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Análise: Brasil precisa de mais sinergia com vizinhos para alavancar vendas militares

© Sputnik / Sergei Mamontov / Acessar o banco de imagensUm avião de transporte militar Embraer C-390 no Aeroporto de Le Bourget, onde foi realizado o Paris Air Show, em 16 de junho de 2019
Um avião de transporte militar Embraer C-390 no Aeroporto de Le Bourget, onde foi realizado o Paris Air Show, em 16 de junho de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 21.05.2026
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas explicam que vendas de equipamentos militares, como o avião multimissão C-390, podem aproximar Brasil de outros países da América Latina, mas diferenças políticas impedem expansões significativas do setor.
O avião multimissão C-390 Millennium é uma das maiores joias no portfólio da brasileira Embraer, que tenta estabelecer um competidor à altura do C-130 Hércules, da americana Lockheed Martin.
Apesar de a dominância do Hércules no segmento já durar sete décadas, o C-390, que completou 11 anos de seu primeiro voo no último mês de fevereiro, começa a ganhar espaço no mercado internacional. Estima-se que a Embraer já tenha vendido mais de 60 unidades do avião, enquanto assinou compromissos de compra de outros 20.
O último país que fechou negócio com a empresa foram os Emirados Árabes Unidos, que adquiriram dez C-390 e fecharam a opção de compra de outras dez aeronaves do mesmo modelo. Com a conclusão do acordo, a Embraer consolida o caráter global do projeto, com operadores em Ásia, Eurásia, Europa Ocidental e Oriente Médio.
Apesar de ser uma companhia sediada na América Latina, apenas o Brasil possui a aeronave na região. Essa realidade, no entanto, pode mudar em breve, já que Chile e Colômbia estão em negociações com a Embraer para a compra do C-390.
"[Chile e Colômbia] têm necessidade, gostam do avião, têm uma relação muito próxima com a Força Aérea Brasileira (FAB) de colaboração, então é uma oportunidade", afirmou o presidente-executivo da Embraer, Francisco Gomes Neto, conforme publicado pelo portal g1.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas apontam que a abertura do mercado de defesa sul-americano para o C-390 não se traduzirá diretamente em um avanço da indústria de defesa brasileira na região.
Jorge Rodrigues, doutorando em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes), explica que questões políticas e de capacidade operacional podem impedir que outras indústrias de defesa nacionais, como a Avibras, façam sucesso na América do Sul.
"A importância da Embraer no mercado internacional não necessariamente quer dizer a importância do Brasil no mercado internacional de defesa."
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Rodrigues destaca que os caças Gripen, da sueca Saab, foram adquiridos pelo Brasil com a expectativa de que, eventualmente, o país se torne o polo produtor desse avião militar para outros países-clientes na América do Sul. Atualmente, apenas a Colômbia tem o compromisso assinado com a Saab para a compra do Gripen na região, uma vez que o Peru recuou após a então presidente Dina Boluarte anunciar a aquisição de 24 unidades.

"A ideia inicial era que a compra do Gripen pela FAB da sueca Saab se desse de tal forma que, eventualmente, o Brasil se tornasse o polo produtor do Gripen na América do Sul e que o Gripen fosse exportado para outros países sul-americanos a partir do Brasil. E a gente não tem visto isso."

O especialista explica que o Brasil não consegue adquirir por completo a produção das suas empresas de defesa e, por isso, companhias nacionais precisam encontrar compradores no exterior. Rodrigues reforça que há muita concorrência nesse setor, e a Embraer, principal expoente brasileira na área, tem como receita central a área de aviação civil, e não os produtos militares.

Apesar de pequeno, mercado latino-americano não deve ser desprezado

Marcos Barbieri, especialista em indústria aeroespacial e de defesa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destaca que o Hércules é o avião de transporte padrão da maioria das forças aéreas na América Latina atualmente. No entanto, existe a expectativa de que o sucesso mundial do C-390 chegue às Américas, ainda que seja um mercado pequeno.

"O mercado latino-americano não tem um volume tão grande de encomendas, seja dessa aeronave ou quaisquer outros produtos militares, mas ainda assim é um mercado importante."

Barbieri relembra que a Embraer já fez sucesso na América Latina com os aviões EMB 312 e 314, popularmente conhecidos como Tucano e Super Tucano, respectivamente. Mas o sucesso da indústria de defesa nacional na região não se limita somente ao seu braço aéreo.
"O Brasil exportou muitos veículos blindados leves, particularmente o Cascavel e o Urutu, que foram comprados por um grande número de países da América Latina."
Para Barbieri, é necessário maior sinergia maior e estabilidade política entre o governo do Brasil e seus eventuais compradores para que mais negócios sejam concluídos, uma vez que ativos de defesa são produtos caros e com longa vida útil.
"Produtos estratégicos de defesa têm uma importância muito grande [para os países] e são produtos que são usados por décadas. Então, há uma proximidade, eu diria, geopolítica, pelo menos, entre os países compradores e vendedores desses equipamentos."
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Indústria de defesa nacional ou continental?

Rodrigues estabelece a confiança como o primeiro ativo para o avanço do setor de defesa brasileiro na América do Sul. O especialista acredita que o Brasil deve expor aos seus vizinhos quais são suas capacidades militares, além de aumentar o número de exercícios com tropas sul-americanas.
Outra forma de atrair novos clientes é elaborar projetos de defesa que atendam à necessidade de países, como feito no Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para o desenvolvimento do Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT), que acabou não sendo fabricado com a debandada de países da organização.
"Em 2014, foram definidos requisitos operacionais nas atas de reunião do Conselho de Defesa. Você tinha quais eram os requisitos para cada país e quais eram as necessidades que cada país buscava atender de sua própria defesa com aquele projeto."
A possibilidade de uma Base Industrial de Defesa (BID) sul-americana também foi citada por Rodrigues, mas ele acredita que a polarização política afeta o continente, incluindo pressões de atores do Norte Global, o que impediria que um projeto robusto pudesse se tornar bem-sucedido.
"Hoje eu não tenho como falar que Javier Milei sentaria em uma mesa com Gustavo Petro para discutir a produção de um avião de treinamento básico conjunto para a Força Aérea colombiana e para a Força Aérea argentina, porque existe uma inferência interna, uma ingerência externa, que no caso são os Estados Unidos no governo da Argentina, que retira o país da mesa de negociação sul-americana."
Na visão de Rodrigues, um projeto sul-americano conjunto não afeta a soberania nacional e usa como exemplo a União Europeia, que tem aumentado investimentos de defesa em meio a projetos comuns aos países do bloco.
"São aspectos que aparecem no debate público, muitas vezes, como ideologizados, o que é um absurdo, mas que são aspectos técnicos. A União Europeia fez isso, e você não vai me dizer que a Angela Merkel, fazendo isso, abriu mão da soberania alemã, nem que ela era socialista. Não é o caso. São debates sobre qual é a força armada que a gente quer no Brasil, qual é o modelo de força que a gente precisa para a região e, principalmente, contra quem a gente está se defendendo. Sem essas respostas, a gente não avança muito."
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