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Análise: Norte Global tem as mãos 'manchadas de sangue' e nenhum interesse em mudar a ordem vigente
Análise: Norte Global tem as mãos 'manchadas de sangue' e nenhum interesse em mudar a ordem vigente
Sputnik Brasil
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que antigos colonizadores têm "compromissos mesquinhos" com seu próprio grupo de poder, e que... 15.04.2026, Sputnik Brasil
2026-04-15T17:00-0300
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A comunidade europeia construiu sua riqueza e prosperidade explorando a mão de obra de africanos escravizados, e hoje atua para se esquivar da responsabilização pela escravidão que pode levar a políticas reparatórias.É o que apontam analistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, ao comentar a resolução 80/250 da Organização das Nações Unidas (ONU), que classificou a escravidão como o pior crime da história, com 123 votos a favor, 52 abstenções e 3 votos contrários, proferidos por EUA, Israel e Argentina.Eles apontam que, inicialmente, os votos contrários chamaram atenção, mas destacam que as abstenções, pouco comentadas, jogam luz sobre a resistência de países do Norte Global em aceitar mudanças na ordem mundial vigente que os beneficia.Patrícia Teixeira dos Santos, professora titular de história da África da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que a "ótica mesquinha" que embasou as 52 abstenções é de uma "leviandade calculada" que visa evitar eventuais processos jurídicos que levem a políticas de reparação.Ela avalia que o recado dado por esses países é que não há interesse por parte deles em alterar a geopolítica mundial."É uma abstenção de mãos manchadas de sangue. Se a gente vê entre os países que se abstiveram, é toda a comunidade europeia. Comunidade essa que no seu passado histórico construiu a sua riqueza e prosperidade explorando a mão de obra dos africanos, dos indígenas da América Latina e de outros povos que fazem parte do Sul Global."Teixeira frisa que os políticos neoliberais da Europa e as políticas agressivas de EUA e Israel deixam claro que "se a gente não tomar a posse da nossa história e de fato fazermos mudanças", não serão os colonizadores do passado e seus descendentes atuais que farão isso.Para a analista, se a resolução aprovada na ONU fosse sobre o Holocausto, e não sobre a escravidão, o resultado seria diferente, porque há "compromissos mesquinhos" do Norte Global com sua própria causa, enquanto o Sul Global é visto como fora desse grupo de poder, como utilitários que servem de apoio político e econômico à sobrevivência de diversos projetos políticos.No entanto, ela aponta que hoje a situação é muito diferente e o Sul Global é capaz de produzir "brilhantemente teorias, perspectivas, metodologias dos estudos chamados pós-coloniais, decoloniais".André Frota, professor de relações internacionais e geociências do Centro Universitário Internacional Uninter, compartilha da opinião de Teixeira, afirmando que a resolução tem como finalidade "estabelecer uma certa hierarquia em relação ao crime de escravidão" para abrir caminho para fazer da escravidão uma norma imperativa de dívida internacional, o que permitiria aos países que sofreram as consequências desse processo cobrar reparação.Ele explica que o Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional (TPI), tipifica em seu artigo quinto crimes que ele pode legislar, o que inclui genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão. Já no artigo sétimo, ele qualifica o que seriam crimes contra a humanidade, que incluem homicídio, extermínio, deportação, tortura, escravidão, agressão sexual, perseguição, desaparecimento, apartheid.No entanto, ele afirma que uma iniciativa de natureza jurídica não se sustenta sozinha e precisa de apoio, uma concertação internacional, para criar tração política que possibilite, por exemplo, a recuperação de objetos que foram roubados por colonizadores, roubados sobretudo de países africanos."E é claro que aí os países europeus não vão querer se comprometer. Por isso que a maior parte se absteve."Frota afirma ainda que a escravidão sempre foi um tema de natureza diplomática e política, que cumpriu um papel no período colonial."A escravidão cumpriu um papel, mesmo na história colonial brasileira, na independência brasileira, nos primeiros tratados que o Brasil formulou, nos primeiros acordos de comércio — a relação, por exemplo, do Brasil com a Inglaterra, no processo de independência. Há uma história enorme de relação e do impacto da escravidão na própria história brasileira, na própria história dos países africanos."
https://noticiabrasil.net.br/20260327/analise-sem-reparacao-historica-resolucao-da-onu-sobre-escravidao-sera-apenas-um-discurso-bonito-49288806.html
https://noticiabrasil.net.br/20260327/europa-continua-praticas-de-neocolonialismo-na-africa-acredita-analista-alemao-49283050.html
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Análise: Norte Global tem as mãos 'manchadas de sangue' e nenhum interesse em mudar a ordem vigente
17:00 15.04.2026 (atualizado: 17:36 15.04.2026) Especiais
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que antigos colonizadores têm "compromissos mesquinhos" com seu próprio grupo de poder, e que transformar o mundo sempre foi encargo do Sul Global.
