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Pixo que não acaba: movimento de rua em SP resiste apesar da repressão estatal
Pixo que não acaba: movimento de rua em SP resiste apesar da repressão estatal
Sputnik Brasil
A cena urbana de São Paulo costuma ser tratada como caos, arte, crime ou tudo isso ao mesmo tempo, talvez a depender de quem olha. 20.01.2026, Sputnik Brasil
2026-01-20T16:43-0300
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Mas, para quem vive dentro dela, o pixo, grafite, adesivagem e tantas outras subculturas formam um ecossistema próprio, cheio de códigos e disputas.Os "artistas de rua" vêm de trajetórias distintas, mas encontram um mesmo ponto de partida: a rua.Um dos nomes históricos da pixação paulistana, Fernando Araken, 52, afirmou à Sputnik Brasil que a capital foi decisiva para o surgimento da estética do pixo, marcada por letras alongadas, assinaturas específicas e disputas territoriais.Ele descreve o início da cena nos anos 1980, quando a periferia buscava referências próprias em meio à ausência de acesso à cultura visual internacional.Segundo ele, o estilo local se desenvolveu de forma autônoma, sem contato com o grafite norte-americano. "A gente não tinha referência nenhuma. Se tivesse acesso ao Wild Style, talvez fosse pra outro caminho. Mas a estética veio justamente por não ter referência."Araken começou a pichar aos 14 anos, enquanto trabalhava como office boy no centro e andava de skate. Ele diz que a rua foi o ambiente que o formou.Percepção públicaA artista Julia Coração diz que sua entrada na arte de rua começou por acaso, ainda adolescente, quando encontrou restos de adesivos e passou a desenhar sobre eles. Na época, ela morava em Mauá, na região metropolitana de São Paulo, onde, segundo ela, "a cena da pixação sempre foi muito forte", mas quase não havia stickers espalhados pelas ruas.A mudança ocorreu quando começou a viajar diariamente para a capital e percebeu que placas e semáforos viviam "forrados" de adesivos. A artista criou sua assinatura — um desenho de uma pequena xícara — e escalou, literalmente, a própria escala da rua — dos adesivos tímidos ao pixo, que exige tanto técnica quanto atitude.Criada de forma "muito submissa", como ela própria define — "sempre fui criada para pedir desculpa para o pano de chão ao passar em cima do pano de chão" —, a artista diz que a rua se tornou um espaço de transformação. "Eu percebia que demandava uma atitude, e esse foi o início desse meu interesse por esse mundo."Ela diz que nunca imaginou que se veria em práticas mais arriscadas. "A Júlia de dez anos atrás jamais imaginaria que teria coragem de, meu Deus, chegar num lugar e fazer um pixo."Segundo ela, "a pichação com certeza está no outro lado desse espectro, porque é uma repressão que não tem a menor comparação", já que outras artes como grafite ou adesivagem não são tão mal vistas.Para Araken, o caráter contestatório sempre fez parte da cena. "Ser crítico, ele sempre foi. Você vê pelos nomes que as gangues escolheram: máfia, arame sujo, aloprados. Tudo já era contestação". Para ele, a cidade também abriga feitos que moldaram o imaginário do pixo. "Teve cara que subiu 22 andares pelo lado de fora. Pra uns é loucura, pra outros é heroísmo."O artista Louiz Silveira, o "Índio Emo", afirma que a pixação em São Paulo segue viva apesar da repressão e dos ataques a espaços de convivência usados por pichadores. Ele afirma que esses lugares têm sido "atacados", citando a rua Dom José, conhecida pela cena como Rua do Pixo.Ele diz que governantes têm interesse direto em enfraquecer a cena: "A extrema direita está muito de olho nesse movimento porque sabe do poder que a gente tem — do hip-hop, do punk, do rap e do pixo".Questionada pela Sputnik Brasil, a Polícia Militar de São Paulo afirmou que o grafite é uma "manifestação artística e cultural legítima", capaz de "embelezar os espaços urbanos" quando há autorização do proprietário