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Quebra da hegemonia dos EUA arrasta aliados na esteira da turbulência, apontam especialistas

© AP Photo / Jacquelyn MartinO presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante um encontro na Casa Branca, em 27 de maio de 2026
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante um encontro na Casa Branca, em 27 de maio de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 03.06.2026
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Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmam que antigos parceiros de Washington, como a Europa Ocidental, estão escanteados nos planos do governo Trump, enquanto novos amigos, como Buenos Aires, são subjulgados.
Os Estados Unidos tentaram, ao longo de múltiplos governos democratas e republicanos, imprimir uma relação de hegemonia global após a Segunda Guerra Mundial. No Ocidente, Washington parecia reinar sem grandes dificuldades através de mecanismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), onde recebia forte apoio de países da Europa e pouquíssima resistência, especialmente nas Américas.
Entretanto, após décadas de controle baseados nos campos econômico, por meio do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), e militar, com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Casa Branca tem esbarrado no teto de suas aspirações de gerenciamento mundial.
Capitaneada por países como China e Rússia e grupos como o BRICS, a ideia cada vez mais forte de um mundo multipolar enfraquece a hegemonia norte-americana e, de sobra, arrasta para uma crise política seus aliados mais próximos.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que parceiros de longa data da Casa Branca, como os países da Europa Ocidental, não são mais prioridade de Washington. Já os novos aliados, como a Argentina, precisam lidar com o subjulgamento da atual gestão estadunidense.
William Gonçalves, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), explica que o governo Trump promoveu uma grande mudança nas relações externas da Casa Branca, o que causou "ressentimento" em aliados de longa data.
Para Gonçalves, um exemplo é o encontro de Donald Trump com o presidente da China, Xi Jinping, que mostra uma nova configuração da política internacional, na qual a Europa passou a ter papel secundário na estratégia de Washington.

"Aquela [ordem] era representada pelo Joe Biden, do consenso bipartidário, segundo o qual a OTAN na Europa tinha uma importância muito grande para Trump, não tem. Ele não desligou os EUA formalmente da OTAN, mas a importância que ele atribui à OTAN é muito pequena. A aliança atlântica deixou de ter o significado que tinha. E isso cria grandes mudanças, porque a Europa se sentia bem sendo liderada pelos EUA."

Na visão de Gonçalves, o fim do governo Biden marcou a transição de um fim de capítulo para a Europa. Agora, os olhos de Washington se viram para Pequim.
"A ideia de Trump é rejeitar a ideia de multipolarização e estabelecer bases de uma bipolarização com a China. Uma bipolarização diferente daquela da Guerra Fria, uma vez que não estamos diante de mudança de sistema, de confronto de sistemas. Todos são capitalistas, todos estão situados no mesmo mercado internacional. Agora, quando eu digo que é necessário pensar a ideia de aliado se tratando de Trump, é que ele não pensa em alianças, ele pensa em imposição."
Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), vê os Estados Unidos como líder da ordem internacional liberal, em uma posição de hegemonia predatória que não permite o crescimento de aliados.

"Essa hegemonia predatória significa que os EUA passaram a colocar, em primeiro lugar, os seus interesses mais imediatos e a deixar a condução do conjunto das relações entre esses países [parceiros] em segundo plano."

Para Menezes, o atual governo em Washington tenta tutelar a Europa, o que, de certa forma, revolta as autoridades do continente, que por muito tempo aproveitaram a vantagem no status quo global vigente.

"Os europeus, que tanto se beneficiaram dessa ordem internacional liderada pelos EUA, nesse momento vivem esse estremecimento da relação. Nós também sabemos que essa ordem está em declínio, ainda que em câmera lenta, de certa forma, mas não deixa de ser também um declínio que, sobretudo, se acelerou a partir da crise de 2008."

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América grande novamente?

Trump se lançou à candidatura presidencial com o slogan "Faça a América Grande Novamente", que ficou conhecido no Brasil por sua sigla em inglês: MAGA.
Para Gonçalves, se os Estados Unidos podem ser grandes novamente, na visão de Trump, é porque em algum momento deixaram de ser. Essa busca pela hegemonia, contudo, vem com a diferença nas relações institucionais entre aliados e até governos antagônicos ao projeto norte-americano.
"O relacionamento que Trump estabelece com China e Rússia é baseado no respeito mútuo. Agora, em relação aos países mais fracos, ele usa da brutalidade e não há como se livrar disso. O caso da Venezuela é exemplar. Todos os recursos militares de inteligência, o poder naval, tudo isso foi usado de uma vez e não houve como os venezuelanos resistirem."
Se por um lado os Estados Unidos querem mostrar ao mundo uma imposição política, há também aqueles aliados que conseguem dobrar essas diretrizes norte-americanas, como Israel. Segundo Gonçalves, Tel Aviv não é um parceiro qualquer, tornando-se "uma questão de política interna dos Estados Unidos" pela capacidade da comunidade judaica estadunidense em financiar as custosas campanhas presidenciais.

"O peso que os judeus têm na sociedade norte-americana, seja do ponto de vista social, político ou econômico, influencia muito na política doméstica dos EUA. Nenhum político que queira fazer carreira nos EUA, que tenha pretensões políticas mais amplas, se coloca contra o Estado de Israel."

Menezes explica que a queda norte-americana começa nos anos 2000 com a guerra do Iraque, no governo de George W. Bush, e, posteriormente, com a crise financeira de 2008. Após esses eventos, grupos multipolares fora da governança ocidental tradicional, como o BRICS, surgiram redesenhando a ordem internacional.
Na visão do professor da UnB, os Estados Unidos relutam em admitir uma crise de sua hegemonia, impedindo qualquer adaptação ao mundo contemporâneo. Segundo Menezes, a queda norte-americana acontece no dólar, na liderança tecnológica e até nos valores sociais impostos como certos.

"Essa realidade global vai se impondo aos EUA, ao governo Trump, de tal modo, é claro, que também às elites políticas nos EUA e à elite intelectual. […] O consenso mínimo que eles têm, me parece, é de que Donald Trump acelera esse processo de perda de prestígio dos Estados Unidos."

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