A comunidade europeia construiu sua riqueza e prosperidade explorando a mão de obra de africanos escravizados, e hoje atua para se esquivar da responsabilização pela escravidão que pode levar a
políticas reparatórias. É o que apontam analistas ouvidos pelo
podcast Mundioka, da
Sputnik Brasil, ao comentar a resolução 80/250 da Organização das Nações Unidas (ONU), que classificou a escravidão como o pior crime da história, com 123 votos a favor, 52 abstenções e 3 votos contrários, proferidos por
EUA, Israel e Argentina.Eles apontam que, inicialmente, os votos contrários chamaram atenção, mas destacam que as abstenções, pouco comentadas, jogam luz sobre a resistência de países do Norte Global em aceitar mudanças na ordem mundial vigente que os beneficia.
Patrícia Teixeira dos Santos, professora titular de história da África da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz que a "ótica mesquinha" que embasou as 52 abstenções é de uma "leviandade calculada" que visa evitar eventuais processos jurídicos que levem a políticas de reparação.
"Se abster disso é continuar a cometer um crime. Tem abstenções que são feitas com mãos manchadas de sangue."
Ela avalia que o recado dado por esses países é que não há interesse por parte deles em alterar a geopolítica mundial.
"É uma abstenção de mãos manchadas de sangue. Se a gente vê entre os países que se abstiveram, é toda a comunidade europeia. Comunidade essa que no seu passado histórico construiu a sua riqueza e prosperidade explorando a mão de obra dos africanos, dos indígenas da América Latina e de outros povos que fazem parte do Sul Global."
Teixeira frisa que os políticos neoliberais da Europa e as políticas agressivas de EUA e Israel deixam claro que "se a gente não tomar a posse da nossa história e de fato fazermos mudanças", não serão os colonizadores do passado e seus descendentes atuais que farão isso.
"Não é o Norte que se arrepende, é o Sul que transforma o mundo. Sempre foi assim, e sinto que ainda será por muito tempo. O Norte até pode mudar, mas ele só muda por causa da força e pressão política do Sul do mundo."
Para a analista, se a
resolução aprovada na ONU fosse sobre o Holocausto, e não sobre a escravidão, o resultado seria diferente, porque há
"compromissos mesquinhos" do Norte Global com sua própria causa, enquanto o Sul Global é visto como fora desse grupo de poder, como utilitários que servem de apoio político e econômico à sobrevivência de diversos projetos políticos.
No entanto, ela aponta que hoje a situação é muito diferente e o Sul Global é capaz de produzir "brilhantemente teorias, perspectivas, metodologias dos estudos chamados pós-coloniais, decoloniais".
"E o Norte Global vive hoje, do ponto de vista econômico e social, um retrocesso, um pânico, um medo muito grande desse Sul Global e um egoísmo exacerbado do ponto de vista econômico, uma política econômica agressiva e leviana, que não se responsabiliza ética e moralmente sobre o que foi feito no passado."
André Frota, professor de relações internacionais e geociências do Centro Universitário Internacional Uninter, compartilha da opinião de Teixeira, afirmando que a resolução tem como finalidade "estabelecer uma certa hierarquia em relação ao crime de escravidão" para abrir caminho para fazer da escravidão uma norma imperativa de dívida internacional, o que permitiria aos países que sofreram as consequências desse processo cobrar reparação.
Ele explica que o Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional (TPI), tipifica em seu artigo quinto crimes que ele pode legislar, o que inclui genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão. Já no artigo sétimo, ele qualifica o que seriam crimes contra a humanidade, que incluem homicídio, extermínio, deportação, tortura, escravidão, agressão sexual, perseguição, desaparecimento, apartheid.
"O que acontece é que há um certo entendimento jurisprudencial de que não existe hierarquia entre esses crimes. […] Essa resolução […] tenta mudar essa lógica, tenta mudar essa estrutura normativa de crimes, busca colocar a escravidão como um crime que é superior a esses demais."
No entanto, ele afirma que uma iniciativa de natureza jurídica não se sustenta sozinha e precisa de apoio, uma concertação internacional, para criar tração política que possibilite, por exemplo, a recuperação de objetos que foram roubados por colonizadores, roubados sobretudo de países africanos.
"E é claro que aí os países europeus não vão querer se comprometer. Por isso que a maior parte se absteve."
Frota afirma ainda que a escravidão sempre foi um tema de natureza diplomática e política, que cumpriu um papel no período colonial.
"A escravidão cumpriu um papel, mesmo na história colonial brasileira, na independência brasileira, nos primeiros tratados que o Brasil formulou, nos primeiros acordos de comércio — a relação, por exemplo, do Brasil com a Inglaterra, no processo de independência. Há uma história enorme de relação e do impacto da escravidão na própria história brasileira, na própria história dos países africanos."
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