Sucesso no Brasil, por que a urna eletrônica não é adotada por mais países em eleições?
17:27 10.06.2026 (atualizado: 17:47 10.06.2026)

© Foto / Elza Fiúza / ABr
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que poucos países reúnem os dois elementos necessários para o sucesso do modelo de votação eletrônica, que são a capacidade de investimento e um sistema de administração das eleições centralizado.
As eleições de primeiro turno na Colômbia foram encerradas de maneira conturbada, com resistência inicial do segundo colocado no pleito, o esquerdista Iván Cepeda, em aceitar o resultado, apontando irregularidades na contagem de votos que deu o primeiro lugar ao direitista Abelardo de la Espriella.
O imbróglio costuma se repetir em vários países, em alguns casos fazendo com que o resultado da votação, que no voto impresso já costuma levar dias, demore ainda mais para ser divulgado. Esse cenário não costuma ocorrer no Brasil, que há 30 anos implementou um sistema eletrônico de votação de eficiência e confiabilidade reconhecidas, que permite que o resultado seja conhecido horas após o pleito, embora haja uma pequena parcela da população que não confia no modelo.
À Sputnik Brasil, especialistas analisam por que o sistema de votação brasileiro não é adotado por outros países do mundo.
Rosemary Segurado, cientista política e diretora do Coletivo Digital, destaca que pelo menos 34 países adotam o sistema de urna eletrônica. Em outros, como os EUA, há modelos que permitem, por exemplo, enviar o voto pelo correio em alguns estados e o uso de urnas eletrônicas em votações regionais. Ela afirma que o Brasil, por conta da extensão, levaria em torno de uma semana para contabilizar os resultados se retomasse o voto impresso; além da demora, a possibilidade de fraude seria muito maior.
"Falo como quem já acompanhou processos de apuração em momentos que o voto era impresso, e a gente via muita fraude. Por quê? Porque ele tem mão humana. Eu me lembro que os partidos organizavam os sistemas de acompanhamento das eleições, em centros de apuração, de noite, porque muitas vezes podia ter fraude, como teve muitas vezes. É possível procurar, inclusive nos jornais, essa informação, essas denúncias."
Ela acrescenta que o modelo adotado hoje pelo Brasil demonstra solidez democrática e diz que as críticas de parte de políticos brasileiros às urnas eletrônicas começaram apenas em 2018, como uma tentativa de deslegitimar o processo eleitoral e criar confusão visando interesses políticos e ideológicos, como ocorreu em janeiro de 2023, com a invasão de prédios dos três Poderes por eleitores que não aceitavam como real a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022.
"Acho que essa desconfiança tem a ver com isso, mas essa desconfiança é recente. E nós começamos a ter o voto eletrônico em 1996, ou seja, sempre teve [dúvidas] 'Ah, será? É seguro, não é seguro?', mas eram questões muito pontuais, elas não chegavam a ter a dimensão que nós vimos em 2022 e com o golpe em janeiro de 2023."
Ela avalia que criações brasileiras, como as urnas eletrônicas e o Pix, fazem do Brasil um exemplo de inovação a ser seguido por outros países.
"É curioso que, embora, obviamente, nós tenhamos países que têm um desenvolvimento tecnológico muito mais consolidado que o nosso, se nós formos pegar os EUA, por exemplo, ainda assim, o país [Brasil], do ponto de vista dessa inovação, ele é o que a gente poderia chamar de uma espécie de 'case' de sucesso."
Rodrigo Stumpf Gonzalez, cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que a dificuldade de exportar o sistema brasileiro de votação se deve a diversos fatores. Um deles é o fato de países pequenos tenderem a usar sistemas de papel, que não têm grande dificuldade de apuração porque o número de votos é menor. Ele aponta ainda que há um certo conservadorismo no sentido de que, como esses sistemas não são contestados, não é visto um motivo para substituí-los.
"Por outro lado, muitos dos países que têm problemas efetivamente nos sistemas de votação também têm problemas em outras partes do seu gerenciamento eleitoral. O caso do Peru, por exemplo. O problema do Peru não se restringe a um problema de sistema de votação, mas o sistema de gerenciamento das eleições, no qual, sem uma autoridade com recursos e condições de implementar, a urna teria pouco resultado."
Ele explica que a difusão do sistema eletrônico de votação funcionou bem no Brasil tanto pelo fato de o país ter capacidade de investimento, uma vez que é um sistema caro e que exige uma logística que também precisa ser financiada, como tem um sistema de administração das eleições centralizado com tribunais, com capacidade de investimento e tomada de decisões.
