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Dilema dos EUA na Venezuela: fomentar oposição radical ou consolidar a estabilidade petrolífera?

© Foto / X / @MariaCorinaYAA líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio
A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio - Sputnik Brasil, 1920, 01.04.2026
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O encontro entre a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ocorreu na última terça-feira (31) em Washington, em um momento decisivo para a relação bilateral.
O encontro, confirmado por Machado, aconteceu poucas semanas depois de o governo Trump e o governo de Delcy Rodríguez finalizarem a restauração das relações diplomáticas, com a reabertura da embaixada dos EUA em Caracas e o reconhecimento da presidente interina como interlocutora legítima.

O que isso pretende demonstrar?

Antes do encontro entre Machado e Rubio, surgiram questionamentos sobre o equilíbrio que Washington tenta manter entre sua relação operacional com o chavismo e seus laços históricos com os setores mais radicais da oposição. Para o jornalista e analista político venezuelano Ernesto Navarro, o primeiro ponto que chama atenção é quem anunciou o encontro.
"Foi María Corina Machado, não o governo dos Estados Unidos", afirma Navarro em entrevista à Sputnik.
Essa diferença, afirma ele, é significativa: revela uma líder da oposição que precisa demonstrar que ainda tem acesso aos corredores do poder em Washington, enquanto a Casa Branca, por sua vez, optou por construir uma relação institucional com as autoridades que exercem controle territorial e político na Venezuela.

Uma oposição que não é uma só

Para entender a posição atual de Machado, Navarro propõe um exercício que pode escapar ao mundo exterior: na Venezuela, explica ele, não existe uma única oposição. Há anos, pelo menos dois mundos opostos coexistem dentro do movimento antichavista.
De um lado, há o setor radical que ela liderou a partir de 2005 com uma política de abstenção eleitoral que, na prática, acabou deixando seus partidos fora do poder. Esse setor, que apoiou sanções internacionais e intervenções militares, está agora majoritariamente fora do país. A própria Machado esteve no exterior, e seu retorno, mais anunciado do que concretizado, permanece sendo um enigma.
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No outro extremo, explica o analista, existe uma oposição que decidiu se distanciar desses extremos, retornar ao caminho eleitoral e construir espaços institucionais. Hoje, ocupam prefeituras e governos estaduais, além de terem representantes na Assembleia Nacional. "Eles estão engajados na política interna do país, disputando o poder com o partido governista e comprometidos com o sistema eleitoral", resume.
Essa fragmentação é fundamental para entender o que está acontecendo agora. Porque enquanto Machado busca retornar surfando na onda do Prêmio Nobel da Paz que recebeu na Noruega e de uma foto com Rubio, em Caracas outros setores da oposição já se reconciliaram com a ideia de construir acordos. E, segundo a análise mais recente da empresa de pesquisas Hinterlaces, o país entrou em um "novo ciclo político" em que o clima nacional se inclina para a reconciliação e a estabilidade, não para a vingança.

O petróleo como um elo de ligação

O que torna o cenário mais complexo é a relação paralela que os Estados Unidos construíram com o governo venezuelano. Desde o sequestro de Nicolás Maduro em 3 de janeiro, Washington se aproximou de Delcy Rodríguez, a quem reconhece como chefe de Estado, e em março reabriu sua embaixada em Caracas.

A razão, segundo Navarro, não é ideológica, mas prática: "Os Estados Unidos, como um viciado que precisa de sua dose, demandam petróleo urgentemente", afirma, e precisam de um parceiro institucional que possa garantir um fornecimento estável.

E esse parceiro, acrescenta, não é Machado. "Na prática, ela não tem sequer um policial municipal sob seu controle no país. Seu partido não conquistou poder algum após anos de abstenção. Ela não pode garantir uma relação institucional que sustente negociações com os Estados Unidos", declara.
Navarro também destaca que o que está acontecendo hoje entre Washington e Caracas é algo que Nicolás Maduro prometia há meses: ser um fornecedor confiável de petróleo para os Estados Unidos, como foi por mais de 100 anos. Na época, os EUA rejeitaram a oferta, envolta na retórica em torno do Trem de Aragua e do Cartel dos Sóis. Agora, com a escalada no Oriente Médio e uma demanda energética urgente, a Casa Branca finalmente cedeu.

O paradoxo ao qual ela quer retornar

Nesse contexto, o encontro com Rubio assume um tom diferente. Para Navarro, não se trata de uma mudança na estratégia de Washington, mas sim de uma operação de sobrevivência política para Machado.

"Sua principal preocupação, e é por isso que ela está anunciando esse encontro, por isso que foi entregar o Prêmio Nobel a Trump, é que quanto mais os holofotes se apagam, menos a narrativa criada sobre ela como líder da oposição é alimentada. Se essa narrativa não for vendida, se ela não for comercializada como um produto, então esse produto não será consumido", afirma.

A foto do encontro com Marco Rubio, sugere o especialista, é uma tentativa de permanecer em evidência em um momento em que as regras do jogo estão mudando. Enquanto Machado se reúne em Washington, um novo cenário institucional se desenha em Caracas, onde o calendário eleitoral para a renovação das autoridades já foi cumprido e o poder agora é definido por quem participa e vence as eleições, não por quem, do exterior, anuncia resultados que nunca se concretizam.
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"Para uma futura eleição, ela estaria fora da disputa, e é isso que deve estar lhe causando mais preocupação agora", enfatiza Navarro.

O dilema de Washington

A grande questão, admite Navarro, é como os Estados Unidos vão lidar com essa contradição. Por um lado, precisam de petróleo e encontraram em Rodríguez um interlocutor estável. Por outro, mantêm a porta aberta com Machado, cuja retórica confrontativa e revanchista contrasta com o clima atual na Venezuela.

"Seria muito difícil prever o que os EUA farão, especialmente considerando que reagem de forma diferente quando precisam defender seus interesses", diz Navarro. Ele também alerta para um padrão já observado antes: "Quanto mais vulnerável internamente for a atual administração norte-americana, maior será o perigo para as nações com relações difíceis com Washington."

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