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Milei, Paz e Noboa: com países em crise, aliados dos EUA receberão ajuda ou serão abandonados?
Milei, Paz e Noboa: com países em crise, aliados dos EUA receberão ajuda ou serão abandonados?
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Pesquisadoras afirmam que o apoio dos EUA tende a se dar por meio de inteligência, cooperação militar e articulação política, mas apontam que essas iniciativas... 28.05.2026, Sputnik Brasil
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No segundo mandato de Donald Trump à frente da Casa Branca, Washington ampliou seu foco estratégico sobre a América Latina, já tendo ajudado financeiramente Buenos Aires, invadido Caracas, isolado Havana e anistiado um ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, preso em território norte-americano pelo tráfico de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos.As ações ocorrem em meio à disputa por influência na região com Pequim que, na última década, ultrapassou Washington como maior parceiro comercial de grande parte da América Latina, em especial, a América do Sul. Além do comércio, a China também se apresenta como investidora na infraestrutura da região, sendo a responsável pela construção do Porto de Chancay, no Peru.Por outro lado, os Estados Unidos contam com aliados na região, como Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Panamá, Honduras, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, Costa Rica, República Dominicana e Chile. Entretanto, ao menos três desses países atravessam crises políticas que desafiam a estabilidade de seus governos.Na Argentina, o governo de Javier Milei enfrenta denúncias de corrupção, avanço do desemprego, fechamento de empresas e redução de investimentos em serviços públicos.No Equador, Daniel Noboa — eleito sob a promessa de restaurar a segurança pública — lida com a expansão da criminalidade para novas regiões e a piora da violência. O cenário tem afetado o cotidiano da população, com sucessivos estados de emergência e toques de recolher.Na Bolívia, diversos setores organizam protestos contra o governo de Rodrigo Paz, incluindo movimentos de trabalhadores, indígenas, agricultores e organizações sociais, com pedidos de renúncia do presidente. As mobilizações foram classificadas pelo Departamento de Estado norte-americano, como "ações destinadas a desestabilizar o governo democraticamente eleito".À Sputnik Brasil, a professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ) Ana Penido aponta que os episódios observados nesses países não devem ser interpretados como casos isolados.Segundo ela, há uma tendência regional de contestação social diante de políticas de austeridade e ajustes econômicos mais severos, o que pode ampliar focos de instabilidade para além dos quatro países mencionados.Pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (Ineu), Penido lembra que processos semelhantes marcaram a primeira onda neoliberal da América Latina e contribuíram para o surgimento da chamada Onda Rosa. Essa resistência tende a assumir características distintas em cada país, conforme suas memórias políticas e estruturas sociais.Na Argentina, por exemplo, ela espera um protagonismo maior do movimento sindical, dada a tradição e força histórica das organizações operárias. Já na Bolívia, avalia que os protestos tendem a ser impulsionados por organizações indígenas e movimentos sociais ligados às comunidades locais.Honduras pode ser trampolim de ajuda a governos 'aliados'?Em Honduras, país atualmente governado por Nasry Asfura, apoiado por Trump em sua eleição, áudios vazados apontam para uma suposta articulação envolvendo o país, os Estados Unidos, Israel e a Argentina, com o objetivo de desestabilizar governos de esquerda na América Latina. Nas gravações, o ex-presidente Juan Orlando Hernández — o mesmo perdoado por Trump — afirma que sua absolvição decorreu de lobby israelense e solicita US$ 150 mil para montar uma "célula informativa" nos Estados Unidos, destinada a conduzir "expedientes" contra México e Colômbia.Em outra conversa, atribuída à vice-presidente hondurenha Antonieta Mejía, é mencionado que o governo de Milei aportaria US$ 350 mil ao projeto, com o objetivo de "extirpar o câncer da esquerda" na América Latina.Para Lívia Milani, pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), embora episódios de intervenção militar explícita existam, não constituem o padrão predominante de ação dos Estados Unidos na América do Sul.Em seu lugar, já estão montados mecanismos indiretos de influência: Washington atua principalmente por meio de relações duradouras com elites políticas, econômicas e institucionais da região, além de conexões históricas com forças armadas e órgãos de segurança pública."Não é simplesmente uma coisa unidirecional", explica, mas essas ligações também são alimentadas por atores latino-americanos interessados em estreitar vínculos com Washington."Pode haver