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'Capacidade de remodelar o contexto internacional': como os EUA tentam frear a China
'Capacidade de remodelar o contexto internacional': como os EUA tentam frear a China
Sputnik Brasil
Especialistas ouvidos pelo Mundioka analisam a disputa sino-americana no comércio, na tecnologia e na geopolítica e explicam por que Taiwan e o Indo-Pacífico... 18.06.2026, Sputnik Brasil
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Enquanto a China busca consolidar sua influência no comércio global e reforçar sua posição como principal potência emergente do século XXI, os Estados Unidos ampliam esforços para conter o avanço de Pequim em diferentes frentes. A rivalidade entre as duas maiores economias do mundo se manifesta em disputas comerciais, tecnológicas, militares e geopolíticas, alimentando debates sobre uma possível estratégia ocidental de limitar a ascensão asiática.A expansão militar no Indo-Pacífico, as tensões em torno de Taiwan, as disputas no mar do Sul da China e o fortalecimento de alianças estratégicas ao redor do território chinês são alguns dos elementos apontados por analistas nesse contexto. Mas, diante do crescimento contínuo da influência chinesa, o que efetivamente deu resultado até agora nessa disputa por poder global?Ouvido pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Pedro Martins, doutorando em relações internacionais e pesquisador do Laboratório de Estudos de Ásia (LabÁsia) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que a ascensão da China, embora represente um desafio à predominância dos Estados Unidos na hierarquia de poder global, não configura uma ameaça à ordem internacional liberal estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.Segundo ele, diferentemente da Guerra Fria, quando EUA e União Soviética disputavam influência com base em projetos ideológicos antagônicos, o embate atual está mais relacionado à liderança de uma ordem já consolidada do que à sua substituição.Martins destaca que há um intenso debate sobre o papel dos valores na atuação chinesa, mas argumenta que Pequim não busca necessariamente romper com os princípios centrais da ordem internacional vigente.Pelo contrário, observa que a China tem se apresentado como defensora do livre comércio e do multilateralismo, enquanto setores da política norte-americana, especialmente sob a liderança de Donald Trump, adotam posições mais críticas a esses pilares."É muito mais uma questão de hierarquia de poder, e não de ameaça à ordem", opina.O pesquisador avalia que os Estados Unidos, por meio de sua estratégia de contenção da China, buscam ampliar tensões e disputas que já existem na Ásia, aproveitando-se de divergências históricas, econômicas ou ideológicas entre Pequim e alguns países da região. Segundo Martins, grandes potências raramente criam conflitos do zero. Em vez disso, exploram fissuras pré-existentes para projetar poder e reforçar sua influência geopolítica.Nesse contexto, ele argumenta que Washington procura se manter relevante no cenário asiático ao fortalecer alianças e parcerias com países que enxergam a ascensão chinesa com preocupação. "Os Estados Unidos estão tentando, vendo uma ameaça, e estão se aproveitando de uma disputa que já existia e escalam essa disputa para se manter relevantes naquele cenário geopolítico", afirma.Para o pesquisador, a estratégia norte-americana combina tanto a percepção de risco diante do crescimento chinês quanto o aproveitamento de rivalidades regionais já estabelecidas, como com Taiwan, Japão ou Índia.Martins também observa que as disputas no mar do Sul da China envolvem múltiplos atores e interesses, indo muito além da rivalidade entre Pequim e seus vizinhos. Como conta, a região é estratégica por concentrar importantes reservas de petróleo e recursos pesqueiros, além de abrigar uma das principais rotas do comércio marítimo global, por onde passam entre 20% e 30% das mercadorias comercializadas no mundo.O pesquisador ressalta que seis países reivindicam ilhas, recifes e outras formações marítimas na área — China, Taiwan, Vietnã, Filipinas, Malásia e Brunei —, embora a atenção internacional costume se concentrar na China devido ao tamanho de suas reivindicações territoriais. Ele lembra, porém, que outros países também mantêm disputas entre si. O Vietnã, por exemplo, possui extensas reivindicações e enfrenta divergências não apenas com Pequim, mas também com a Malásia e as Filipinas.Nesse contexto, Martins argumenta que os Estados Unidos não criam os conflitos, mas contribuem para a sua