 'Olha, vamos unir os povos aqui dentro da questão do Islã.' [Ele] quer assumir aquela postura de Império Otomano novamente. Isso não é tão abertamente falado, mas é essa a ideia. E a Turquia quer se colocar como uma liderança. Com a saída do Assad, ela tem mais capacidade de assumir esse papel, e isso pode ativar outros conflitos na região, com outros países ali querendo disputar essa liderança com a Turquia", afirma.

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Ela destaca que há suspeita de que a ascensão do HTS na Síria foi auxiliada pela Turquia por meio do envio de armamentos.
"A princípio, está parecendo um acordo onde a Turquia permitiu acesso a armas por esse grupo. Até se você vê onde eles [HTS] atuaram, a estratégia, a logística militar, dá a entender que todo esse financiamento pode ter vindo da Turquia. […] Parece que há um acordo ali, pelo menos um acordo que não foi declarado oficialmente, onde a Turquia diz para esse grupo [HTS]: 'Olha, eu apoio você para que você aja assim, de forma repentina', que tira rapidamente o Assad do poder. E esse grupo agora se compromete a manter a integridade territorial da Síria. Então, para o Erdogan, isso é muito estratégico, porque se o grupo está dizendo que vai manter a integridade, é a mesma coisa que dizer que não vai deixar os curdos ganharem espaço."
Marques afirma ainda que a queda de Assad possibilita para Erdogan colocar em prática o plano de enviar de volta para a Síria os cerca de 3,5 milhões de refugiados sírios que hoje estão na Turquia — país que durante o auge da crise de refugiados na Europa, desencadeada pela guerra na Síria, acordou ser uma espécie de "escudo" para países europeus, contendo o fluxo de imigrantes.

"Você tem agora o próprio Erdogan com acordos ali com o HTS do tipo: 'Olha, se estabilizar a região, eu mando todo mundo de volta, e você tem uma população com disponibilidade de estar com mão de obra para reconstruir o país e a economia e voltar tudo a funcionar'", afirma.

Ela frisa que a Turquia é um país estratégico que perdeu o seu poder desde a repartição do Império Otomano, que reduziu o território somente à Turquia, e hoje deseja assumir o papel de líder da resistência do Oriente Médio contra Israel que um dia foi do Iraque e atualmente é do Irã.
"Também teve a questão das guerras mundiais, onde a Turquia não teve o domínio pela passagem dos navios nos seus estreitos. Então tem uma síndrome ali [na Turquia] de se sentir pequena diante do que já foi um dia. Acredito que, nessa busca pela retomada da força que um dia representou historicamente, pode ser que a Turquia, sim, assuma esse papel", afirma.
Nesse contexto, ela afirma que a Síria é uma grande oportunidade, por ser um território estratégico e central entre os países importantes da região.

"Não à toa, [a Síria] foi um território que ficou marcado por uma guerra desde 2011, e com intervenções de vários outros países. Então é a galinha dos ovos de ouro da região, com certeza. O país que conseguir assumir um controle vai estar garantindo estabilidade, pelo menos pelos próximos anos."

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