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Venezuela intensificou o debate sobre maior integração entre diplomacia e defesa, dizem analistas

© Foto / Divulgação / ItamaratyChanceler brasileiro, Mauro Vieira, se encontra com seu homólogo estadunidense, Marco Rubio, em 16 de outubro de 2025
Chanceler brasileiro, Mauro Vieira, se encontra com seu homólogo estadunidense, Marco Rubio, em 16 de outubro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 06.02.2026
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Um possível aumento no orçamento para defesa utilizando 2% do PIB enfrenta resistência do Executivo, mas as mudanças no cenário geopolítico causadas pelos Estados Unidos no início de 2026 mostram que a estabilidade regional não é algo garantido.
Em um artigo para a revista Carta Capital, o assessor especial da Presidência Celso Amorim defendeu o aumento dos gastos em defesa para 2% do Produto Interno Bruto (PIB). No texto, Amorim afirma que o Brasil deve repensar a defesa brasileira em meio às agressões dos EUA em solo sul-americano.
Neste novo cenário geopolítico, o embaixador acredita que o país deveria desenvolver sistemas avançados em defesa antiaérea, cibernética, drones, além de projetos como o submarino nuclear. Amorim, no entanto, é contra o desenvolvimento de armamentos nucleares como forma de dissuasão por conta de deixar o país vulnerável a "agressões preventivas" de outras países, sugerindo que o país busque outros usos pacíficos da energia nuclear.
Caso haja um aumento no orçamento da defesa, no cenário atual no mundo, significa que a diplomacia brasileira terá que coordenar mais com políticas militares? O Brasil é conhecido por sua moderação em questões internacionais, com mais foco na diplomacia e no multilateralismo, dando menos ênfase à questão militar. O contexto internacional, no entanto, pode aproximar mais essas duas políticas de Estado?
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'Grande vitória': após 3 anos de paralisação, Avibras vê retomada das atividades no horizonte
Desde a consolidação do Itamaraty como uma das chancelarias mais profissionalizadas da região, a política externa brasileira se notabilizou por privilegiar a solução pacífica de controvérsias e o princípio da não intervenção. Para Fabricio Ávila, presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), a relação entre a diplomacia e defesa, em princípio, "pode não ser próxima", já que a tendência em momentos de maior tensão no sistema internacional é o relativo isolamento dos países.
Ainda assim, ele ressalta que a América do Sul possui tradição de posicionamentos coordenados em cenários críticos, citando como exemplo a Declaração do Rio de Janeiro de 1942, quando chanceleres das Américas se alinharam em apoio aos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial. "As necessidades dos Estados podem direcionar a diplomacia para esse tipo de ação, principalmente para a proteção da América do Sul", afirma.
Ávila explica que o motivo para haver resistência do Planalto a um piso de 2% do PIB para a defesa é porque os investimentos são, geralmente, direcionados de outros setores do orçamento. "O Estado tem compromissos com setores como saúde, educação e segurança pública, por isso é importante que esse investimento seja feito sem prejudicar outras áreas."
Dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI, da sigla em inglês) mostram que o Brasil gasta em torno de 1% do PIB, o que equivale a US$ 103 per capita (cerca de R$ 537 per capita) ao ano. A Colômbia, um Estado menor que o Brasil, gasta 3% do seu PIB, o que equivale a US$ 203 per capita (cerca de R$ 1058 per capita).
Celebração do Dia do Exército e do jubileu de 80 anos das vitórias da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial, na Itália, Brasília, 16 de abril de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 03.02.2026
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Amazônia ganha polo militar de pesquisa em movimento estratégico do Exército, opina analista
"Estados menores apresentam uma capacidade de investimento maior que o Brasil, que poderia de forma adequada planejar suas despesas militares de forma eficiente e que atenda aos projetos estratégicos do país."
Porém, para Ana Karolina Morais da Silva, doutoranda em relações internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP) e pesquisadora do Núcleo de Estudos Estratégicos, Geopolítica e Integração Regional (NEEGI), a tendência é que a diplomacia e defesa se alinhem cada vez mais, citando o aumento global de gastos militares para os níveis mais altos desde o fim da Guerra Fria.
A pesquisadora se baseia em documentos de segurança e defesa nacional que potências militares têm publicado nos últimos 15 anos, deixando clara uma percepção que o ambiente estratégico vem sofrendo alterações pelo acirramento na competição geopolítica. "Essa percepção intrinsecamente coloca as capacidades militares como a base de poder material sobre a qual as estratégias diplomáticas/de política externa são elaboradas e executadas", completa.

"No contexto brasileiro, a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela intensificou ainda mais o debate político sobre a necessidade de maior integração entre diplomacia e defesa."

Dessa maneira, Morais pontua que um alinhamento entre esses dois campos permitiria moldar um ambiente geopolítico favorável aos interesses do Brasil, dado os meios materiais e de dissuasão que legitimariam e protegeriam as escolhas diplomáticas brasileiras.
Morais também observa que o fato da baixa probabilidade de conflitos entre países sul-americanos é um dos motivos para resistência em aumentar o orçamento da defesa, o que reduz o senso de urgência para o mínimo de 2%. Para mudar essa percepção, além do medo de "engessar" mais o orçamento federal, a pesquisadora vê três movimentos complementares:
1.
A construção de uma narrativa estratégica mais clara, uma que apresente como os 2% se traduziriam em defesa antiaérea, cibernética, vigilância e interoperabilidade e proteção de infraestruturas críticas.
2.
Utilizar episódios recentes como na Venezuela como sinais que a estabilidade regional não está garantida, reforçando a centralidade da defesa para a soberania e a autonomia estratégica.
3.
Discutir modelos híbridos de financiamento, como a vinculação a um percentual da Receita Corrente Líquida em vez do PIB, fórmula que preserva previsibilidade sem reproduzir os efeitos de rigidez associados a pisos constitucionais tradicionais.
Sobre prioridades desse aumento, a pesquisadora acredita que devem ser a prontidão e manutenção, assim como direcionar esse montante para inovações cibernéticas, drones e modernização das frotas aéreas e navais. "O padrão recente de aumento dos gastos militares no mundo indica justamente crescimento mais acelerado em capacidades tecnológicas e interoperáveis, como sistemas antiaéreos modernos, redes de vigilância, sensores e estruturas de comando e controle."

"A tendência é que novos investimentos sejam voltados à ampliação das nossas capacidades tecnológicas, no geral."

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