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'Sexta-feira é dia de protesto': por que bolivianos seguem nas ruas há mais de 40 dias?

© AP Photo / Juan KaritaManifestante contra policiais na Bolívia
Manifestante contra policiais na Bolívia - Sputnik Brasil, 1920, 09.06.2026
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A Bolívia vive há mais de 40 dias uma crise política e social sem precedentes. De ruas bloqueadas por manifestantes que impactam a logística de distribuição de alimentos e combustível no país a debandada de ministros do recém-eleito presidente Rodrigo Paz, civis colocam em xeque um governo de apenas oito meses.
No mês passado, a inflação boliviana chegou na casa dos 14%, enquanto o Congresso autorizou o uso das Forças Armadas contra a própria população que protesta nas ruas. Paz, por sua vez, atribuiu as manifestações a "narcoterroristas" e promulgou uma lei que estabelece regras para determinar estado de exceção no país.
As problemáticas são inúmeras em um país no qual a instabilidade política tem sido uma constante nos últimos anos.
"A Bolívia é o país da América do Sul que teve o maior número de presidentes ao longo da sua história. Isso é uma demonstração clara do quanto instabilidades e protestos têm sido constantes", explica Ricardo Luigi, geógrafo, internacionalista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.
Aliás, protestar é algo tão genuíno aos bolivianos, segundo diz o analista, que se reflete até em uma espécie de dito popular, que diz que toda sexta-feira, em frente ao Palácio Presidencial, é dia de protesto.
Apesar de um governo conturbado e de falsas promessas, segundo o analista, atribuir toda a culpa do que acontece ao atual presidente seria equivocado. Há um contexto histórico que perpassa em várias camadas o que acontece na Bolívia, ainda que Paz seja um representante da elite, ao contrário das figuras que o antecederam nos últimos anos.
A Bolívia é um país pouco industrializado, que importa produtos alimentícios básicos e depende fortemente da exportação de gás natural e, cada vez mais, do lítio. Segundo Luigi, durante os quase 20 anos de governos de esquerda, principalmente com Evo Morales, o país cresceu em média 4% a 5% ao ano, e as transferências sociais melhoraram a qualidade de vida de boa parte da população. Mas esse modelo começou a se esgotar.

"A população ficou mal acostumada com esse crescimento, ou bem acostumada, acreditando que os benefícios que o Estado concedia durante esse período deveriam ser progressivos. Aí há uma grande frustração da população com a falta de continuidade desse desenvolvimento econômico. Não querendo simplificar tudo apenas na questão econômica, mas isso levou até a um esgotamento do próprio governo do MAS [Movimento ao Socialismo], e isso traz prejuízos até hoje com o governo do Rodrigo Paz", explica.

Junto a isso, os ajustes, como o fim dos subsídios ao petróleo e ao gás natural ― contribuindo para um aumento expressivo dos combustíveis para a população em geral, o que reflete também no preço dos alimentos ―, foram preponderantes para a explosão da crise em território boliviano.
"Todos os presidentes que tentaram, na Bolívia, fazer esses ajustes estruturais neoliberais passaram por problemas semelhantes. A gente teve a 'Guerra da Água' no começo dos anos 2000, a gente teve a 'Guerra do Gás' em 2003, que derrubou dois presidentes na Bolívia. Sempre que há medidas de diminuição do Estado, de tentativa de criação de um Estado mínimo na Bolívia, isso pesa muito forte sobre a população em geral", destaca Luigi.
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Mario Tito de Almeida, professor de relações internacionais da Universidade Federal do Pará (UFPA), acrescenta que um problema mais profundo é a ausência de diálogo. "O grande problema hoje na Bolívia é a falta de capacidade de diálogo entre vários setores produtivos e os trabalhadores. Está faltando interlocução", avalia. Sem essa mediação, qualquer ajuste econômico vira combustível para o conflito.

Evo Morales é o caminho para o diálogo?

Condenado pela Justiça boliviana e refugiado na região do Chapare, o ex-presidente Evo Morales reapareceu publicamente se oferecendo como mediador para a paz.
Para Luigi, a situação de Evo representa "as contradições do Estado boliviano": ao mesmo tempo que o Estado simboliza sua força no cotidiano da população, dá exemplo de sua debilidade institucional.
Enquanto isso, Evo "se coloca como um grande líder político ainda e, embora se ofereça para trazer a pacificação da Bolívia no momento, ele defende também a necessidade de convocação de novas eleições porque entende que o governo Rodrigo Paz não está conseguindo representar os interesses de grande parte da população boliviana".
Já Almeida avalia que o ex-presidente aparece diante de uma "janela de oportunidade". "Entendo muito mais o Evo Morales se colocando aí como quem diz assim: 'Olha, querendo ter algum salvador da pátria, aqui estou eu'."
Os dois analistas convergem para um diagnóstico preocupante: a Bolívia sofre de uma escassez de novas lideranças. De um lado, o grupo dos ex-presidentes Luis Arce e Evo Morales; do outro, uma direita vinculada às elites tradicionais e aos interesses dos Estados Unidos. "A ausência de novas lideranças traz consigo esse problema de falta de horizonte para o país", acrescenta o professor da UFPA.

Estados Unidos de olho, Brasil na retaguarda

A crise boliviana não é apenas interna. Há um contexto geopolítico em que a Bolívia é peça estratégica na América Latina e, até mesmo, no globo. O país detém umas das maiores reservas de lítio do planeta. Além disso, possui reservas de gás relevantes para seus vizinhos. Essa combinação atrai interesses de grandes potências.

"Há uma óbvia escalada de interesse dos Estados Unidos sobre a Bolívia, configurada no apoio ao governo de Rodrigo Paz", afirma Almeida.

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Enquanto isso, China e Rússia mantêm presença discreta. Empresas chinesas e russas já firmaram parcerias para a exploração do lítio, mas sem interferência direta na política interna, ao contrário do que os analistas enxergam na postura norte-americana.
Já o Brasil, parceiro estratégico importante de La Paz, já se mostrou de prontidão para ajudar o vizinho. O exemplo latente de demonstração foi o atendimento imediato de apoio logístico requerido por Paz ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cedeu um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para ajudar na distribuição de alimentos durante os bloqueios de estradas.
Por outro lado, segundo o professor da UFPA, há o risco de aumento do fluxo migratório em caso de aprofundamento da crise, sobretudo pela vulnerabilidade de uma fronteira ainda pouco monitorada.
"São fronteiras com certas porosidades, o que preocupa em termos de soberania", diz. A situação deve acender o alerta do governo brasileiro, ressaltando que é "interessante para o Brasil manter a Bolívia tranquila".
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