ou do poder público.A corporação ressalta que artistas brasileiros têm reconhecimento internacional e que intervenções visuais, quando regularizadas, "fortalecem a identidade cultural das cidades".Já a pichação, segundo a PM, continua enquadrada como crime ambiental previsto na Lei 9.605/98, por usar "símbolos e caracteres indecifráveis" e por não transmitir "mensagens claras à sociedade".A instituição diz atuar de forma preventiva e repressiva, adotando as medidas legais cabíveis — da orientação à detenção — e reforça que qualquer intervenção artística deve ocorrer "em conformidade com a lei".Movimento do pixoAo explicar o que considera pichação, Louiz diz que se trata de marcar presença na cidade. "Botando o nosso nome, nossa cara, nosso vulgo no muro", afirma.Ele descreve a prática como um ato direto: "A pessoa se bota sem pedir licença". Para ele, a pichação cria identificação entre quem divide os mesmos trajetos urbanos. "A gente faz pixo no caminho do busão. Quem é do nosso rolê se vê ali", diz. Ao mesmo tempo, reconhece o incômodo. "Quem não se identifica, às vezes fica com raiva. A pichação causa fascínio e incômodo ao mesmo tempo"."Eu gosto do desafio de pintar, o Estado pintar em cima e você ir lá e fazer de novo", diz, mencionando que, enquanto alguns de seus personagens sem frases resistem mais tempo nos muros, qualquer frase tende a ser apagada rapidamente.Sobre o debate público que pede o "fim do pixo", ele entende que "se prende um, a gente fica mais fortalecido ainda"."O incômodo que causa uma pichação num prédio tem a ver com o incômodo quando a gente vê o irmão na rua, alguém fumando pedra", diz. Ele afirma que parte do objetivo é incomodar quem ignora desigualdades urbanas. "Tem gente que só anda de Uber e diz 'quando vou ao centro me sinto suja'. Alguma coisa tá errada — e não é a tinta”."Isso aqui é uma tinta. Se tu passar outra, vai sair. Agora, e as outras questões da cidade? Tem esgoto passando na minha rua", diz. "O pixo nunca vai acabar enquanto a gente tiver esses problemas na nossa cidade".Pixo que não acabaAos 52 anos, o artista de rua Fernando Arakan reconheceu que não consegue repetir escaladas que já fez, mas diz que continua ativo. "É sempre estar ativo, tá ligado? Eu gosto de fazer isso. Eu cheguei num patamar que, tipo, eu quero manter ele pelo menos. É uma carreira".Sobre a repressão, ele afirma que a experiência ensina a agir com estratégia. "Para falar da repressão, a gente tem táticas, tá ligado? Tem estratégias, né, mano?""No meio da pichação tem vários caras com formações que você nem imagina. Professor, advogado… pessoas com a mente articulada". Ele afirma que, diante da abordagem, a lógica salva: "A experiência… eu sei o que vai acontecer. O processo legal é esse. É um crime ambiental, tá ligado? Você vai pra delegacia e sai junto com o polícia."Araken lembrou de uma recente pichação de uma "Estátua da Liberdade" em uma loja da Havan em Brusque (SC), que fez com que fosse oferecida recompensa para identificar pichadores. "Algo imperialista. O cara põe uma Estátua da Liberdade e quer discutir que o cara escreve o nome dele na parede."
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Pixo que não acaba: movimento de rua em SP resiste apesar da repressão estatal
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A cena urbana de São Paulo costuma ser tratada como caos, arte, crime ou tudo isso ao mesmo tempo, talvez a depender de quem olha.
Mas, para quem vive dentro dela, o pixo, grafite, adesivagem e tantas outras subculturas
formam um ecossistema próprio, cheio de códigos e disputas.
Os "artistas de rua" vêm de trajetórias distintas, mas encontram um mesmo ponto de partida: a rua.
Um dos nomes históricos da pixação paulistana, Fernando Araken, 52, afirmou à Sputnik Brasil que a capital foi decisiva para o surgimento da estética do pixo, marcada por letras alongadas, assinaturas específicas e disputas territoriais.