intensificação."Há uma estratégia de contenção multidimensional, que é militar, comercial, tecnológica, dos Estados Unidos", diz Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China, sobre os planos de Washington, ressaltando a participação também de países europeus e afirmando que obtiveram, no momento, resultados "parciais".Cardozo afirma que os Estados Unidos veem a China como o "único competidor com intenção e capacidade de remodelar o contexto internacional", lembrando o contraste da crise financeira de 2008 que afetou o Ocidente com o crescimento chinês, dando espaço para essa disputa.O pesquisador vê que a estratégia norte-americana vai além da esfera militar e envolve esforços coordenados para limitar o avanço chinês em setores considerados estratégicos. Como exemplos, ele cita a política de contenção no Indo-Pacífico, construída em parceria com aliados como Austrália e Nova Zelândia, e iniciativas voltadas à área tecnológica, como o CHIPS and Science Act, aprovado em 2022. Segundo Cardozo, trata-se de uma disputa que também abrange infraestrutura, inovação e cadeias produtivas globais.Nesse cenário, ele destaca o papel da Índia como um ator central nos cálculos estratégicos de Washington. Embora Nova Deli seja vista pelos Estados Unidos como um parceiro importante para contrabalançar a influência chinesa no Indo-Pacífico, especialmente no oceano Índico, o país mantém uma política externa relativamente autônoma.Para ele, a principal incerteza para os interesses norte-americanos é justamente a falta de uma definição clara da Índia sobre aderir plenamente ou não ao grupo de países que busca conter a ascensão chinesa na região. Vale lembrar que o país e a China participam do BRICS, mas, embora atuem como figuras importantes no Sul Global, têm rivalidades entre si."O problema aqui é que a Índia tem muitos interesses na Ásia do Sul, e a China tem muitos interesses no sudoeste da Ásia. Qual é o problema principal? É o Paquistão", diz, explicando que Islamabad possui uma economia aliada a Pequim, apesar de terem diferenças na fronteira na região de Jamu e Caxemira.Cardozo destaca que a Índia acompanha com preocupação o fortalecimento da parceria entre China e Paquistão, considerada um dos principais fatores de tensão na Ásia do Sul. Segundo ele, Islamabad mantém, há décadas, uma estreita colaboração com Pequim em áreas como defesa e infraestrutura, o que influencia diretamente os cálculos estratégicos de Nova Deli. Assim, mesmo que Índia e China atuem juntas em alguns fóruns, o pesquisador destaca que os interesses de ambos frequentemente colidem em seu entorno regional.Ao abordar as disputas no mar do Sul da China, Cardozo afirma que elas resultam tanto das reivindicações territoriais dos países da região quanto da crescente competição geopolítica entre Pequim e Washington. Ele observa que nações como Filipinas e Indonésia possuem interesses divergentes dos chineses, o que levou a China a ampliar sua presença militar e seus investimentos em infraestrutura estratégica.Paralelamente, a atuação dos Estados Unidos e de mecanismos como o Quad — formado por EUA, Índia, Japão e Austrália — adiciona novos elementos de rivalidade e incentiva uma postura mais assertiva de países do Sudeste Asiático.Na avaliação do pesquisador, a disputa sino-americana também assumiu contornos de uma "guerra tecnológica". Ele cita as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos chineses, as restrições à exportação de semicondutores avançados e as limitações impostas a empresas como Huawei como exemplos de uma estratégia voltada a frear o avanço tecnológico chinês.Cardozo também relaciona a aproximação maior entre China e Rússia às transformações ocorridas no cenário europeu após a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e as sanções ocidentais contra Moscou. Segundo ele, as restrições ao comércio de energia russa estimularam uma cooperação mais profunda entre russos e chineses, fortalecendo uma parceria que busca responder à pressão exercida pelo Ocidente em diferentes frentes geopolíticas.Por fim, o pesquisador considera Taiwan um dos principais focos de instabilidade do Indo-Pacífico e um potencial ponto de confronto entre as duas maiores potências do mundo. Além do valor simbólico e territorial atribuído pela China à ilha, ele destaca a relevância de seu setor tecnológico, especialmente na produção de semicondutores.Para Cardozo, a combinação entre interesses econômicos, estratégicos e militares torna a questão taiwanesa um dos temas mais sensíveis da atual disputa entre Washington e Pequim.
