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Quanto mais dependente dos meios eletrônicos, mais frágil se torna a civilização, diz especialista
Quanto mais dependente dos meios eletrônicos, mais frágil se torna a civilização, diz especialista
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Antes do ataque que culminou com o assassinato do líder supremo do Irã Ali Khamenei, a inteligência de Israel havia hackeado câmeras de trânsito de Teerã para... 20.03.2026, Sputnik Brasil
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Segunda maior metrópole do Oriente Médio com uma população de 9,8 milhões de habitantes, Teerã conta com uma infraestrutura urbana altamente conectada com câmeras de vigilância e controle de tráfego, típicos de qualquer grande cidade global. E foi justamente essa estrutura que o serviço de inteligência de Israel utilizou por anos para controlar os passos e a rotina da principal autoridade do país: o então líder supremo Ali Khamenei.Depois de hackear os equipamentos e transmitir as imagens diretamente para servidores em Tel Aviv, o governo israelense conseguiu montar um enorme dossiê com endereços, horários de deslocamento e rotas utilizadas por Khamenei, membros da segurança iraniana e as principais autoridades do governo. Tudo isso foi usado para o ataque de 28 de fevereiro, que levou ao assassinato do líder supremo e diversos outros membros da gestão do Irã em algumas horas. A situação inaugurou a guerra que depois ia se difundir para praticamente todo o Oriente Médio.O caso também levanta preocupações mais amplas sobre a vulnerabilidade de grandes centros urbanos ao redor do mundo em um cenário de crescente tensão internacional. Muito além de bombas, mísseis e drones, a infraestrutura digital também se tornou uma peça central para as atuais guerras? A doutoranda em estudos estratégicos da defesa e segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Juliana Zaniboni afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que o crescimento tecnológico global ocorre ao mesmo tempo em que as próprias fragilidades são cada vez mais exploradas em contextos de conflito como esse."Os países cada vez mais produzem ou importam determinados tipos de tecnologia. Isso ao mesmo tempo faz com que eles fiquem vulneráveis ao sistema cibernético", explica. É o caso de hackers israelenses terem invadido as câmeras de tráfego de Teerã de forma silenciosa para coletar informações valiosas que mais tarde seriam utilizadas.Aliado a isso, Zaniboni lembra que Israel é uma potência tecnológica responsável por vender sistemas de segurança para várias partes do mundo, como a América Latina. "E o país também faz espionagem, principalmente no Oriente Médio, onde é visto como inimigo", acrescenta. Para a especialista, as últimas décadas mostraram que esse avanço também foi responsável por inaugurar um novo tipo de guerra, com ataques iniciados a partir de informações virtuais.Já o presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), Fabrício Ávila, pontua ao podcast Mundioka que na Primeira Guerra Mundial já havia tentativas de interceptação dos sistemas de radiocomunicação utilizados pelas forças militares, método que também foi avançando conforme o surgimento de novas tecnologias. Limites da tecnologia e o risco de novas vulnerabilidadesNa avaliação de Ávila, o avanço tecnológico no campo militar ainda está longe de representar um caminho sem volta. "Tudo é muito novo, não dá para dizer que a gente está num ponto sem retorno", afirma.Segundo ele, o atual momento é marcado por uma reconfiguração do uso de tecnologias, em que inovações convivem com a ressignificação de armamentos considerados obsoletos. Um exemplo dessa dinâmica é o possível novo papel das armas nucleares. De acordo com Ávila, uma explosão em alta atmosfera pode gerar um pulso eletromagnético capaz de "desligar tudo que é eletrônico, provocando uma espécie de "cegueira eletromecânica no inimigo", sem necessariamente destruir cidades ou estruturas físicas.Mais do que destruição direta, o foco passa a ser a neutralização da capacidade operacional do adversário, especialmente em sociedades altamente dependentes de sistemas digitais. Ao mesmo tempo, o especialista alerta que o avanço tecnológico não elimina limitações estruturais. "A tecnologia tem seus limites", resume.Ávila também chama atenção para os efeitos da automação, tanto no campo civil quanto militar. "Ao mesmo tempo que se sofistica e se dá um certo conforto, a automação também tira empregos", afirma. No âmbito das Forças Armadas, esse processo levou à redução de efetivos ao longo das últimas décadas, embora os conflitos recentes indiquem a necessidade contínua de presença humana, defende o especialista.Outro ponto central é o aumento da vulnerabilidade estrutural. "Quanto mais dependente de alta tecnologia, mais frágil em termos de segurança fica uma cidade, um estado ou um país", diz. Segundo ele, isso ocorre porque a digitalização amplia as chamadas "janelas de vulnerabilidade", criando mais pontos de entrada para possíveis ataques.Além das fragilidades técnicas, o uso crescente da inteligência artificial levanta dilemas éticos relevantes. Para Ávila, é uma temeridade usar a IA na seleção de alvos sem controle adequado, ao destacar o risco de erros e de atingimento de alvos indevidos.O especialista também alerta para um problema emergente: a velocidade das decisões automatizadas pode superar a capacidade humana de reação. Nesse contexto, um Exército pode até alcançar uma vitória no campo militar, mas a um custo político elevado e até "proibitivo", conclui.
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Quanto mais dependente dos meios eletrônicos, mais frágil se torna a civilização, diz especialista
20:58 20.03.2026 (atualizado: 21:26 20.03.2026) Especiais
Antes do ataque que culminou com o assassinato do líder supremo do Irã Ali Khamenei, a inteligência de Israel havia hackeado câmeras de trânsito de Teerã para identificar a rotina dele e outras altas autoridades do governo. Especialistas analisam se o uso intenso da tecnologia tem deixado as cidades mais vulneráveis em cenários de instabilidade.
