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'Valor de troca': qual é o impacto do Centrão para as eleições de 2026?
'Valor de troca': qual é o impacto do Centrão para as eleições de 2026?
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Cerca de 63% dos municípios brasileiros são comandados por políticos de partidos do grupo, enquanto maioria dos parlamentares é do Centrão. Quem quiser... 09.02.2026, Sputnik Brasil
2026-02-09T16:57-0300
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As eleições de 2026 no Brasil parecem que vão repetir a mesma fórmula: a esquerda, representada por PT e o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, vai disputar a presidência com a direita, representada, provavelmente, por alguém com o nome Bolsonaro, neste caso, o senador Flávio Bolsonaro, filho e herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro.Enquanto esses dois candidatos representam os maiores eleitorados do Brasil, distintos por ideologia e propostas de política, ambos possuem uma rejeição de quase metade do eleitorado nacional. Pelo levantamento do instituto Real Time Big Data, Lula possui 33% da intenção de voto contra 48% que dizem que não votariam no petista. Flávio tem 18% do voto, mas 49% de rejeição pelos eleitores.Nesse espaço é que siglas como União Brasil, MDB e PSD estão reunindo políticos de diversos espectros e ocupando vácuos. Nas últimas eleições, o Centrão tem crescido mais e mais, tanto em cargos executivos – 63% de prefeituras brasileiras são comandadas por partidos do grupo, com PSD tendo a maioria com 885 municípios dos 3,5 mil – quanto na formação para bancadas na Câmara e Senado – 374 deputados (de um total de 513) e 59 senadores (de um total de 81) se identificam como membros do Centrão.Independentemente de quem ganhar a presidência, o vencedor terá que negociar com esse bloco político, que aumenta a cada ciclo eleitoral seu poder de barganha. Lula já sabe disso e pensa em usar o cargo de vice-presidente como uma moeda de troca com o MDB, o que substituiria o atual vice-presidente, Geraldo Alckimin, na próxima chapa.Parte do PSD de Gilberto Kassab, especialmente do Nordeste, já apoia Lula, mas o partido pretende lançar um candidato próprio para o Planalto, o que poderia ser um dos governadores Ratinho Junior (PR), Eduardo Leite (RS) ou Ronaldo Caiado (GO), o último tendo se filiado recentemente ao partido. Tarcísio de Freitas (SP), antes o preferido de Kassab para disputar a presidência, é considerado "página virada" para o Planalto, tanto pela demora de sua indecisão como pela pressão bolsonarista, que via o governador de São Paulo concorrendo para presidência como um oportunismo político enquanto Jair Bolsonaro está preso pela trama golpista.Como explica Marcus Ianoni, professor e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), o Centrão não atua como um bloco unificado, apresentando uma certa coesão e, paradoxalmente, uma certa volatilidade. "Nos últimos anos, creio que os mais coesos no Centrão são os Republicanos e os Progressistas (PP), seguidos do MDB, União Brasil e PSD, entre outros", explica o professor.Ianoni lembra que, nas eleições de 2022, dois partidos do Centrão, Republicanos e PP, coligaram-se com o PL de Bolsonaro, tendo sucesso nas eleições para governos estaduais e para deputados federais e senadores. Na coligação com o PT em 2022, a esquerda contou com o Avante e PROS, partidos pequenos ideologicamente próximos ao Centrão.Outra característica do Centrão, como explica Ianoni, é que o comportamento de seus diretórios pode apresentar variações estaduais. Ou seja, num estado, eles podem se coligar com a a direita, noutro estado, com o PT etc. Ele completa dizendo que ainda não é claro o impacto que o Centrão terá nas eleições presidenciais, ressaltando também nas eleições estaduais e legislativas."Em relação a esse ponto, precisamos observar, sobretudo, qual será o comportamento do PSD e do MDB em relação à candidatura presidencial. Ao que tudo indica, o PSD vai lançar um candidato no primeiro turno. Vamos ver qual será a posição do MDB. De antemão, o MDB de São Paulo apoiará, ao menos até o momento, a candidatura de Tarcísio."Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pontua que a influência do bloco reúne método e recursos, tanto no mercado político quanto no financeiro pelas emendas parlamentares, o Orçamento Secreto. "Essa junção desses métodos e desses recursos proporciona uma capacidade de trânsito enorme, de troca de favores e de oferta de poder", diz Gurgel.Um levantamento do jornal Folha de São Paulo mostrou que o gasto com emendas parlamentares aumentou de R$ 3,4 bilhões reservadas do Orçamento em 2014 para R$ 44,9 bilhões em 2024, um aumento de 1.320%. Inclusive, o total empenhado nesse período em emendas foi R$ 173 bilhões, com 2026 tendo reservado R$ 54,2 bilhões pelo projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias. Nas eleições municipais de 2024, 80% dos políticos conseguiram se reeleger, segundo dados do Nexus e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), possivelmente com a ajuda das "emendas municipais", verba