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Nem aviões nem sanções econômicas; países asiáticos vêm rompendo barreiras com soft power

© AP Photo / Chris PizzelloPedestre passando por um mural inspirado na série de anime "Dragon Ball", em Los Angeles. EUA, 9 de janeiro de 2019
Pedestre passando por um mural inspirado na série de anime Dragon Ball, em Los Angeles. EUA, 9 de janeiro de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 11.06.2026
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Elementos culturais e tecnologia digital têm o poder de romper barreiras e alcançar impacto geopolítico semelhante ao do comércio e militar? Como países asiáticos têm ampliado a força do seu soft power ao redor do mundo?
Segundo o internacionalista Joseph Nye, citado pelo professor de história da Ásia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Emiliano Unzer, em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, as nações projetam seu soft power por meio de elementos culturais e linguísticos, por exemplo, atingindo campos diferentes daqueles relacionados ao hard power.

"Você consegue transpor barreiras, não necessariamente por aviões nem por sanções econômicas. E nisso você consegue ter uma espécie de competição pelo campo afetivo, campo cognitivo, que as pessoas começam a receber e começam a processar", explica o analista sobre o poder da cultura e do entretenimento.

Atualmente, com as tecnologias digitais, países — como o caso dos do continente asiático — podem romper barreiras coloniais de representação que foram impostas pelo Ocidente e contar sua própria história, a partir de seus anseios e afetos.
No atual contexto, segundo o professor, o horizonte de percepção de um jovem é "muito mais amplificado do que daquele que cresceu nos anos 50, 60 do século passado. Ele vai ter um acesso à informação muito maior, acesso a novos seriados, outras roupas, outros comportamentos, valores, sabores, sons", exemplifica.
A nível de experiência própria, o analista recorda como o entretenimento asiático se fez presente nos conteúdos que ele consome, ainda no contato com a TV, com os animes japoneses na década de 1980.
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Expansão do soft power asiático foi programada?

A ampliação de opções de entretenimento, com a chegada de novas produções, trouxe novas perspectivas em relação às produções ocidentais em termos de conteúdo, avalia Mayara Araújo, professora da Universidade de Estudos Internacional de Zhejiang.
"A gente tem procurado um consumo mais diverso e tem se adaptado a ver novos corpos, principalmente em termos de audiovisualidade", destaca.
De acordo com a professora, os nipônicos foram os pioneiros na expansão desse soft power, mas de uma maneira não muito ordenada. "Foi um movimento de empresas privadas que exportaram o seu conteúdo", e despertou, do ponto de vista japonês, que o produto poderia trazer rendimentos.
Algo diferente aconteceu com a Coreia do Sul, que nos dias atuais goza de prestígio e influência a partir da sua indústria cinematográfica, da música, e expande o soft power para outros setores, como moda e beleza.
"A Coreia do Sul tem um planejamento estatal, desde a década de 80, para exportar a cultura coreana ao redor do mundo", conta Araújo.
Agora, Seul colhe os frutos do investimento que tem importância significativa no produto interno bruto (PIB) local. "Para cada US$ 1 que o governo sul-coreano fomenta nas produções culturais, tem retorno de US$ 8", afirma Unzer.
Outros mercados que também vêm se destacando mundo afora são o chinês e o indiano.
No caso de Nova Deli, a produção de Bollywood é expressiva no quesito do conteúdo audiovisual. Do outro lado, Pequim, de uma forma estruturada, conforme destacam os analistas, também vem expandindo ao mundo suas produções culturais — desde o cinema de artes marciais de Hong Kong dos anos 1970 até a animação "Ne Zha 2", lançada no ano passado, que quebrou recordes mundiais de bilheteria.
"A grande questão para a China, hoje, não seria simplesmente usar a cultura a favor da economia, embora seja óbvio que possui um diálogo muito forte, mas principalmente a ideia de competir com narrativas sobre a China, de apresentar a China como um país que talvez não seja nada do que o Ocidente diz que é", avalia Araújo.
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Soft power quebra barreiras

Do ponto de vista da própria circulação dos conteúdos, já existe um tipo de parceria entre países do Ocidente, por exemplo, e nações asiáticas. "A Netflix passa a se tornar uma mediadora da onda coreana no Brasil", cita a professora da universidade de Zhejiang.
A plataformização dos conteúdos e a lógica algorítmica, na visão da analista, talvez rompa um pouco o sentido de condições iguais entre as partes.
"A gente retoma um pouco a ideia do imperialismo. E o imperialismo estaria aqui sendo traduzido, em um primeiro momento, pela infraestrutura tecnológica e, via de regra, as plataformas são estadunidenses", analisa.
Segundo a especialista, é preciso atentar para o modo de atuação de gigantes do audiovisual, que vão desde a apropriação de mão de obra barata até a interferência ao se apropriar das perspectivas dos produtores de conteúdo. Ela acrescenta que uma regulamentação dessas plataformas, como tem sido discutida no Brasil, é importante para que as gigantes tenham contrapartidas ao adentrar outros mercados ao redor do globo.
Já do ponto de vista das relações diplomáticas entre nações, uma vez influenciadas pelo soft power, Unzer avalia que permitem maior abertura e trazem mais elementos de confiabilidade.

"Quando você começa a ter proximidade maior com a familiaridade, com a história, com a cultura, com a língua, você já quebra uma das barreiras mais difíceis na diplomacia, que é o distanciamento, o estranhamento", finaliza.

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