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Enquanto a China busca consolidar sua influência no comércio global e reforçar sua posição como principal potência emergente do século XXI, os Estados Unidos ampliam esforços para conter o avanço de Pequim em diferentes frentes. A rivalidade entre as duas maiores economias do mundo se manifesta em disputas comerciais, tecnológicas, militares e geopolíticas, alimentando debates sobre uma possível estratégia ocidental de limitar a ascensão asiática.
A expansão militar no Indo-Pacífico, as tensões em torno de Taiwan, as disputas no
mar do Sul da China e o fortalecimento de alianças estratégicas ao redor do território chinês são alguns dos elementos apontados por analistas nesse contexto. Mas, diante do crescimento contínuo da influência chinesa,
o que efetivamente deu resultado até agora nessa disputa por poder global?Ouvido pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Pedro Martins, doutorando em relações internacionais e pesquisador do Laboratório de Estudos de Ásia (LabÁsia) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que a ascensão da China, embora represente um desafio à predominância dos Estados Unidos na hierarquia de poder global, não configura uma ameaça à ordem internacional liberal estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.
Segundo ele, diferentemente da Guerra Fria, quando EUA e União Soviética disputavam influência com base em projetos ideológicos antagônicos, o embate atual está mais relacionado à liderança de uma ordem já consolidada do que à sua substituição.
Martins destaca que há um intenso debate sobre o papel dos valores na atuação chinesa, mas argumenta que Pequim não busca necessariamente romper com os princípios centrais da ordem internacional vigente.
Pelo contrário, observa que a China tem se apresentado como defensora do livre comércio e do multilateralismo, enquanto setores da política norte-americana, especialmente sob a liderança de Donald Trump, adotam posições mais críticas a esses pilares.
"É muito mais uma questão de hierarquia de poder, e não de ameaça à ordem", opina.
O pesquisador avalia que os Estados Unidos, por meio de sua estratégia de contenção da China, buscam ampliar tensões e disputas que já existem na Ásia, aproveitando-se de divergências históricas, econômicas ou ideológicas entre Pequim e alguns países da região. Segundo Martins, grandes potências raramente criam conflitos do zero. Em vez disso, exploram fissuras pré-existentes para projetar poder e reforçar sua influência geopolítica.
Nesse contexto, ele argumenta que Washington procura se manter relevante no
cenário asiático ao fortalecer alianças e parcerias com países que enxergam a ascensão chinesa com preocupação. "Os Estados Unidos estão tentando, vendo uma ameaça, e estão se aproveitando de uma disputa que já existia e escalam essa disputa para se manter relevantes naquele cenário geopolítico", afirma.
Para o pesquisador, a estratégia norte-americana combina tanto a percepção de risco diante do crescimento chinês quanto o aproveitamento de rivalidades regionais já estabelecidas, como com Taiwan, Japão ou Índia.
Martins também observa que as disputas no mar do Sul da China envolvem múltiplos atores e interesses, indo muito além da rivalidade entre Pequim e seus vizinhos. Como conta, a região é estratégica por concentrar importantes reservas de petróleo e recursos pesqueiros, além de abrigar uma das principais rotas do comércio marítimo global, por onde passam entre 20% e 30% das mercadorias comercializadas no mundo.
O pesquisador ressalta que seis países reivindicam ilhas, recifes e outras formações marítimas na área — China, Taiwan, Vietnã, Filipinas, Malásia e Brunei —, embora a atenção internacional costume se concentrar na China devido ao tamanho de suas reivindicações territoriais. Ele lembra, porém, que outros países também mantêm disputas entre si. O Vietnã, por exemplo, possui extensas reivindicações e enfrenta divergências não apenas com Pequim, mas também com a Malásia e as Filipinas.
Nesse contexto, Martins argumenta que os Estados Unidos não criam os conflitos, mas contribuem para a sua intensificação.
"É como se houvesse uma fogueira e você colocasse gasolina nela", compara o pesquisador ao descrever o impacto da atuação norte-americana sobre as disputas regionais.
"Há uma estratégia de contenção multidimensional, que é militar, comercial, tecnológica, dos Estados Unidos", diz Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China, sobre os planos de Washington, ressaltando a participação também de países europeus e afirmando que obtiveram, no momento, resultados "parciais".
Cardozo afirma que os Estados Unidos veem a China como o "único competidor com intenção e capacidade de remodelar o contexto internacional", lembrando o contraste da crise financeira de 2008 que afetou o Ocidente com o crescimento chinês, dando espaço para essa disputa.
