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Venezuela e Irã na mira: interesse político, energético ou um ataque dos EUA à multipolaridade?
Venezuela e Irã na mira: interesse político, energético ou um ataque dos EUA à multipolaridade?
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De um lado, crescem as tensões na Venezuela após os Estados Unidos sequestrarem o presidente Nicolás Maduro e tentarem controlar o setor petrolífero. Do outro... 06.01.2026, Sputnik Brasil
2026-01-06T18:50-0300
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Ao longo dos últimos dez anos, sanções econômicas unilaterais impostas pelos Estados Unidos à Venezuela afetaram severamente a competitividade da indústria petrolífera do país e o cotidiano da população. Em 2018, o país chegou a registrar inflação de cinco dígitos, em meio à queda da produção e à restrição de investimentos.Esse processo se intensificou como parte de uma estratégia de desestabilização política, que culminou no episódio ocorrido no último fim de semana, quando forças norte-americanas sequestraram o presidente Nicolás Maduro sob a justificativa de combate ao chamado "narcoterrorismo". A crise só não se aprofundou devido ao apoio político que a vice-presidente Delcy Rodríguez obteve para assumir interinamente o governo.A muitos quilômetros de distância, no Oriente Médio, o Irã também foi alvo de uma política parecida, iniciada ainda antes e que em 2013 chegou a levar o país a reduzir a exportação de petróleo aos níveis de 1986. Atualmente, o país convive com problemas cambiais e volta a ser ameaçado pelos Estados Unidos, que dessa vez culpa o programa nuclear iraniano. E o que esses dois países têm em comum: abrigam algumas das maiores reservas de petróleo do mundo.A doutora em economia política internacional e diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), Ticiana Alvares, afirma à Sputnik Brasil que, no caso da Venezuela, a disputa geopolítica em torno do país vai muito além da disputa pelo acesso aos recursos petrolíferos venezuelanos.A especialista ainda cita o papel da China e da Rússia no país, com parcerias estratégicas que se fortaleceram nos últimos anos. "Eu acho que é uma questão [o ataque contra a Venezuela] muito ancorada na geopolítica, nas disputas interestatais atuais e, principalmente, na transição do poder hegemônico dos Estados Unidos, de um mundo unipolar, em direção à multipolaridade".Já em relação ao Irã, que tem intensificado sua atuação estratégica no estreito de Ormuz, incluindo a apreensão de petroleiros que transitam por uma região responsável pelo transporte de cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo, o jurista, editor da Autonomia Literária e analista geopolítico Hugo Albuquerque avalia à Sputnik Brasil que a iniciativa representa uma forma de autodefesa."A questão de Ormuz para o Irã é um controle de um petróleo que é desaguado desde o Golfo Pérsico prioritariamente. Na verdade, há um objetivo da geopolítica norte-americana de redesenhar as rotas de transporte de petróleo, deslocando sua centralidade do Golfo Pérsico para regiões como a Península Arábica e, possivelmente, para corredores que envolvem a Turquia e a Síria. Esse é um processo que ainda está em curso e que, no curto e médio prazo, não elimina a importância estratégica da região", destaca.A diretora técnica do Ineep complementa que também há uma reação do país diante da retomada de sanções, aliada ao aumento de pressões externas que levaram a esse tipo de reação.De tentativas de golpe a revoluções coloridas: as ameaças contra a VenezuelaConforme Ticiana Alvares, muito antes do ataque direto realizado contra a Venezuela no último fim de semana, o país é alvo de uma campanha de desestabilização já desde 2002, quando houve uma tentativa de golpe contra o então presidente Hugo Chávez. Desde então, ocorreram processos eleitorais tensionados, tentativas de guerras híbridas e até revoluções coloridas estimuladas no país."Há mais de dez anos, com maior intensidade, as sanções vêm sendo aplicadas. Elas não são apenas econômicas, mas também financeiras, assim como acontece com o Irã, estrangulando economicamente o país. Essas sanções são contra a Venezuela e também contra os instrumentos que o país tem para se desenvolver, como a PDVSA. Elas impactaram de maneira significativa a produção de petróleo venezuelano, reduzindo investimentos necessários para a extração de um petróleo mais pesado, que é característico do país. Sem dúvida, o uso de armas econômicas e financeiras contra Irã e Venezuela gera respostas", argumenta.Tentativa de fortalecer o 'petrodólar'?Para além do controle da produção e distribuição do petróleo, outro fator que pesa na motivação das ações dos Estados Unidos, segundo Hugo Albuquerque, é a tentativa de manter o uso hegemônico do dólar como moeda nas transações financeiras relacionadas ao setor. Isso porque, nos últimos anos, as sanções mundo afora geraram como reação o aumento do uso de moedas locais nesses processos, a exemplo do rublo e do yuan.Apesar do cenário atual, o especialista questiona se essas políticas terão algum efeito no preço do barril de petróleo: até o momento, segundo Albuquerque, não há sinais de elevação."Essa é a realidade observada no momento atual: há uma tendência de manutenção dos preços em patamares baixos. Diferentemente do que ocorria no passado, quando os interesses econômicos da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] provocavam variações bruscas nos preços diante de qualquer instabilidade envolvendo países produtores de petróleo — mesmo que isso fosse prejudicial aos Estados Unidos. Pode haver alguma oscilação caso surja uma crise interna nos EUA e a situação saia do controle. Ainda assim, no cenário atual, até que isso ocorra, a tendência predominante é de estabilidade", finaliza.
