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'Quer criar sozinho uma nova ONU': Lula critica Trump e seu Conselho da Paz

© flickr.com / Ricardo StuckertPresidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, participa do encerramento do 14.º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 23 de janeiro de 2026, Salvador, Brasil
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, participa do encerramento do 14.º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 23 de janeiro de 2026, Salvador, Brasil - Sputnik Brasil, 1920, 23.01.2026
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi convidado pelo homólogo norte-americano Donald Trump para integrar o Conselho da Paz, mas ainda não respondeu oficialmente a Washington. Apesar do convite, o petista fez sua primeira crítica pública à proposta de criação do órgão nesta sexta-feira (23).
Durante discurso no 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, Lula fez duras críticas à proposta do presidente Donald Trump de criar o Conselho da Paz à margem das instituições multilaterais tradicionais.
A iniciativa, que prevê criar uma governança global para atuar na manutenção da paz e reconstrução da Faixa de Gaza, já teve a adesão de 23 países, entre Argentina, Hungria e Israel. Mais cedo, França, Alemanha, Noruega, Eslovênia, Espanha e Suécia rejeitaram o convite.
Para Lula, o Conselho da Paz simboliza o esvaziamento da Organização das Nações Unidas (ONU) e a substituição do diálogo internacional pela imposição da força. "O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo. A lei do mais forte está prevalecendo", afirmou Lula, ao alertar para o que classificou como um momento delicado da política internacional.
Segundo ele, a Carta da ONU vem sendo ignorada por decisões unilaterais que concentram poder e enfraquecem os mecanismos coletivos de mediação, além de ressaltar que já defendia uma reforma da instituição desde 2003.
Na avaliação do presidente brasileiro, a proposta de Trump equivale à tentativa de criar uma "nova ONU", controlada por um único país — o líder estadunidense se autodeclarou líder do órgão, centralizando decisões estratégicas e até a definição ou veto de membros.

"O que está acontecendo é que o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU, como se ele sozinho fosse o dono da ONU."

Lula afirmou que tem buscado diálogo com diferentes lideranças globais sobre a proposta. Segundo o presidente, nas últimas semanas houve conversas com Rússia, China, Índia e México, com o objetivo de construir uma articulação internacional em defesa do multilateralismo. "Estou há uma semana telefonando para muitos países, tentando ver se é possível encontrar uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado no chão", afirmou.
O petista ainda criticou a lógica de reconstrução defendida por Trump sem considerar o custo humano. "Mataram mais de 70 mil pessoas para dizer que vão recuperar Gaza e fazer hotel de luxo. E o povo que morreu?", questionou.
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Trump e as ameaças militares

Em outro momento do discurso, Lula criticou a retórica militar adotada por Trump. "Toda vez que ele fala na televisão, diz que tem o exército mais forte do mundo, os melhores aviões, as melhores armas", comentou. Em contraste, afirmou que o Brasil não busca protagonismo bélico. "Eu olho para mim e digo: não tenho nada disso. Tenho Exército, Marinha e Aeronáutica que muitas vezes não têm dinheiro nem para comprar munição para treinar", diz.
Lula reforçou que não vê a guerra como instrumento legítimo da política internacional. "Não quero fazer guerra com os Estados Unidos, nem com a China, nem com a Bolívia", afirmou. Para ele, o poder deve estar no convencimento e no exemplo democrático. "A guerra que queremos fazer é a do convencimento, mostrando que a democracia é imbatível, compartilhando o que temos de bom".
Ao citar Mahatma Gandhi, considerado o pai da independência da Índia, o presidente defendeu a resistência pacífica como caminho político. "Gandhi derrotou o Império Britânico sem dar um tiro. É assim que queremos fazer política, na paz, na conversa, no diálogo, e não aceitando imposição", acrescentou.

Invasão na Venezuela e sequestro de Maduro

Mais uma vez, o presidente brasileiro ressaltou indignação com o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela no início do ano. Na ocasião, militares norte-americanos conseguiram sequestrar o presidente Nicolás Maduro, que foi levado para Nova York, onde segue aprisionado.
"O Maduro sabia que tinham 15 mil soldados americanos nos navios. Eles entraram a noite na Venezuela, foram no forte onde ele ficava e levaram o Maduro embora. E ninguém soube que ele foi embora", afirmou.
Diante disso, Lula defendeu que a América do Sul deve permanecer como zona de paz. "Isso não existe na América do Sul. É um território de paz. Não temos armas nucleares. Temos gente pobre que quer comer, almoçar e jantar. Não queremos guerra", concluiu.

'Graças a Deus tomaram a decisão de entrar na vida política'

Durante o encontro, o presidente Lula também falou sobre as expectativas para as eleições de 2026, do qual voltou a garantir que vai lutar para conquistar um quarto mandato, "seja contra quem for". Além disso, o petista comentou sobre a decisão do MST de lançar de forma coletiva a candidatura de integrantes do movimento.
Segundo o presidente, enquanto a bancada ruralista reúne centenas de parlamentares, apenas dois representantes ligados ao movimento sem-terra foram eleitos deputados federais. Para Lula, esse desequilíbrio é resultado da omissão política. "Não se envolver é permitir que outros decidam o projeto de país", afirmou, ao defender que gostar de política significa definir rumos, e não compactuar com erros.
Lula lembrou ainda o contexto de criação do PT, quando havia apenas dois trabalhadores no Congresso, e disse ver na decisão do MST um passo semelhante. Fico feliz que tenham decidido entrar na vida política", declarou, ao destacar que a presença de militantes do movimento nas urnas pode fortalecer a representação social nas instituições.
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