repassada de deputados federais para prefeitos.Enquanto Lula tenta o apoio do MDB e isolar Flávio com a oferta de um político afiliado fazer chapa para o Planalto em 2026, a resistência do partido contra o PT no Sul e Sudeste poderia ser um obstáculo. Para ambos os entrevistados, porém, o MDB atua a partir de uma lógica pragmática e flexível, em que a divisão regional do partido e a possibilidade de liberar diretórios estaduais para alianças distintas permitem conciliar interesses locais com uma estratégia maior visando todo o país.Tanto Ianoni quanto Gurgel apontam que a oferta da vice-presidência tem peso suficiente para atrair setores do MDB, sobretudo fora do eixo Sul-Sudeste, e que a hipótese de aliança com Lula se insere em um padrão recorrente do partido, que privilegia capilaridade, negociação e adaptação ao cenário eleitoral mais competitivo."Creio que as lideranças emedebistas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste estejam, nesse momento, mais próximas de Lula, ao passo que as do Sul e Sudeste estão mais próximas de Tarcísio, que se comprometeu a apoiar Flavio Bolsonaro", diz Ianoni. "Por outro lado, cogita-se que Lula pensa em entregar a vice [presidência] para o MDB, o que não é pouca coisa. Ao que se sabe até o momento, Flávio Bolsonaro não cogitou trazer o MDB para a sua chapa."Gurgel pontua que nem sempre o Sudeste era resistente ao PT, lembrando que já houve aliança entre petistas e o partido, na época em que era conhecido como PMDB (Partido do Movimento Democrático). A cientista política cita composições com Picciani, Sérgio Cabral e com Eduardo Paes. "O PMDB, aliás, já compôs vice com o PT, a nível nacional, como no caso do [Michel] Temer, vice de Dilma", destaca Gurgel."O estudo do MDB acerca de ocupar a vice de Lula, agora, em 2026, segue uma lógica histórica do partido de não ocupar a 'cabeça de chapa'. Tendo em vista o potencial de reeleição do presidente Lula, a possibilidade do MDB compor com o PT, novamente, a nível nacional e regional, é o que, na política, chamamos de 'movimento natural'."Assim sendo, Lula e Flávio Bolsonaro disputam o apoio dessas legendas cientes de seu peso estratégico. O MDB combina tradição e redes políticas consolidadas, ainda que tensionadas pelo bolsonarismo, enquanto o PSD, de Kassab, apesar de mais recente, construiu forte capilaridade com métodos tradicionais de negociação e amplo acesso a recursos, como as emendas impositivas, além de ter sua origem à direita e maior liberdade para dialogar com o bolsonarismo.
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clarisse gurgel, jair bolsonaro, flávio bolsonaro, brasil, sudeste, nordeste, mdb, pt, psd, lei de diretrizes orçamentárias (ldo), exclusiva, centrão
clarisse gurgel, jair bolsonaro, flávio bolsonaro, brasil, sudeste, nordeste, mdb, pt, psd, lei de diretrizes orçamentárias (ldo), exclusiva, centrão
As eleições de 2026 no Brasil parecem que vão repetir a mesma fórmula: a esquerda, representada por PT e o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, vai disputar a presidência com a direita, representada, provavelmente, por alguém com o nome Bolsonaro, neste caso, o senador Flávio Bolsonaro, filho e herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Enquanto esses dois candidatos representam os maiores eleitorados do Brasil, distintos por ideologia e propostas de política, ambos possuem uma rejeição de quase metade do eleitorado nacional. Pelo levantamento do instituto Real Time Big Data, Lula possui 33% da intenção de voto contra 48% que dizem que não votariam no petista. Flávio tem 18% do voto, mas 49% de rejeição pelos eleitores.
Nesse espaço é que siglas como União Brasil, MDB e PSD estão reunindo políticos de diversos espectros e ocupando vácuos. Nas últimas eleições, o Centrão tem crescido mais e mais, tanto em cargos executivos – 63% de prefeituras brasileiras são comandadas por partidos do grupo, com PSD tendo a maioria com 885 municípios dos 3,5 mil – quanto na formação para bancadas na Câmara e Senado – 374 deputados (de um total de 513) e 59 senadores (de um total de 81) se identificam como membros do Centrão.
Independentemente de quem ganhar a presidência, o vencedor terá que negociar com esse bloco político, que aumenta a cada ciclo eleitoral seu poder de barganha. Lula já sabe disso e pensa em usar o cargo de vice-presidente como uma moeda de troca com o MDB, o que substituiria o atual vice-presidente, Geraldo Alckimin, na próxima chapa.
Parte do PSD de Gilberto Kassab, especialmente do Nordeste, já apoia Lula, mas o partido pretende lançar um candidato próprio para o Planalto, o que poderia ser um dos governadores Ratinho Junior (PR), Eduardo Leite (RS) ou Ronaldo Caiado (GO), o último tendo se
filiado recentemente ao partido. Tarcísio de Freitas (SP), antes o preferido de Kassab para disputar a presidência, é considerado "página virada" para o Planalto, tanto pela demora de sua indecisão como pela pressão bolsonarista, que via o governador de São Paulo concorrendo para presidência como um oportunismo político enquanto
Jair Bolsonaro está preso pela trama golpista.