"São poucos os países que têm ambos os elementos, ou seja, tanto um sistema de gerenciamento eleitoral centralizado, não é o caso, por exemplo, dos EUA, onde há a descentralização, não é o caso do Peru, por exemplo, onde o sistema tem pouca capacidade de investimento."
Segundo Gonzalez, é difícil implementar um sistema como o brasileiro, que precisa ser unificado, sem esses dois elementos.
"Não é possível a sua disseminação se houver disputa, por exemplo, entre modelos de máquina, entre modelos de gerenciamento. Então, a dificuldade de encontrar, em outras partes do mundo, os diversos elementos que tiveram a base do sucesso do sistema brasileiro, faz com que ele não seja tão fácil de ser copiado", explica o especialista.
Ele diz que, até 2018, o sistema brasileiro de votação foi um importante elemento de credibilidade no processo de votação, evitando, por exemplo, um longo tempo entre o fim da votação e a divulgação dos resultados, demora que muitas vezes criava dúvidas e disputas.
"Infelizmente, eleições não são o único elemento de estabilidade da democracia. Nesse sentido, o Brasil é um exemplo no processo de votação, mas em termos de solidez democrática não é um exemplo, uma vez que tem elites que ainda têm comportamento golpista. Então, ele evoluiu no voto, mas não evoluiu na base social de suporte à eleição e aos seus resultados, que constitui ainda um problema nos dias de hoje."
Na visão de Gonzalez, o Brasil é um país que tem uma capacidade razoável de inovação tecnológica, não exatamente de ponta. Segundo ele, criações como as urnas eletrônicas e o Pix são bons exemplos de aplicação de tecnologias existentes para uma solução de problemas públicos que funciona bem em países em desenvolvimento, de renda média e com capacidade administrativa razoável, nos moldes do Brasil.
"São soluções que ajudam as suas populações, diminuem os custos de transação e facilitam o desenvolvimento ou mesmo a solidez dos processos eleitorais. Não são exemplos provavelmente que servem a países de alta renda e grande desenvolvimento, onde o mercado compete com o Estado na solução desses problemas, em que, digamos, esse tipo de provimento tende a ser feito pelo mercado e não pelo Estado", afirma o especialista.
A cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que o Brasil possui suas "jabuticabas" e é pioneiro em alguns aspectos, dentre eles a questão do sufrágio.
"Fomos um dos primeiros países do mundo a adotar o sufrágio universal, ainda no início da década de 1930. Outra jabuticaba é o pioneirismo da adoção de um sistema eletrônico de votação. A questão é que temos um complexo de vira-lata e mesmo sendo esse sistema tecnicamente robusto, rápido e confiável, ele muitas vezes foi objeto de ceticismo", pondera Goulart.
Ela considera que essa desconfiança ganhou outra magnitude com a ascensão da extrema-direita e suspeitas produzidas artificialmente por setores da política, principalmente dessa vertente ideológica, têm impacto negativo sobre a difusão internacional desse modelo.
"O problema não é a urna em si, mas a tentativa de transformar a confiança eleitoral em objeto de disputa política permanente. O negacionismo eleitoral opera justamente assim: sem comprovar fraude, produz suspeita, desgasta instituições e converte mecanismos técnicos confiáveis em alvos de mobilização política."
Ainda assim, avalia a especialista, o Brasil pode e deve apresentar seu modelo de votação como demonstração de solidez democrática. Ela afirma que a urna eletrônica, assim como o Pix, sinaliza a importante capacidade brasileira de inovação pública em larga escala: soluções tecnológicas nacionais, de grande alcance social, capazes de combinar eficiência, inclusão e segurança institucional.
No entanto, ela acrescenta que o ponto central é que inovação democrática não se sustenta apenas por tecnologia; ela depende também de instituições fortes, transparência, auditoria pública e enfrentamento político ao negacionismo.
"De todo modo, sua exportação não depende apenas da qualidade da tecnologia. Eleições são instituições centrais da soberania nacional, e cada país tende a preservar seus próprios procedimentos, marcos legais, tradições administrativas e formas de auditoria. Por isso, mesmo países ricos ainda utilizam cédulas de papel: elas são vistas como simples, materialmente verificáveis e mais facilmente compreensíveis pelo eleitorado, ainda que também tenham custos, lentidão e riscos próprios."




