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Corte na Defesa faz Brasil soar contraditório no discurso de combate às facções, diz analista

© flickr.com / Edvaldo da Silva / CCOMSExFormatura alusiva ao Dia da Bandeira, em Brasília (DF). Brasil, 19 de novembro de 2025
Formatura alusiva ao Dia da Bandeira, em Brasília (DF). Brasil, 19 de novembro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 09.06.2026
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À Sputnik Brasil, analistas apontam que o bloqueio no orçamento da pasta, logo no momento que o Brasil rechaça a decisão dos EUA de classificar facções como terroristas, expõe uma inconsistência e sinaliza que o governo não dimensiona a Defesa como algo importante, principalmente em ano eleitoral.
Um contingenciamento de gastos, anunciado em maio pelo Planalto, está sendo duramente criticado. Ao todo, o bloqueio atinge R$ 22 bilhões em gastos discricionários, isto é, despesas não obrigatórias que o governo pode alterar ou suspender.
O Ministério da Defesa foi o mais afetado, com R$ 4,3 bilhões paralisados, seguido por Cidades (R$ 3,3 bilhões) e Educação (R$ 1,6 bilhão). Outros R$ 4,9 bilhões em emendas parlamentares também foram bloqueados.
À CNN Brasil, fontes do Exército afirmaram que operações de vigilância da fronteira tiveram que ser paralisadas. O ministro da Defesa, José Mucio, foi além e, em entrevista ao jornal Valor Econômico, disse que o corte orçamentário "não rima" com o "tumulto" gerado pelos Estados Unidos em relação ao combate ao crime organizado feito pelo Brasil. "Não há como enfrentar essa situação sem investimento."
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Tássio Franchi, pesquisador do Instituto Meira Mattos (IMM), afirma à Sputnik Brasil que contingenciamentos do orçamento são normais e ocorrem como parte do processo de governança do país, e minimiza que possam desguarnecer as divisas do país.
Ele explica que as fronteiras não são uma responsabilidade exclusiva das Forças Armadas, mas de diferentes entes federais e estaduais, cada um com sua área de atuação. "Os cortes poderiam afetar a quantidade de horas de voo ou navegação disponíveis para as operações integradas, como a operação Ágata. Mas, nesses casos, análises de inteligência e definição de prioridades pelo governo seriam um caminho para tentar otimizar as ações com os recursos disponíveis."
Para Franchi, hoje a principal ameaça nessas regiões não é uma invasão convencional, mas sim a tomada de territórios por redes criminosas.

"Nesse sentido, a questão não é apenas 'defender o território', mas aumentar a capacidade do Estado de exercer autoridade contínua sobre o território. Essa é uma agenda de segurança, desenvolvimento sustentável, direitos humanos e governança ao mesmo tempo."

Apesar do que foi sinalizado até agora por militares na mídia, os cortes afetam a defesa brasileira como um todo, e não só o monitoramento das divisas, avalia o professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Sandro Teixeira.
Por um lado, diz à Sputnik Brasil, acordos de cooperação com outros países ajudam. Por outro, não são suficientes sem os meios para realizá-los, isto é, tecnologia e pessoal capacitado.

"Sem acordos, tecnologia e pessoal capacitado, ficamos à mercê de um flanco aberto perigoso, no qual grandes potências podem aproveitar e fazer seus próprios acordos com países fronteiriços com o Brasil, o que nos deixa vulneráveis."

Dessa forma, conclui, o contingenciamento sinaliza que, a despeito do discurso público, o governo não dimensiona a Defesa como algo importante.
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Para o professor da UniRitter e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE) João Gabriel Burmann, é preciso avaliar o quanto o corte vai, de fato, prejudicar as operações na fronteira.
"A gente sempre fica um pouco com dificuldade de aferir porque se trata de informações mais internas, e não existe tanta transparência. A gente só tem uma transparência posterior com relação ao gasto, com relação ao orçamento do Exército."

"Não estou dizendo que estão mentindo, mas o quanto circular esse tipo de notícia na imprensa também não pode ser uma moeda de barganha para tentar evitar esses contingenciamentos na Defesa?"

"O cobertor é curto" e as pressões dentro do governo são fortes para que os cortes ocorram primeiro na Defesa, uma vez que a pasta não dialoga com a questão eleitoral nem está relacionada a voto, como, por exemplo, Educação e Saúde, crava Burmann.
Ele detalha à Sputnik Brasil que operações em fronteiras de fato têm um custo elevado, especialmente por conta da logística e da necessidade de manter tropas e guarnições no local.
"O Brasil tem os pelotões especiais de fronteira, que, especialmente na região Norte, ficam bastante isolados — só tem acesso por aeronave, por helicópteros, por aviões, e às vezes ficam até a uma, duas horas das guarnições principais. Então realmente é um tipo de operação que é cara."
No entanto, ele afirma que o timing desse bloqueio no orçamento ameaça criar um "ruído" nas críticas do governo quanto às medidas dos EUA, apontadas como intervencionistas na soberania brasileira, e expõe uma fraqueza do Brasil em um momento que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca demonstrar a Washington que o Brasil está fazendo a sua parte para combater as facções do narcotráfico.

"Se o corte está sendo ali [na Defesa], talvez [o tema] não seja tão prioritário, o que é bem ruim, porque a gente acabou colocando a questão da defesa, da soberania, dentro da disputa eleitoreira partidária. Isso realmente é ruim e pode causar ruído."

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