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'Valor de troca': qual é o impacto do Centrão para as eleições de 2026?

© Folhapress / Zanone FraissatGilberto Kassab (PSD), presidente do PSD, em foto de 5 de novembro de 2018
Gilberto Kassab (PSD), presidente do PSD, em foto de 5 de novembro de 2018 - Sputnik Brasil, 1920, 09.02.2026
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Cerca de 63% dos municípios brasileiros são comandados por políticos de partidos do grupo, enquanto maioria dos parlamentares é do Centrão. Quem quiser governar o Brasil terá que negociar com um bloco que aumenta seu poder de barganha a cada ciclo eleitoral, juntando influência política e financeira pelas emendas parlamentares.
As eleições de 2026 no Brasil parecem que vão repetir a mesma fórmula: a esquerda, representada por PT e o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, vai disputar a presidência com a direita, representada, provavelmente, por alguém com o nome Bolsonaro, neste caso, o senador Flávio Bolsonaro, filho e herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Enquanto esses dois candidatos representam os maiores eleitorados do Brasil, distintos por ideologia e propostas de política, ambos possuem uma rejeição de quase metade do eleitorado nacional. Pelo levantamento do instituto Real Time Big Data, Lula possui 33% da intenção de voto contra 48% que dizem que não votariam no petista. Flávio tem 18% do voto, mas 49% de rejeição pelos eleitores.
Nesse espaço é que siglas como União Brasil, MDB e PSD estão reunindo políticos de diversos espectros e ocupando vácuos. Nas últimas eleições, o Centrão tem crescido mais e mais, tanto em cargos executivos – 63% de prefeituras brasileiras são comandadas por partidos do grupo, com PSD tendo a maioria com 885 municípios dos 3,5 mil – quanto na formação para bancadas na Câmara e Senado – 374 deputados (de um total de 513) e 59 senadores (de um total de 81) se identificam como membros do Centrão.
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Independentemente de quem ganhar a presidência, o vencedor terá que negociar com esse bloco político, que aumenta a cada ciclo eleitoral seu poder de barganha. Lula já sabe disso e pensa em usar o cargo de vice-presidente como uma moeda de troca com o MDB, o que substituiria o atual vice-presidente, Geraldo Alckimin, na próxima chapa.
Parte do PSD de Gilberto Kassab, especialmente do Nordeste, já apoia Lula, mas o partido pretende lançar um candidato próprio para o Planalto, o que poderia ser um dos governadores Ratinho Junior (PR), Eduardo Leite (RS) ou Ronaldo Caiado (GO), o último tendo se filiado recentemente ao partido. Tarcísio de Freitas (SP), antes o preferido de Kassab para disputar a presidência, é considerado "página virada" para o Planalto, tanto pela demora de sua indecisão como pela pressão bolsonarista, que via o governador de São Paulo concorrendo para presidência como um oportunismo político enquanto Jair Bolsonaro está preso pela trama golpista.
Como explica Marcus Ianoni, professor e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), o Centrão não atua como um bloco unificado, apresentando uma certa coesão e, paradoxalmente, uma certa volatilidade. "Nos últimos anos, creio que os mais coesos no Centrão são os Republicanos e os Progressistas (PP), seguidos do MDB, União Brasil e PSD, entre outros", explica o professor.

"O perfil ideológico dos partidos do Centrão é de direita e extrema-direita".