um aumento dessas conexões, algum tipo de ajuda dos Estados Unidos para as forças de segurança", diz Milani à Sputnik Brasil, citando como exemplos a cooperação logística, o repasse de informações e o compartilhamento de inteligência como mecanismos capazes de influenciar a gestão de crises e a repressão de protestos.Uma aliança securitária foi, inclusive, o principal tópico do evento Escudo das Américas (Shield of Americas, no original), evento em Washington, D. C., que reuniu líderes de toda a América para discutir o combate a cartéis de drogas. Estavam presentes, inclusive, os presidentes dos países afetados por crises sociais: Javier Milei, Rodrigo Paz e Daniel Noboa.Para Milani, as revelações dos áudios de Honduras evidenciam o que chama de instrumentalização geopolítica da agenda antidrogas por Washington.Um efeito que esses apoios podem trazer é a manutenção do status desses países como "Estados periféricos" em relação a Washington. Segundo Ana Penido, a ajuda oferecida pela Casa Branca a aliados opera dentro de uma lógica de dependência econômica e estratégica.O caso mais conhecido do tipo foi o Plano Colômbia, instituído na virada do milênio. Nele, Washington deu assistência econômica e militar a Bogotá para que combatesse grupos guerrilheiros. Até seu fim, em 2015, cerca de US$ 10 bilhões foram repassados ao governo colombiano.Esses empréstimos frequentemente retornam às próprias economias centrais por meio da compra de equipamentos militares e da adoção de doutrinas de defesa formuladas formadas no estrangeiro.A pesquisadora vê o episódio hondurenho como sintoma das dificuldades da integração regional. Embora reconheça avanços econômicos em iniciativas como o Mercosul, ela argumenta que a cooperação política latino-americana permanece frágil e excessivamente dependente da afinidade entre governos.Segundo a analista, enquanto países alinhados aos Estados Unidos demonstram elevada coordenação política, governos como os de Brasil, México e Colômbia ainda não alcançaram "a mesma capacidade de articulação e reação".
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Influência dos EUA na América Latina passa por cooperação militar e policial, diz pesquisadora
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Milei, Paz e Noboa: com países em crise, aliados dos EUA receberão ajuda ou serão abandonados?
16:05 28.05.2026 (atualizado: 17:00 28.05.2026) Especiais
Pesquisadoras afirmam que o apoio dos EUA tende a se dar por meio de inteligência, cooperação militar e articulação política, mas apontam que essas iniciativas costumam preservar relações marcadas por subordinação aos interesses de Washington.
No segundo mandato de Donald Trump à frente da Casa Branca,
Washington ampliou seu foco estratégico sobre a América Latina, já tendo
ajudado financeiramente Buenos Aires, invadido Caracas, isolado Havana e anistiado um ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, preso em território norte-americano pelo tráfico de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos.
As ações ocorrem em meio à disputa por influência na região
com Pequim que, na última década, ultrapassou Washington como maior parceiro comercial de grande parte da América Latina, em especial, a América do Sul. Além do comércio, a China também se apresenta como
investidora na infraestrutura da região, sendo a responsável pela construção do
Porto de Chancay, no Peru.
Por outro lado, os Estados Unidos contam com aliados na região, como Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Panamá, Honduras, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, Costa Rica, República Dominicana
e Chile. Entretanto, ao menos
três desses países atravessam crises políticas que desafiam a estabilidade de seus governos.
Na Argentina, o
governo de Javier Milei enfrenta denúncias de corrupção, avanço do desemprego, fechamento de empresas e redução de investimentos em serviços públicos.
No Equador, Daniel Noboa — eleito sob a promessa de restaurar a segurança pública — lida com a expansão da criminalidade para novas regiões e a piora da violência. O cenário tem afetado o cotidiano da população, com sucessivos estados de emergência e toques de recolher.
Na Bolívia, diversos setores organizam protestos
contra o governo de Rodrigo Paz, incluindo movimentos de trabalhadores, indígenas, agricultores e organizações sociais,
com pedidos de renúncia do presidente. As mobilizações foram classificadas pelo Departamento de Estado norte-americano, como "ações destinadas a desestabilizar o governo democraticamente eleito".
À Sputnik Brasil, a professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ) Ana Penido aponta que os episódios observados nesses países não devem ser interpretados como casos isolados.
Segundo ela, há uma tendência regional de contestação social diante de políticas de austeridade e ajustes econômicos mais severos, o que pode ampliar focos de instabilidade para além dos quatro países mencionados.