Como explica Marcus Ianoni, professor e chefe do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), o Centrão não atua como um bloco unificado, apresentando uma certa coesão e, paradoxalmente, uma certa volatilidade. "Nos últimos anos, creio que os mais coesos no Centrão são os Republicanos e os Progressistas (PP), seguidos do MDB, União Brasil e PSD, entre outros", explica o professor.
"O perfil ideológico dos partidos do Centrão é de direita e extrema-direita".
Ianoni lembra que, nas eleições de 2022, dois partidos do Centrão, Republicanos e PP, coligaram-se com o
PL de Bolsonaro, tendo sucesso nas eleições para governos estaduais e para deputados federais e senadores. Na coligação com o PT em 2022, a esquerda contou com o Avante e PROS, partidos pequenos ideologicamente próximos ao Centrão.
Outra característica do Centrão, como explica Ianoni, é que o comportamento de seus diretórios pode apresentar variações estaduais.
Ou seja, num estado, eles podem se coligar com a a direita, noutro estado, com o PT etc. Ele completa dizendo que ainda não é claro o impacto que o Centrão terá nas eleições presidenciais, ressaltando também nas
eleições estaduais e legislativas."Em relação a esse ponto, precisamos observar, sobretudo, qual será o comportamento do PSD e do MDB em relação à candidatura presidencial. Ao que tudo indica, o PSD vai lançar um candidato no primeiro turno. Vamos ver qual será a posição do MDB. De antemão, o MDB de São Paulo apoiará, ao menos até o momento, a candidatura de Tarcísio."
Clarisse Gurgel, cientista política e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pontua que a influência do bloco reúne método e recursos, tanto no mercado político quanto no financeiro pelas emendas parlamentares, o Orçamento Secreto. "Essa junção desses métodos e desses recursos proporciona uma capacidade de trânsito enorme, de troca de favores e de oferta de poder", diz Gurgel.
Um levantamento do jornal
Folha de São Paulo mostrou que o gasto com emendas parlamentares aumentou de R$ 3,4 bilhões reservadas do Orçamento em 2014 para R$ 44,9 bilhões em 2024, um aumento de 1.320%. Inclusive, o total empenhado nesse período em emendas foi R$ 173 bilhões, com 2026 tendo reservado R$ 54,2 bilhões pelo projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias. Nas eleições municipais de 2024, 80% dos políticos conseguiram se reeleger, segundo dados do Nexus e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), possivelmente com a ajuda das "emendas municipais", verba repassada de deputados federais para prefeitos.
Enquanto Lula tenta o apoio do MDB e isolar Flávio com a oferta de um político afiliado fazer chapa para o Planalto em 2026, a resistência do partido contra o PT no Sul e Sudeste poderia ser um obstáculo. Para ambos os entrevistados, porém, o MDB atua a partir de uma lógica pragmática e flexível, em que a divisão regional do partido e a possibilidade de liberar diretórios estaduais para alianças distintas permitem conciliar interesses locais com uma estratégia maior visando todo o país.
Tanto Ianoni quanto Gurgel apontam que a oferta da vice-presidência tem peso suficiente para atrair setores do MDB, sobretudo fora do eixo Sul-Sudeste, e que a hipótese de aliança com Lula se insere em um padrão recorrente do partido, que privilegia capilaridade, negociação e adaptação ao cenário eleitoral mais competitivo.
"Creio que as lideranças emedebistas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste estejam, nesse momento, mais próximas de Lula, ao passo que as do Sul e Sudeste estão mais próximas de Tarcísio, que se comprometeu a apoiar Flavio Bolsonaro", diz Ianoni. "Por outro lado, cogita-se que Lula pensa em entregar a vice [presidência] para o MDB, o que não é pouca coisa. Ao que se sabe até o momento, Flávio Bolsonaro não cogitou trazer o MDB para a sua chapa."
Gurgel pontua que nem sempre o Sudeste era resistente ao PT, lembrando que já houve aliança entre petistas e o partido, na época em que era conhecido como PMDB (Partido do Movimento Democrático). A cientista política cita composições com Picciani, Sérgio Cabral e com Eduardo Paes. "O PMDB, aliás, já compôs vice com o PT, a nível nacional, como no caso do [Michel] Temer, vice de Dilma", destaca Gurgel.
"O estudo do MDB acerca de ocupar a vice de Lula, agora, em 2026, segue uma lógica histórica do partido de não ocupar a 'cabeça de chapa'. Tendo em vista o potencial de reeleição do presidente Lula, a possibilidade do MDB compor com o PT, novamente, a nível nacional e regional, é o que, na política, chamamos de 'movimento natural'."
Assim sendo, Lula e
Flávio Bolsonaro disputam o apoio dessas legendas cientes de seu peso estratégico.
O MDB combina tradição e redes políticas consolidadas, ainda que tensionadas pelo bolsonarismo, enquanto o PSD, de Kassab, apesar de mais recente,
construiu forte capilaridade com métodos tradicionais de negociação e amplo acesso a recursos, como as emendas impositivas, além de ter sua origem à direita e maior liberdade para dialogar com o bolsonarismo.
"Portanto, são duas legendas com 'valor de troca', no sentido fortíssimo do termo."
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