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Analista: apreensões no Estreito de Ormuz são resposta estratégica do Irã
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Venezuela e Irã na mira: interesse político, energético ou um ataque dos EUA à multipolaridade?
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De um lado, crescem as tensões na Venezuela após os Estados Unidos sequestrarem o presidente Nicolás Maduro e tentarem controlar o setor petrolífero. Do outro, o Irã usa o estreito de Ormuz, por onde passa um terço do petróleo mundial, como forma de autodefesa contra sanções. Quais os efeitos dessas ações para o xadrez geopolítico?
Ao longo dos últimos dez anos,
sanções econômicas unilaterais impostas pelos Estados Unidos à Venezuela afetaram severamente a competitividade da indústria petrolífera do país e o cotidiano da população. Em 2018, o país chegou a
registrar inflação de cinco dígitos, em meio à
queda da produção e à restrição de investimentos.
Esse processo se intensificou como parte de
uma estratégia de desestabilização política, que culminou no episódio ocorrido no último fim de semana, quando forças norte-americanas sequestraram o presidente Nicolás Maduro sob a justificativa de combate ao chamado "narcoterrorismo". A crise só não se aprofundou devido ao apoio político que a
vice-presidente Delcy Rodríguez obteve para assumir interinamente o governo.
A muitos quilômetros de distância, no Oriente Médio, o Irã também foi alvo de uma política parecida, iniciada ainda antes e que em 2013 chegou a levar o país a
reduzir a exportação de petróleo aos níveis de 1986. Atualmente, o país convive com problemas cambiais e volta a ser ameaçado pelos Estados Unidos, que dessa vez culpa o
programa nuclear iraniano. E o que esses dois países têm em comum: abrigam algumas das maiores reservas de petróleo do mundo.
A doutora em economia política internacional e diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), Ticiana Alvares, afirma à Sputnik Brasil que, no caso da Venezuela, a disputa geopolítica em torno do país vai muito além da disputa pelo acesso aos recursos petrolíferos venezuelanos.
"É muito mais do que um interesse propriamente no petróleo [...], mas recuperar o controle das Américas para os americanos, resgatando a Doutrina Monroe. Os recursos energéticos são muito mais um meio do que um fim, porque, se a gente for observar, os Estados Unidos são um grande produtor de petróleo. Eles não têm hoje um problema de insegurança energética. O próprio preço do petróleo está mais baixo, e o petróleo da Venezuela exige grandes investimentos para recuperar o nível de produção de dez anos atrás", argumenta.
A especialista ainda cita o papel da China e da Rússia no país, com parcerias estratégicas que se fortaleceram nos últimos anos.
"Eu acho que é uma questão [o ataque contra a Venezuela] muito ancorada na geopolítica, nas disputas interestatais atuais e, principalmente, na transição do poder hegemônico dos Estados Unidos, de um mundo unipolar, em direção à multipolaridade".