"Todas as vezes que vêm esses arrochos financeiros mais intensos, eles normalmente são acompanhados por resistência popular."
Pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (Ineu), Penido lembra que processos semelhantes marcaram a primeira onda neoliberal da América Latina e contribuíram para o surgimento da chamada Onda Rosa. Essa resistência tende a assumir características distintas em cada país, conforme suas memórias políticas e estruturas sociais.
Na Argentina, por exemplo, ela espera um protagonismo maior do movimento sindical, dada a tradição e força histórica das organizações operárias. Já na Bolívia, avalia que os protestos tendem a ser impulsionados por organizações indígenas e movimentos sociais ligados às comunidades locais.
Honduras pode ser trampolim de ajuda a governos 'aliados'?
Em Honduras, país atualmente governado por Nasry Asfura, apoiado por Trump em sua eleição,
áudios vazados apontam para uma suposta articulação envolvendo o país, os Estados Unidos, Israel e a Argentina, com o objetivo de desestabilizar governos de esquerda na América Latina.
Nas gravações, o ex-presidente Juan Orlando Hernández — o mesmo perdoado por Trump — afirma que sua absolvição decorreu de lobby israelense e solicita US$ 150 mil para montar uma "célula informativa" nos Estados Unidos, destinada a conduzir "expedientes" contra México e Colômbia.
Em outra conversa, atribuída à vice-presidente hondurenha Antonieta Mejía, é mencionado que o governo de Milei aportaria US$ 350 mil ao projeto, com o objetivo de "extirpar o câncer da esquerda" na América Latina.
Para Lívia Milani, pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), embora episódios de intervenção militar explícita existam, não constituem o padrão predominante de ação dos Estados Unidos na América do Sul.
Em seu lugar, já estão montados mecanismos indiretos de influência: Washington atua principalmente por meio de relações duradouras com elites políticas, econômicas e institucionais da região, além de conexões históricas com forças armadas e órgãos de segurança pública.
"Não é simplesmente uma coisa unidirecional", explica, mas essas ligações também são alimentadas por atores latino-americanos interessados em estreitar vínculos com Washington.
"Pode haver um aumento dessas conexões, algum tipo de ajuda dos Estados Unidos para as forças de segurança", diz Milani à Sputnik Brasil, citando como exemplos a cooperação logística, o repasse de informações e o compartilhamento de inteligência como mecanismos capazes de influenciar a gestão de crises e a repressão de protestos.
"O compartilhamento de inteligência, por exemplo, é algo que faz diferença."
Uma aliança securitária foi, inclusive, o principal tópico do evento Escudo das Américas (Shield of Americas, no original), evento em Washington, D. C., que reuniu líderes de toda a América para discutir o combate a cartéis de drogas. Estavam presentes, inclusive, os presidentes dos países afetados por crises sociais: Javier Milei, Rodrigo Paz e Daniel Noboa.
Para Milani, as revelações dos áudios de Honduras evidenciam o que chama de instrumentalização geopolítica da agenda antidrogas por Washington.
"Essa agenda é colocada totalmente em segundo plano quando existe algum tipo de alinhamento ideológico."
Um efeito que esses apoios podem trazer é a manutenção do status desses países como "Estados periféricos" em relação a Washington. Segundo Ana Penido, a ajuda oferecida pela Casa Branca a aliados opera dentro de uma lógica de dependência econômica e estratégica.
O caso mais conhecido do tipo foi o Plano Colômbia, instituído na virada do milênio. Nele, Washington deu assistência econômica e militar a Bogotá para que combatesse grupos guerrilheiros. Até seu fim, em 2015, cerca de US$ 10 bilhões foram repassados ao governo colombiano.
Esses empréstimos frequentemente
retornam às próprias economias centrais por meio da compra de equipamentos militares e da adoção de doutrinas de defesa formuladas formadas no estrangeiro.
"Além de a gente se endividar, a gente está ajudando a economia deles a funcionar melhor", diz Penido.
A pesquisadora vê o episódio hondurenho como sintoma das dificuldades da integração regional. Embora reconheça avanços econômicos em iniciativas como o Mercosul, ela argumenta que a cooperação política latino-americana permanece frágil e excessivamente dependente da afinidade entre governos.
Segundo a analista, enquanto países alinhados aos Estados Unidos demonstram elevada coordenação política, governos como os de Brasil, México e Colômbia ainda não alcançaram "a mesma capacidade de articulação e reação".
"A tendência nesse momento é a integração estar funcionando, mas à direita."
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