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Reunião de Lula com Trump desmonta mito de confronto irreconciliável entre os dois, diz analista

© Palácio do Planalto / Ricardo StuckertPresidente Luiz Inácio Lula da Silva é recebido pelo presidente norte-americano Donald Trump na Casa Branca. 7 de maio de 2026
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é recebido pelo presidente norte-americano Donald Trump na Casa Branca. 7 de maio de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 07.05.2026
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Pela primeira vez desde o retorno do republicano ao poder, os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, se reuniram a portas fechadas na Casa Branca. Entre os temas discutidos estavam a exploração de terras raras, tarifaço e o fortalecimento das relações econômicas e diplomáticas.
Em um encontro considerado histórico e que fugiu do protocolo tradicional adotado por Donald Trump, que costuma falar com a imprensa antes das reuniões reservadas, o Lula conversou por quase três horas com o norte-americano nesta quinta-feira (7), na Casa Branca. A reunião, descrita como mais informal do que uma visita oficial de Estado, estava inicialmente prevista para março, mas foi adiada diversas vezes em meio à escalada da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Inicialmente, havia a expectativa de que os dois líderes concedessem uma coletiva após as discussões. Porém, a extensão das conversas levou ao cancelamento da agenda com jornalistas. Na sequência, Lula falou sobre o encontro na embaixada do Brasil em Washington, enquanto Trump descreveu o brasileiro nas redes sociais como o "dinâmico presidente brasileiro" e afirmou que a agenda foi "muito produtiva".
Entre os temas discutidos estavam a exploração de terras raras, tarifas de importação contra produtos brasileiros, geopolítica, governança internacional e segurança pública.
Isso porque o Planalto tem evitado que o governo norte-americano passe a classificar organizações criminosas brasileiras, como PCC e Comando Vermelho, como terroristas, o que poderia abrir margem para intervenções diretas no país. Apesar de o tema não ter sido debatido diretamente, Lula afirmou que foram discutidas estratégias conjuntas de combate ao crime organizado.
Entre os resultados do encontro está a previsão de novas reuniões entre autoridades dos dois países, em mais um passo da reaproximação diplomática entre Brasília e Washington, marcada nos últimos meses por atritos.
"Eu sempre acho que a fotografia vale muito. Eu fiz questão de dizer: 'Ria. É importante. Alivia. Alivia a nossa alma a gente rir um pouco'", brincou Lula ao comentar a foto tirada ao lado de Trump.
O mestre e doutorando em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Jhonathan Mattos, avalia o encontro como positivo à Sputnik Brasil.
"Trump e Lula sempre tiveram uma relação ambígua, mas o Trump sempre reconheceu o brasileiro enquanto uma liderança. E parece que a conversa de hoje foi bem pacífica. Inclusive, o republicano afirmou que a reunião foi muito boa, e sabemos que, no geral, as publicações dele são agressivas e superlativas, o que não ocorreu", enfatiza.

Lula e a cobrança por maior presença econômica dos EUA

Conforme o presidente brasileiro, ao longo da conversa com Trump, ele citou como exemplo do afastamento norte-americano a ausência de empresas dos Estados Unidos em licitações internacionais realizadas no Brasil, como as de ferrovias, ao contrário do que ocorre com a China.
"O Lula é muito pragmático, essa é uma das grandes características dele. Quando coloca essa questão na mesa, na verdade está tentando atrair investimentos norte-americanos para o país, porque quem ganhou espaço na América Latina a partir dos anos 2000 foi a China, que se tornou nosso maior parceiro comercial", afirma Mattos, ao acrescentar que vê na fala do presidente uma tentativa de equilibrar a relação entre as potências.
Sobre a exploração de terras raras, Lula afirmou a Trump que o Congresso aprovou uma nova legislação para regulamentar a atividade no país. Segundo o presidente brasileiro, a medida reforça a soberania nacional sobre esses minerais e amplia a segurança jurídica para futuras parcerias internacionais, incluindo com os Estados Unidos.
Durante a coletiva, Lula frisou que o Brasil não vetará quem terá como parceiro no desenvolvimento do setor de terras raras.
Para o doutorando da UERJ, a fala também tem impacto no cenário político interno e atinge diretamente setores ligados ao bolsonarismo. "A soberania vai ser um dos principais debates desse processo eleitoral, inclusive vai ser levantada muito pelo Lula", avalia;

"Essa reunião com o Trump desmonta um pouco o mito do Lula enquanto um adversário ideológico irreconciliável do Trump, uma pessoa que não teria boas relações com os EUA por serem de espectros ideológicos diferentes. Isso enfraquece a narrativa bolsonarista."

Multilateralismo e críticas ao isolacionismo

O especialista também destaca o peso geopolítico das declarações de Lula sobre reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e críticas ao isolacionismo norte-americano impulsionado pelo tarifaço que atingiu praticamente todo o mundo.
Para Mattos, o presidente brasileiro buscou se posicionar não apenas diante de Trump, mas também perante o chamado Sul Global, defendendo reformas na governança internacional e um retorno dos EUA a uma atuação mais cooperativa.
"Então, quando o Lula critica o isolacionismo, ele não está apenas criticando o Trump e defendendo o multilateralismo, mas também fazendo um chamado para que os Estados Unidos voltem a atuar não como uma potência de hegemonia global, algo que o Lula sempre critica, mas como um participante importante dentro do sistema internacional", argumenta.
Aliado a isso, Mattos vê como simbólico o fato de a reunião entre Lula e Trump ter durado quase três horas, algo incomum no padrão adotado pelo presidente norte-americano com outros líderes estrangeiros. Para ele, isso demonstra interesse estratégico dos Estados Unidos em preservar e ampliar os laços com o Brasil em temas considerados sensíveis para os dois países.
Durante a coletiva na embaixada brasileira em Washington, Lula também afirmou que o Brasil "não abrirá mão da democracia e da soberania", além de defender maior participação dos Estados Unidos em investimentos no país.
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Relação entre Brasil e EUA segue estratégica?

Já a pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Lívia Milani, pontua à Sputnik Brasil que o encontro demonstra que, apesar das diferenças ideológicas entre os dois governos, Brasil e Estados Unidos seguem mantendo uma relação estratégica.
Segundo a especialista, Lula tenta transmitir ao público brasileiro a imagem de que consegue manter diálogo com Washington sem abrir mão da soberania nacional ou da autonomia diplomática do país. "São dois chefes de Estado que conseguem conversar e que não precisam necessariamente entrar em conflito, apesar dessas perspectivas tão diferentes", afirma.
Milani avalia que o presidente brasileiro também busca reforçar internamente a ideia de que mantém acesso direto à Casa Branca e capacidade de negociação em temas relevantes para o país, especialmente em um momento de aproximação do calendário eleitoral.
A pesquisadora ressalta ainda que os laços entre Brasil e Estados Unidos são históricos e densos, envolvendo não apenas governos, mas também setores econômicos, diplomáticos e institucionais. "As relações entre Brasil e Estados Unidos são muito importantes para que qualquer um dos dois governos possa simplesmente abrir mão delas", destaca.
Sobre a pauta de segurança pública, a especialista afirma que Lula tenta ampliar a cooperação bilateral no combate ao crime organizado sem aderir à lógica de "narcoterrorismo" defendida por setores ligados a Trump. Na avaliação dela, uma militarização mais intensa do combate às facções poderia abrir espaço para violações de direitos humanos e ampliar tensões na região.
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