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Poços profundos x 'novo' tipo de petróleo: quais as vantagens da parceria entre Petrobras e Pemex?

© Foto / Ricardo Stuckert / Presidência da RepúblicaO presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro bilateral com a presidente do México, Claudia Sheinbaum, em 9 de abril de 2025
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro bilateral com a presidente do México, Claudia Sheinbaum, em 9 de abril de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 02.04.2026
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Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas afirmam que a Pemex ganharia conhecimento para perfuração em poços profundos e aumentaria sua produção, enquanto os brasileiros aprenderiam a extrair petróleo diferente do encontrado no pré-sal.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu à presidente do México, Claudia Sheinbaum, uma parceria entre a Petrobras e a estatal petrolífera mexicana, a Pemex. A proposta brasileira tem como objetivo explorar poços profundos na região do golfo do México, além de auxiliar pesquisadores mexicanos no desenvolvimento do setor de biocombustíveis.
Segundo Sheinbaum, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, deve visitar o país latino-americano neste mês para se reunir com diretores da Pemex, autoridades do setor energético e a própria mandatária mexicana.
Nos últimos meses, os dois países têm dedicado tempo a estudar possíveis laços de aprofundamento de suas economias, as duas maiores da América Latina, incluindo a visita do vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, ao México em 2025.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas no setor petrolífero afirmaram que a parceria entre Petrobras e Pemex pode ser benéfica para ambas as estatais. Enquanto os mexicanos aprenderiam a extrair petróleo em poços profundos e aumentariam sua produção, brasileiros teriam a oportunidade de trabalhar com um tipo de petróleo não explorado no país — possivelmente similar ao encontrado na Margem Equatorial, na região Norte.
Mahatma Ramos, diretor-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), explica que essa aproximação de Brasília para uma parceria com os mexicanos mostra que a Petrobras acredita na continuidade da relevância do petróleo. Ainda segundo o analista, a exploração no golfo do México colocaria a estatal brasileira "em uma região estratégica".

"Todas as atividades exploratórias de produção, desenvolvimento e, posteriormente, refino e revenda de combustíveis têm um processo de longa maturação desses investimentos. […] A Petrobras já tem, nos últimos anos, sinalizado, com as atividades exploratórias na Colômbia e na costa ocidental da África, a retomada dessa tradição de atuar em mercados para além do brasileiro."

Ramos conta que uma eventual chegada da Petrobras ao golfo do México terá um risco dividido, já que a estatal brasileira deve realizar uma joint venture com a empresa norte-americana Murph Exploration and Production.

"A Petrobras é um player consolidado nas atividades de exploração e produção internacional. Acredito que esse avanço em direção ao golfo do México deva ser percebido pelos atores de mercado como um sinal positivo da Petrobras por busca de novas fronteiras exploratórias, novos mercados, nova receita e nova ampliação da sua capacidade de geração de riqueza."

Cloviomar Cararine Pereira, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) na subseção da Federação Única dos Petroleiros (FUP), destaca que nenhuma empresa no setor de petróleo atua sozinha. De acordo com o especialista, companhias estatais e privadas sempre buscam a troca de conhecimento.
No caso da Petrobras, que agora estuda explorar as bacias da Margem Equatorial brasileira, faz-se necessário acumular exemplos de extração e técnicas de segurança para diferentes tipos de petróleo.

"A Petrobras tem muito interesse naquela região por conta da Margem Equatorial. […] Conhecer o golfo do México, a realidade de produção, é importante para a Petrobras porque você tem uma região mais próxima da Margem Equatorial do que a bacia de Campos ou a de Santos, por exemplo."

Pereira também aponta como importante ponto da parceria a aproximação política entre Brasil e México, enquanto faz oposição à presença estadunidense na região, rebatizada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de golfo da América.

"A Pemex tem reduzido muito a sua produção. Essa troca com a Petrobras pode ser importante para ela voltar a produzir mais petróleo naquela região e, de certa maneira, se proteger também do possível ataque do governo norte-americano àquelas reservas de petróleo. Então acho que é uma troca entre essas duas empresas. A Petrobras não entra só para ajudar, a Petrobras entra também com muitos interesses nessa relação."

