Sonda chinesa detecta 'sombra' de raios cósmicos entre a Terra e a Lua (IMAGEM)

© Foto / NASA/JPL/USGS
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A sonda chinesa Chang’e 4 detectou uma inesperada queda no fluxo de raios cósmicos quando a Lua cruza uma "sombra" criada pelo campo magnético da Terra, revelando que essa radiação não é tão uniforme quanto se pensava e abrindo novas possibilidades para proteger astronautas em futuras missões.
Dados da sonda Chang'e 4 revelam a existência de uma espécie de "cavidade" entre a Terra e a Lua, perceptível apenas quando ambos os corpos celestes se alinham de maneira específica. A descoberta desafia a ideia de que esses fluxos de partículas energéticas seriam uniformes em todas as direções.
Raios cósmicos são partículas altamente energéticas, originadas de fenômenos extremos como explosões de supernovas. Compostos majoritariamente por prótons, eles atravessam o espaço em alta velocidade e representam um risco significativo por serem radiação ionizante, capaz de danificar DNA e aumentar a probabilidade de mutações. Na Terra, a atmosfera funciona como escudo, mas astronautas e pilotos continuam expostos a níveis mais elevados.

Ilustração da formação da cavidade de raios cósmicos galácticos (GCR Cavity, em inglês) representada pela seta em espiral amarela descendente em direção à Terra (Earth).

A folha de corrente heliosférica (HCS, na sigla em inglês) resulta da influência do campo magnético rotativo do Sol sobre o plasma no meio interplanetário (vento solar). Seu formato espiral ondulado foi comparado à saia de uma bailarina.
Ilustração da formação da cavidade de raios cósmicos galácticos (GCR Cavity, em inglês) representada pela seta em espiral amarela descendente em direção à Terra (Earth).
A folha de corrente heliosférica (HCS, na sigla em inglês) resulta da influência do campo magnético rotativo do Sol sobre o plasma no meio interplanetário (vento solar). Seu formato espiral ondulado foi comparado à saia de uma bailarina.
A intensidade desses raios, conhecidos como raios cósmicos galácticos (RCGs), varia conforme a atividade solar. Durante períodos de máximo solar, o vento solar mais intenso desvia grande parte das partículas. No entanto, a nova análise publicada na Sciece Advances sugere que o campo magnético da Terra também desempenha um papel importante na modulação desse fluxo, criando zonas de menor incidência.
A Chang'e 4, equipada com o Detector Lunar de Nêutrons e Dosimetria (LND, na sigla em inglês), monitora prótons desde 2019, sempre durante o dia lunar, quando o módulo recebe luz solar suficiente para operar. A partir de 31 ciclos lunares analisados, os pesquisadores observaram que, em determinado trecho da órbita — o setor pré-meio-dia —, o fluxo de prótons cai cerca de 20% em relação ao restante do percurso.
Os cientistas atribuem essa redução ao alinhamento entre o campo magnético interplanetário, moldado pela espiral de Parker gerada pela rotação solar, e o sistema Terra-Lua. Quando esse alinhamento ocorre, as linhas do campo magnético interplanetário conectam a Lua a regiões de forte magnetismo terrestre, criando uma espécie de "sombra" que bloqueia parte dos RCGs.
Essa sombra magnética acompanha a Lua por aproximadamente dois dias em cada órbita, período em que a sonda registra a queda no fluxo de partículas. O fenômeno sugere que o campo magnético terrestre pode, em certas condições, estender sua proteção além do planeta, influenciando diretamente o ambiente de radiação lunar.
Para os pesquisadores, a descoberta abre novas possibilidades para o planejamento de missões espaciais. Atividades extraveiculares e operações sensíveis poderiam ser programadas para coincidir com esses intervalos de menor radiação, reduzindo riscos para astronautas.