"Nunca os Estados Unidos haviam tido um confronto com uma economia, uma potência militar como a chinesa. Não aconteceu nem com a ex-União Soviética."
O pesquisador vê que a estratégia norte-americana vai além da esfera militar e envolve esforços coordenados para limitar o avanço chinês em setores considerados estratégicos. Como exemplos, ele cita a
política de contenção no Indo-Pacífico, construída em parceria com aliados como Austrália e Nova Zelândia, e iniciativas voltadas à área tecnológica, como o CHIPS and Science Act, aprovado em 2022. Segundo Cardozo,
trata-se de uma disputa que também abrange infraestrutura, inovação e cadeias produtivas globais.
Nesse cenário, ele destaca o papel da Índia como um ator central nos cálculos estratégicos de Washington. Embora Nova Deli seja vista pelos Estados Unidos como um parceiro importante para contrabalançar a influência chinesa no Indo-Pacífico, especialmente no oceano Índico, o país mantém uma política externa relativamente autônoma.
Para ele, a principal incerteza para os interesses norte-americanos é justamente a
falta de uma definição clara da Índia sobre aderir plenamente ou não ao grupo de países que busca conter a ascensão chinesa na região. Vale lembrar que o país e a China
participam do BRICS, mas, embora atuem como figuras importantes no Sul Global, têm rivalidades entre si.
"O problema aqui é que a Índia tem muitos interesses na Ásia do Sul, e a China tem muitos interesses no sudoeste da Ásia. Qual é o problema principal? É o Paquistão", diz, explicando que Islamabad possui uma economia aliada a Pequim, apesar de terem diferenças na fronteira na região de Jamu e Caxemira.
Cardozo destaca que a Índia acompanha com preocupação o fortalecimento da parceria entre China e Paquistão, considerada um dos principais fatores de tensão na Ásia do Sul. Segundo ele, Islamabad mantém, há décadas, uma estreita colaboração com Pequim em áreas como defesa e infraestrutura, o que influencia diretamente os cálculos estratégicos de Nova Deli. Assim, mesmo que Índia e China atuem juntas em alguns fóruns, o pesquisador destaca que os interesses de ambos frequentemente colidem em seu entorno regional.
Ao abordar as disputas no mar do Sul da China, Cardozo afirma que elas resultam tanto das reivindicações territoriais dos países da região quanto da crescente competição geopolítica entre Pequim e Washington. Ele observa que nações como Filipinas e Indonésia possuem interesses divergentes dos chineses, o que levou a China a ampliar sua presença militar e seus investimentos em infraestrutura estratégica.
Paralelamente, a atuação dos Estados Unidos e de mecanismos como o Quad — formado por EUA, Índia, Japão e Austrália — adiciona novos elementos de rivalidade e incentiva uma postura mais assertiva de países do Sudeste Asiático.
Na avaliação do pesquisador, a disputa sino-americana também assumiu contornos de uma "guerra tecnológica". Ele cita as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos chineses, as restrições à exportação de semicondutores avançados e as limitações impostas a empresas como Huawei como exemplos de uma estratégia voltada a frear o avanço tecnológico chinês.
Cardozo também relaciona a aproximação maior entre China e Rússia às transformações ocorridas no cenário europeu após a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e as sanções ocidentais contra Moscou. Segundo ele, as restrições ao comércio de energia russa estimularam uma cooperação mais profunda entre russos e chineses, fortalecendo uma parceria que busca responder à pressão exercida pelo Ocidente em diferentes frentes geopolíticas.
Por fim, o pesquisador considera Taiwan um dos principais focos de instabilidade do Indo-Pacífico e um potencial ponto de confronto entre as duas maiores potências do mundo. Além do valor simbólico e territorial atribuído pela China à ilha, ele destaca a relevância de seu setor tecnológico, especialmente na produção de semicondutores.
Para Cardozo, a combinação entre interesses econômicos, estratégicos e militares torna a questão taiwanesa um dos temas mais sensíveis da atual disputa entre
Washington e Pequim.
"É uma situação muito delicada, e Xi Jinping falou com o presidente Donald Trump que eles têm que procurar uma solução para a questão de Taiwan, porque isso vai, digamos, provocar um confronto entre ambas as economias, principalmente no quesito militar."
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