Ianoni lembra que, nas eleições de 2022, dois partidos do Centrão, Republicanos e PP, coligaram-se com o PL de Bolsonaro, tendo sucesso nas eleições para governos estaduais e para deputados federais e senadores. Na coligação com o PT em 2022, a esquerda contou com o Avante e PROS, partidos pequenos ideologicamente próximos ao Centrão.
Outra característica do Centrão, como explica Ianoni, é que o comportamento de seus diretórios pode apresentar variações estaduais. Ou seja, num estado, eles podem se coligar com a a direita, noutro estado, com o PT etc. Ele completa dizendo que ainda não é claro o impacto que o Centrão terá nas eleições presidenciais, ressaltando também nas eleições estaduais e legislativas.
"Em relação a esse ponto, precisamos observar, sobretudo, qual será o comportamento do PSD e do MDB em relação à candidatura presidencial. Ao que tudo indica, o PSD vai lançar um candidato no primeiro turno. Vamos ver qual será a posição do MDB. De antemão, o MDB de São Paulo apoiará, ao menos até o momento, a candidatura de Tarcísio."
Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pontua que a influência do bloco reúne método e recursos, tanto no mercado político quanto no financeiro pelas emendas parlamentares, o Orçamento Secreto. "Essa junção desses métodos e desses recursos proporciona uma capacidade de trânsito enorme, de troca de favores e de oferta de poder", diz Gurgel.
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Um levantamento do jornal Folha de São Paulo mostrou que o gasto com emendas parlamentares aumentou de R$ 3,4 bilhões reservadas do Orçamento em 2014 para R$ 44,9 bilhões em 2024, um aumento de 1.320%. Inclusive, o total empenhado nesse período em emendas foi R$ 173 bilhões, com 2026 tendo reservado R$ 54,2 bilhões pelo projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias. Nas eleições municipais de 2024, 80% dos políticos conseguiram se reeleger, segundo dados do Nexus e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), possivelmente com a ajuda das "emendas municipais", verba repassada de deputados federais para prefeitos.
Enquanto Lula tenta o apoio do MDB e isolar Flávio com a oferta de um político afiliado fazer chapa para o Planalto em 2026, a resistência do partido contra o PT no Sul e Sudeste poderia ser um obstáculo. Para ambos os entrevistados, porém, o MDB atua a partir de uma lógica pragmática e flexível, em que a divisão regional do partido e a possibilidade de liberar diretórios estaduais para alianças distintas permitem conciliar interesses locais com uma estratégia maior visando todo o país.
Tanto Ianoni quanto Gurgel apontam que a oferta da vice-presidência tem peso suficiente para atrair setores do MDB, sobretudo fora do eixo Sul-Sudeste, e que a hipótese de aliança com Lula se insere em um padrão recorrente do partido, que privilegia capilaridade, negociação e adaptação ao cenário eleitoral mais competitivo.
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"Creio que as lideranças emedebistas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste estejam, nesse momento, mais próximas de Lula, ao passo que as do Sul e Sudeste estão mais próximas de Tarcísio, que se comprometeu a apoiar Flavio Bolsonaro", diz Ianoni. "Por outro lado, cogita-se que Lula pensa em entregar a vice [presidência] para o MDB, o que não é pouca coisa. Ao que se sabe até o momento, Flávio Bolsonaro não cogitou trazer o MDB para a sua chapa."
Gurgel pontua que nem sempre o Sudeste era resistente ao PT, lembrando que já houve aliança entre petistas e o partido, na época em que era conhecido como PMDB (Partido do Movimento Democrático). A cientista política cita composições com Picciani, Sérgio Cabral e com Eduardo Paes. "O PMDB, aliás, já compôs vice com o PT, a nível nacional, como no caso do [Michel] Temer, vice de Dilma", destaca Gurgel.
"O estudo do MDB acerca de ocupar a vice de Lula, agora, em 2026, segue uma lógica histórica do partido de não ocupar a 'cabeça de chapa'. Tendo em vista o potencial de reeleição do presidente Lula, a possibilidade do MDB compor com o PT, novamente, a nível nacional e regional, é o que, na política, chamamos de 'movimento natural'."
Assim sendo, Lula e Flávio Bolsonaro disputam o apoio dessas legendas cientes de seu peso estratégico. O MDB combina tradição e redes políticas consolidadas, ainda que tensionadas pelo bolsonarismo, enquanto o PSD, de Kassab, apesar de mais recente, construiu forte capilaridade com métodos tradicionais de negociação e amplo acesso a recursos, como as emendas impositivas, além de ter sua origem à direita e maior liberdade para dialogar com o bolsonarismo.

"Portanto, são duas legendas com 'valor de troca', no sentido fortíssimo do termo."

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