Ele descreve o início da cena nos anos 1980, quando a periferia buscava referências próprias em meio à ausência de
acesso à cultura visual internacional.
"São Paulo é uma megalópole, mano. Só a capital tem 14 milhões de pessoas. Essa cidade propiciou o ambiente para nascer a cultura do pixo."
Segundo ele, o estilo local se desenvolveu de forma autônoma, sem contato com o grafite norte-americano. "A gente não tinha referência nenhuma. Se tivesse acesso ao Wild Style, talvez fosse pra outro caminho. Mas a estética veio justamente por não ter referência."
Araken começou a pichar aos 14 anos, enquanto trabalhava como office boy no centro e andava de skate. Ele diz que a rua foi o ambiente que o formou.
"Isso foi uma coisa que realmente me acompanhou durante toda a vida, né? Mudou minha visão da estética das ruas, como chegar, para onde a gente olha, de focar o nosso olhar. Eu fiz muita coisa na minha vida em torno da pichação. Não só amizades, mas mudou a minha personalidade, minha visão artística, tudo."
A artista Julia Coração diz que sua entrada na arte de rua começou por acaso, ainda adolescente, quando encontrou restos de adesivos e passou a desenhar sobre eles. Na época, ela morava em Mauá, na região metropolitana de São Paulo, onde, segundo ela, "a cena da pixação sempre foi muito forte", mas quase não havia stickers espalhados pelas ruas.
A mudança ocorreu quando começou a viajar diariamente para a capital e percebeu que placas e semáforos viviam "forrados" de adesivos. A artista criou sua assinatura — um desenho de uma pequena xícara — e escalou, literalmente, a própria escala da rua — dos adesivos tímidos ao pixo, que exige tanto técnica quanto atitude.
Criada de forma "muito submissa", como ela própria define — "sempre fui criada para pedir desculpa para o pano de chão ao passar em cima do pano de chão" —, a artista diz que a rua se tornou um espaço de transformação. "Eu percebia que demandava uma atitude, e esse foi o início desse meu interesse por esse mundo."
Ela diz que nunca imaginou que se veria em práticas mais arriscadas. "A Júlia de dez anos atrás jamais imaginaria que teria coragem de, meu Deus, chegar num lugar e fazer um pixo."
"No mês de janeiro eu fiz o meu primeiro grafite na rua e no mês de novembro daquele mesmo ano eu já estava fazendo meu primeiro grafite no rapel."
Segundo ela, "a pichação com certeza está no outro lado desse espectro, porque é uma repressão que não tem a menor comparação", já que outras artes como grafite ou adesivagem não são tão mal vistas.

30 de novembro 2025, 22:31
Para Araken, o caráter contestatório sempre fez parte da cena. "Ser crítico, ele sempre foi. Você vê pelos nomes que as gangues escolheram: máfia, arame sujo, aloprados. Tudo já era contestação". Para ele, a cidade também abriga feitos que moldaram o imaginário do pixo. "Teve cara que subiu 22 andares pelo lado de fora. Pra uns é loucura, pra outros é heroísmo."
O artista Louiz Silveira, o "Índio Emo", afirma que a
pixação em São Paulo segue viva apesar da repressão e dos ataques a espaços de convivência usados por pichadores. Ele afirma que esses lugares têm sido "atacados", citando a rua Dom José, conhecida pela cena como Rua do Pixo.
"Se a gente bota uma base da polícia, como colocaram lá na Rua do Pixo, a gente está brecando as pessoas de se encontrarem e fortalecerem esse movimento."
Ele diz que governantes têm interesse direto em enfraquecer a cena: "A extrema direita está muito de olho nesse movimento porque sabe do poder que a gente tem — do hip-hop, do punk, do rap e do pixo".

7 de dezembro 2025, 22:39
Questionada pela Sputnik Brasil, a Polícia Militar de São Paulo afirmou que o grafite é uma "manifestação artística e cultural legítima", capaz de "embelezar os espaços urbanos" quando há autorização do proprietário ou do poder público.
