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'Nulo a longo prazo': não interessa ao Brasil compor Conselho da Paz, avaliam analistas

© Foto / Marcelo Camargo / Agência BrasilO presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante evento oficial
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante evento oficial - Sputnik Brasil, 1920, 26.01.2026
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À Sputnik Brasil, analistas apontam que fundamentação multilateral da diplomacia brasileira não encontra respaldo no conselho.
O convite do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o Brasil integre o Conselho de Paz se tornou uma questão espinhosa para a diplomacia brasileira.
Inicialmente apresentado como uma iniciativa voltada para buscar a paz na Faixa de Gaza, o Conselho mira um objetivo mais amplo, com sua carta constitutiva apresentando-o como "uma organização internacional que busca promover a estabilidade, restaurar uma governança confiável e legítima e garantir uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos".
Cerca de 60 países foram convidados para fazer parte do Conselho de Paz. Alguns, como Argentina, Bulgária, Indonésia e Paquistão já aceitaram, enquanto outros como França, Espanha e Noruega recusaram.
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O Brasil, por sua vez, optou pela cautela, aguardando o posicionamento de outros países enquanto elabora uma resposta calculada a Washington. A análise no Planalto é de que o arranjo vai de encontro ao multilateralismo defendido há décadas pela política externa brasileira.
Em evento recente em Salvador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a iniciativa.
"Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU, em que ele sozinho é o dono da ONU", disse o presidente.
Diferente das Nações Unidas, o Conselho da Paz será presidido por tempo indeterminado por Trump, para além de eu mandato na Casa Branca. Ele terá também amplos poderes, incluindo vetar decisões e destituir integrantes. Além disso, cada membro terá um mandato de três anos, que pode ser estendido por meio de um pagamento de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,2 bilhões).
Miriam Saraiva, professora de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destaca a priori, o apoio de Lula ao multilateralismo deveria levá-lo a apoiar o Conselho da Paz. No entanto, da maneira em que está sendo formato, o conselho não tem um perfil multilateral, avalia.
"O Conselho da forma que ele está, é um Conselho que não tem muita autonomia, ou seja, é quase como um Conselho para recomendar, para sugerir e não para decidir. A decisão final, segundo o formato proposto, ficaria mesmo com o presidente Donald Trump. Acho que por esse motivo o Itamaraty examinou e, pelo que vê, o Conselho não tem um perfil multilateral."
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Um dos elementos interessantes, segundo Saraiva, é a forma como os nomes foram escolhidos para o Conselho, com presença geopolítica de países do Norte e do Sul Global. Ela destaca que Trump convidou líderes de diferentes perfis, de forma que o Conselho, se viesse a funcionar com todos os convidados, seria composto por uma equipe bastante multilateral e bastante representativa do que é a política internacional.

"Então, nesse sentido, seria importante esse Conselho, quanto mais variedade ele tiver de participantes, mais legitimidade ele pode ter. E é o que o presidente Trump está querendo, que o Conselho tenha uma legitimidade e que seja respeitado por todos."

À Sputnik Brasil, o professor Charles Pennaforte, coordenador do Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), afirma que o convite para integrar o conselho é problemático, uma vez que não possui fundamentação internacional clara e que há dúvidas sobre sua efetividade após as eleições presidenciais norte-americanas.

"Não vejo isso como algo importante para o Brasil se filiar a um projeto que, de um ponto de vista de reconhecimento internacional, é e será nulo no longo prazo."

O mesmo ponto é reforçado por Saraiva, que avalia que o modelo de governança do conselho só se sustentará enquanto Trump estiver no poder em Washington, mesmo se sua presidência no órgão for vitalícia. Se ele deixar a presidência dos EUA, ele perde poder, explica, principalmente se o sucessor for do partido opositor.

Conselho pode levar ao esvaziamento da ONU?

Uma das principais demandas do Sul Global é a reforma na governança global, sobretudo na Organização das Nações Unidas (ONU), para tornar o sistema internacional mais representativo e alinhado à distribuição de poder atual.
A o discutirem sobre o Conselho da Paz nesta segunda-feira (26) em sua ligação com Trump, o presidente Lula voltou a falar sobre o tema, incluindo a ampliação do Conselho de Segurança.
Em meio a temores de que o novo Conselho da Paz esvazie a organização. Para Saraiva, não seria a criação do Conselho que levaria a isso, mas o somatório de diferentes alternativas.
Já Pennaforte se mostra cético quanto essa possibilidade.
"A ONU já está enfraquecida por outros fatores, não será mais ainda pela questão do Conselho da Paz", pondera o analista.
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