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É o passo certo para o Brasil?

Desde o início do século, o Brasil é considerado autossuficiente em petróleo. Ou seja, toda a extração em poços nacionais é suficiente para suprir o mercado interno.
Essa autossuficiência, no entanto, não se converte em preços mais baixos no bolso do brasileiro. Cerca de 30% do combustível utilizado no país são de origem estrangeira, já que o país não tem capacidade para refinar todo o petróleo extraído e, por consequência, abastecer os postos.
"O que esperamos como sociedade civil brasileira é que a Petrobras invista na expansão do seu parque de refino e na ampliação da oferta de insumos, seja de baixo carbono ou tradicionais, com os derivados de petróleo, para o abastecimento interno nacional, bem como investimentos em novas fronteiras exploratórias", afirma Ramos.
O diretor-técnico do Ineep, por sua vez, destaca que aumentar o potencial de refino não significa reduzir a exploração de poços, seja no Brasil ou no exterior. Para o especialista, o pré-sal foi uma das maiores descobertas do setor nos últimos 50 anos e colocou o país "de maneira central na geopolítica do petróleo".

"O que reforça o caráter e a importância estratégica dessa descoberta é o fato de que o Brasil, imediatamente após descobrir o pré-sal, ser consolidado o caráter comercial e o volume de reservas, virou objeto, por exemplo, de espionagem do governo americano. E nós observamos um projeto de crise política que culminou em um golpe de Estado no Brasil, que tinha como epicentro a questão energética, a Petrobras e as reservas de petróleo brasileiro."

Assim como Ramos, Pereira acredita na importância da exploração contínua de outros poços.

"O grande negócio de uma empresa de petróleo é descobrir o petróleo, achar, poder tirar esse petróleo. Então elas vão sempre ficar procurando novas bacias. Como falei, a Petrobras, quanto mais atuar em outras bacias de exploração, em outras realidades, é melhor, porque vai conhecendo essas novas realidades e pode utilizar a sua tecnologia ou aprender novas tecnologias."

Já na questão de refinamento, o economista acredita que o Brasil não progrediu por escolhas dos governos de Michel Temer (2016–2018) e Jair Bolsonaro (2019–2023).

"No projeto de país, é importante para o Brasil que a gente tenha mais refinarias e que a gente possa não exportar refinados, mas que a gente possa abastecer completamente o mercado nacional. Hoje a gente tem uma deficiência de diesel, por exemplo, que a gente poderia suprir se tivesse mais refinarias."

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América Latina: muita reserva, pouca produção

Pereira destacou à Sputnik Brasil que a Venezuela é o país com as maiores reservas inexploradas de petróleo no mundo, com 17% do total já identificados ao redor do globo. Com outras nações da América do Sul e Central, a região possui 20% das reservas mundiais, ficando atrás apenas do Oriente Médio, com 50%.
Apesar da quantidade expressiva de barris a serem extraídos, a região centro-sul-americana produz apenas 8% do petróleo global. Para o economista, "a gente tem muita reserva e produz pouco".

"A gente precisa aumentar a produção de petróleo, pensando aqui, claro, em todo o debate sobre a transição energética. Mas há muita possibilidade de aumentar a produção aqui, e também de refinados. O que falta é esse tipo de parceria entre empresas estatais, para troca de conhecimentos e para fazer com que essas empresas estatais possam produzir petróleo nesses países, refinar esse petróleo na América Latina e utilizar essa renda para a população dessa região."

Para Ramos, o processo de privatização e desnacionalização das cadeias produtivas reforçou o caráter primário do setor energético latino-americano, criando "gargalos, problemas e barreiras ao desenvolvimento industrial mais pujante nessa região".

"A gente tem um desafio regional de pensar a integração e potencializar o desenvolvimento industrial na região, ao mesmo tempo que precisamos de decisões políticas que preservem a soberania e o controle popular sobre a propriedade dessas riquezas, porque o que vivemos e observamos nas últimas quatro décadas […] é um processo intensivo de desregulamentação dessas cadeias produtivas."

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