A corporação ressalta que artistas brasileiros têm reconhecimento internacional e que intervenções visuais, quando regularizadas, "fortalecem a identidade cultural das cidades".
Já a pichação, segundo a PM, continua enquadrada como crime ambiental previsto na Lei 9.605/98, por usar "símbolos e caracteres indecifráveis" e por não transmitir "mensagens claras à sociedade".
A instituição diz atuar de forma preventiva e repressiva, adotando as medidas legais cabíveis — da orientação à detenção — e reforça que qualquer intervenção artística deve ocorrer "em conformidade com a lei".
Ao explicar o que considera pichação, Louiz diz que se trata de marcar presença na cidade. "Botando o nosso nome, nossa cara, nosso vulgo no muro", afirma.
Ele descreve a prática como um ato direto: "A pessoa se bota sem pedir licença". Para ele, a pichação cria identificação entre quem divide os mesmos trajetos urbanos. "A gente faz pixo no caminho do busão. Quem é do nosso rolê se vê ali", diz. Ao mesmo tempo, reconhece o incômodo. "Quem não se identifica, às vezes fica com raiva. A pichação causa fascínio e incômodo ao mesmo tempo".
"Eu gosto do desafio de pintar, o Estado pintar em cima e você ir lá e fazer de novo", diz, mencionando que, enquanto alguns de seus personagens sem frases resistem mais tempo nos muros, qualquer frase tende a ser apagada rapidamente.
"A arte de rua também é esse espaço de fazer coletivo, de criar vínculo. Até minha relação com minha companheira se fortaleceu pichando a cidade", afirmou.
Sobre o debate público que pede o "fim do pixo", ele entende que "se prende um, a gente fica mais fortalecido ainda".
"O incômodo que causa uma pichação num prédio tem a ver com o incômodo quando a gente vê o irmão na rua, alguém fumando pedra", diz. Ele afirma que parte do objetivo é incomodar quem ignora desigualdades urbanas. "Tem gente que só anda de Uber e diz 'quando vou ao centro me sinto suja'. Alguma coisa tá errada — e não é a tinta”.
"Isso aqui é uma tinta. Se tu passar outra, vai sair. Agora, e as outras questões da cidade? Tem esgoto passando na minha rua", diz. "O pixo nunca vai acabar enquanto a gente tiver esses problemas na nossa cidade".
Aos 52 anos, o artista de rua Fernando Arakan reconheceu que não consegue repetir escaladas que já fez, mas diz que continua ativo. "É sempre estar ativo, tá ligado? Eu gosto de fazer isso. Eu cheguei num patamar que, tipo, eu quero manter ele pelo menos. É uma carreira".
“Ainda consigo fazer muitas coisas… mas talvez daqui a uns anos mais eu não consigo estar fazendo isso. Já aconteceu isso com o skate, vai acontecer com o pixo também. Eu já escalei por fora algumas vezes… hoje isso já é mais arriscado para mim."
Sobre a repressão, ele afirma que a experiência ensina a agir com estratégia. "Para falar da repressão, a gente tem táticas, tá ligado? Tem estratégias, né, mano?"
"No meio da pichação tem vários caras com formações que você nem imagina. Professor, advogado… pessoas com a mente articulada". Ele afirma que, diante da abordagem, a lógica salva: "A experiência… eu sei o que vai acontecer. O processo legal é esse. É um crime ambiental, tá ligado? Você vai pra delegacia e sai junto com o polícia."
Araken lembrou de uma recente pichação de uma "Estátua da Liberdade" em uma loja da Havan em Brusque (SC), que fez com que fosse oferecida recompensa para identificar pichadores. "Algo imperialista. O cara põe uma Estátua da Liberdade e quer discutir que o cara escreve o nome dele na parede."
"O pixo não é só a letra, né, mano, a arte. É o jeito de você fazer… o ato já é uma mensagem. Mano, fazer o pixo já é arte, parceiro. Porque você não sabe o que você passou até ir ali colocar a letra na parede". Ele complementa: "É mais que um estilo de vida, é uma loucura, cara. Acho que é uma doença."
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