Já em relação ao Irã, que tem intensificado sua atuação estratégica no
estreito de Ormuz, incluindo a apreensão de petroleiros que transitam por uma região responsável pelo transporte de
cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo, o jurista, editor da Autonomia Literária e analista geopolítico Hugo Albuquerque avalia à Sputnik Brasil que a iniciativa representa uma forma de autodefesa.
"A questão de Ormuz para o Irã é um controle de um petróleo que é desaguado desde o Golfo Pérsico prioritariamente. Na verdade, há um objetivo da geopolítica norte-americana de redesenhar as rotas de transporte de petróleo, deslocando sua centralidade do Golfo Pérsico para regiões como a Península Arábica e, possivelmente, para corredores que envolvem a Turquia e a Síria. Esse é um processo que ainda está em curso e que, no curto e médio prazo, não elimina a importância estratégica da região", destaca.
A diretora técnica do Ineep complementa que também há uma
reação do país diante da retomada de sanções, aliada ao aumento de pressões externas que levaram a esse tipo de reação.
"Há também as instabilidades em Israel, que acabam envolvendo o Irã, já que se trata de um cenário fortemente respaldado pelos Estados Unidos no Oriente Médio. Essas apreensões geram tensões que impactam a circulação marítima [...]. A atuação do Irã é, portanto, uma reação a um processo mais amplo e complexo, que envolve as principais potências mundiais. Vale lembrar ainda o contexto recente dos BRICS, com a ampliação do grupo e a entrada do país, além de outras regiões detentoras de recursos energéticos, sobretudo petrolíferos. Nada disso ocorre por coincidência ou acaso; tudo está inserido em um contexto geopolítico mais amplo", diz.
De tentativas de golpe a revoluções coloridas: as ameaças contra a Venezuela
Conforme Ticiana Alvares, muito antes do ataque direto realizado contra a Venezuela no último fim de semana, o país é alvo de uma campanha de desestabilização já desde 2002, quando houve uma
tentativa de golpe contra o então presidente Hugo Chávez. Desde então, ocorreram processos eleitorais tensionados, tentativas de guerras híbridas e até
revoluções coloridas estimuladas no país.
"Há mais de dez anos, com maior intensidade, as sanções vêm sendo aplicadas. Elas não são apenas econômicas, mas também financeiras, assim como acontece com o Irã, estrangulando economicamente o país. Essas sanções são contra a Venezuela e também contra os instrumentos que o país tem para se desenvolver, como a PDVSA. Elas impactaram de maneira significativa a produção de petróleo venezuelano, reduzindo investimentos necessários para a extração de um petróleo mais pesado, que é característico do país. Sem dúvida, o uso de armas econômicas e financeiras contra Irã e Venezuela gera respostas", argumenta.
Tentativa de fortalecer o 'petrodólar'?
Para além do controle da produção e distribuição do petróleo, outro fator que pesa na motivação das ações dos Estados Unidos, segundo Hugo Albuquerque, é a tentativa de manter o
uso hegemônico do dólar como moeda nas transações financeiras relacionadas ao setor. Isso porque, nos últimos anos, as sanções mundo afora geraram como reação o aumento do uso de moedas locais nesses processos,
a exemplo do rublo e do yuan.
"É uma medida mais geral na hegemonia não só do controle energético, mas de como você compra energia no mundo. É uma medida disciplinar, portanto, no sentido em que se mantém o sistema do petrodólar, de que o petróleo é a base energética do mundo e vai continuar sendo, e o petróleo é trocado somente por dólar. Esse é o fundamento dessa ação norte-americana na Venezuela, e de todas as outras que têm sido tomadas há dez anos", conta.
Apesar do cenário atual, o especialista questiona se essas políticas terão algum efeito no preço do barril de petróleo: até o momento, segundo Albuquerque, não há sinais de elevação.
"Essa é a realidade observada no momento atual: há uma tendência de manutenção dos preços em patamares baixos. Diferentemente do que ocorria no passado, quando os interesses econômicos da
OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] provocavam variações bruscas nos preços diante de qualquer instabilidade envolvendo países produtores de petróleo — mesmo que isso fosse prejudicial aos Estados Unidos. Pode haver alguma oscilação caso surja uma crise interna nos EUA e a situação saia do controle. Ainda assim, no cenário atual, até que isso ocorra, a
tendência predominante é de estabilidade", finaliza.
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