Segunda maior metrópole do Oriente Médio com uma
população de 9,8 milhões de habitantes, Teerã conta com uma infraestrutura urbana altamente conectada com câmeras de vigilância e controle de tráfego, típicos de qualquer grande cidade global. E foi justamente essa estrutura que o serviço de inteligência de Israel utilizou por anos para controlar os passos e a rotina da principal autoridade do país: o
então líder supremo Ali Khamenei.
Depois de hackear os equipamentos e transmitir as imagens diretamente para servidores em Tel Aviv, o governo israelense conseguiu montar um enorme dossiê com
endereços, horários de deslocamento e rotas utilizadas por Khamenei, membros da segurança iraniana e as principais autoridades do governo. Tudo isso foi usado para o
ataque de 28 de fevereiro, que levou ao assassinato do líder supremo e diversos outros membros da gestão do Irã em algumas horas. A situação inaugurou a guerra que depois ia se difundir para praticamente todo o Oriente Médio.
O caso também levanta preocupações mais amplas sobre a vulnerabilidade de grandes centros urbanos ao redor do mundo em um cenário de crescente tensão internacional. Muito além de
bombas, mísseis e drones, a infraestrutura digital também se tornou uma peça central para as atuais guerras?
A doutoranda em estudos estratégicos da defesa e segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Juliana Zaniboni afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que o crescimento tecnológico global ocorre ao mesmo tempo em que as próprias fragilidades são cada vez mais exploradas em contextos de conflito como esse.
"Os países cada vez mais produzem ou importam determinados tipos de tecnologia. Isso ao mesmo tempo faz com que eles fiquem vulneráveis ao sistema cibernético", explica. É o caso de hackers israelenses terem invadido as câmeras de tráfego de Teerã de forma silenciosa para coletar informações valiosas que mais tarde seriam utilizadas.
"Hoje há um código sociotécnico de investir nesse tipo de tecnologia [de monitoramento]. É o caso, por exemplo, também do SmartSampa [sistema de câmeras de vigilância de São Paulo], onde tudo na cidade é monitorado. E não há como você, infelizmente, fazer um sistema que seja infalível, já que não são sistemas fechados", pontua.
Aliado a isso, Zaniboni lembra que Israel é uma potência tecnológica responsável por vender sistemas de segurança para várias partes do mundo, como a
América Latina. "E o país também faz espionagem, principalmente no Oriente Médio, onde é visto como inimigo", acrescenta. Para a especialista, as últimas décadas mostraram que esse avanço também foi responsável por inaugurar um novo tipo de guerra, com
ataques iniciados a partir de informações virtuais.
Já o presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), Fabrício Ávila, pontua ao podcast Mundioka que na Primeira Guerra Mundial já havia tentativas de interceptação dos sistemas de radiocomunicação utilizados pelas forças militares, método que também foi avançando conforme o surgimento de novas tecnologias.
"Agora, chegamos nesse limiar [com os sistemas atuais]. E, quanto mais dependente é uma civilização dos meios eletrônicos, mais frágil ela se torna, paulatinamente", diz.
Limites da tecnologia e o risco de novas vulnerabilidades
Na avaliação de Ávila, o avanço tecnológico no campo militar ainda está longe de representar um caminho sem volta. "Tudo é muito novo, não dá para dizer que a gente está num ponto sem retorno", afirma.
Segundo ele, o atual momento é marcado por uma reconfiguração do uso de tecnologias, em que inovações convivem com a ressignificação de armamentos considerados obsoletos. Um exemplo dessa dinâmica é o possível
novo papel das armas nucleares. De acordo com Ávila, uma explosão em alta atmosfera pode gerar um pulso eletromagnético capaz de "desligar tudo que é eletrônico, provocando uma espécie de "cegueira eletromecânica no inimigo",
sem necessariamente destruir cidades ou estruturas físicas.
Mais do que destruição direta, o foco passa a ser a neutralização da capacidade operacional do adversário, especialmente em sociedades altamente dependentes de sistemas digitais. Ao mesmo tempo, o especialista alerta que o avanço tecnológico não elimina limitações estruturais. "A tecnologia tem seus limites", resume.
Ávila também chama atenção para os efeitos da automação,
tanto no campo civil quanto militar. "Ao mesmo tempo que se sofistica e se dá um certo conforto, a automação também tira empregos", afirma. No âmbito das Forças Armadas, esse processo levou à redução de efetivos ao longo das últimas décadas, embora os conflitos recentes indiquem a necessidade contínua de presença humana, defende o especialista.
Outro ponto central é o aumento da vulnerabilidade estrutural. "Quanto mais dependente de alta tecnologia, mais frágil em termos de segurança fica uma cidade, um estado ou um país", diz. Segundo ele, isso ocorre porque a digitalização amplia as chamadas "janelas de vulnerabilidade", criando mais pontos de entrada para possíveis ataques.
Além das fragilidades técnicas, o uso crescente da inteligência artificial levanta dilemas éticos relevantes. Para Ávila, é uma temeridade usar a IA na seleção de alvos sem controle adequado, ao destacar o risco de erros e de atingimento de alvos indevidos.
O especialista também alerta para um problema emergente: a velocidade das decisões automatizadas pode superar a capacidade humana de reação. Nesse contexto, um Exército pode até alcançar uma vitória no campo militar, mas a um custo político elevado e até "proibitivo", conclui.
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