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Rearranjo geopolítico mostra que Brasil precisa rever estratégia de defesa, diz analista

© Foto / Érico Alves / Ministério da DefesaMilitar do Exército Brasileiro posiciona drone com as mãos durante a operação Atlas: Armas Combinadas, em Formosa (GO), em 9 de setembro de 2025
Militar do Exército Brasileiro posiciona drone com as mãos durante a operação Atlas: Armas Combinadas, em Formosa (GO), em 9 de setembro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 18.03.2026
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A escalada de tensões em 2026, com o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em Caracas e a ofensiva militar de Estados Unidos e Israel no Irã, suscita no Brasil o debate sobre capacidade de defesa e modernização das Forças Armadas. A escalada de conflitos internacionais pressiona o Brasil a rever sua estratégia de defesa?
No final de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que garante R$ 30 bilhões para projetos estratégicos das Forças Armadas ao longo de seis anos, a serem distribuídos igualmente durante o período, a começar por este ano.
Os recursos foram excluídos das regras do arcabouço fiscal, ou seja, o governo pode gastar esse dinheiro mesmo que ultrapasse o limite de despesas. Além disso, ficam blindados de contingenciamento.
Neste ano, segundo o jornal Valor Econômico, a maior fatia dos R$ 5 bilhões irá para a Marinha do Brasil; nos anos subsequentes, a Força Área Brasileira (FAB) deverá ficar com o montante maior.
Na esteira das tensões na Venezuela e no Oriente Médio, soma-se, também, um plano apresentado pelas Forças Armadas ao governo Lula, apontando investimentos avaliados em R$ 800 bilhões em 15 anos, com vinculação orçamentária.
A necessidade de investimentos nas três forças brasileiras é evidente, como avalia Rafael Laginha do Nascimento, doutorando em direito e mestre em estudos estratégicos da defesa e da segurança, ambos pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
O acadêmico, durante o mestrado, se debruçou sobre o Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha do Brasil (Prosub). Apesar disso, ele pontua que, dadas as fronteiras terrestres e a Amazônia Azul, o gargalo da defesa brasileira está no espaço aéreo, que nunca recebeu investimentos "de maneira adequada".

"O único país que tinha uma defesa aérea em camadas era a Venezuela — e nós vimos o que aconteceu com a Venezuela. Já o Brasil, ele não tem uma defesa em camadas. Ele tem o que a gente chama de defesa de ponto, que é a defesa de curto alcance."

Nauru 500C, drone com sistema eVTOL, desenvolvido pela fabricante brasileira Xmobots, durante evento da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI), em São Paulo (SP), em 22 de agosto de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 07.01.2026
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Nesse sentido, Laginha chama a atenção para as estratégias de contenção dos atores desafiantes das principais potências, o que significa que o Brasil terá que rever sua política estratégica. Para o especialista, portanto, os investimentos nas Forças Armadas têm de ser equilibrados, ressaltando que os conflitos modernos têm se iniciado pelo ar.
À Sputnik Brasil, Robinson Farinazzo, capitão da reserva da Marinha do Brasil, ressaltou que a escalada de conflitos ao redor do mundo, como no Irã na Ucrânia, pressionam o Brasil a rever sua estratégia de defesa, mas Brasília precisa olhar para a frente.

"A gente não pode mais continuar montando uma estratégia olhando para o espelho retrovisor. A gente precisa olhar para o para-brisa do carro, ou seja, olhar para frente, olhar o que está acontecendo na Ucrânia e no Irã, que são dois países que praticamente não têm marinhas, mas estão enfrentando potências mundiais com sucesso graças aos seus programas de drones e mísseis", afirma

No que diz respeito à guerra cibernética e à capacidade com drones, o Laginha reforça que a "nossa defesa aérea ainda é muito ruim, não é composta por ativos distribuídos em camadas. Nós não temos defesa de área nem de médio alcance, só defesa de pontos de curto alcance, e isso traz inúmeros problemas e desafios a serem enfrentados".
Farinazzo também aponta para o poder deficitário brasileiro na questão dos drones, chamando a atenção não só para o contingente, mas para o conceito sobre o equipamento. "A gente ainda não aprendeu que drone é uma coisa descartável e que tem que ser produzida em grande escala".
Recentemente, a Marinha ativou sua primeira divisão de drones, com foco no auxílio de operações militares — os focos são proteger áreas estratégicas e combater o crime organizado. Entretanto, Paulo Henrique Montini dos Santos Ribeiro, especialista ouvido pela Sputnik Brasil na oportunidade, ressaltou que, a princípio, o impacto dessas ferramentas será limitado.
Para Laginha, os principais desafios passam pela questão orçamentária. Para 2026, o orçamento do Ministério da Defesa é de R$ 142 bilhões, superior ao de muitos outros ministérios. Apesar disso, o Brasil ainda destina grande parte do montante para ordenados, o que impacta a capacidade de desenvolvimento, principalmente no Exército Brasileiro, que conta com mais militares.

"Enquanto a gente não tiver uma política pública voltada para garantir um orçamento de defesa equilibrado e perene, esses desafios não vão encontrar uma solução a curto e médio prazos. Programas como o Prosub e o SisGAAz [Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul] são importantíssimos, mas você vê que a velocidade de execução desses programas sempre encontra barreiras", destaca.

Augusto César Dall'Agnol, Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ressalta que existe coerência no desenho dos programas da Marinha Brasileira, mas "o problema aparece quando a gente sai do plano estratégico e olha para a capacidade real de operação". Segundo ele, é preciso transformar programas estratégicos "em poder naval efetivo";
"Uma dissuasão mais robusta pede combinação de meios. Isso inclui submarinos convencionais, navios de superfície com mísseis guiados, baterias costeiras e capacidades de interdição baseadas em terra", argumenta.
Já Farinazzo avalia que os programas são insuficientes para as necessidades apresentadas pelos conflitos modernos. Conforme ressalta o comandante, é preciso pensar em termos de capacidade de satélites, mísseis de longo alcance, comunicação criptografada, programa de drones massivo, uso de inteligência artificial nos insumos militares e nas atividades militares, além de programas autônomos.
"A gente não pode fazer uma marinha usando Windows porque todos os segredos acabam sendo revelados", salienta.
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