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Além das fronteiras: por que jogadores da Europa optam por seleções do Sul Global? Analistas explicam (VÍDEOS)

© Sputnik / Grigory Sysoev / Acessar o banco de imagensTorcedores do Marrocos apoiam a seleção que fez história ao se tornar a primeira equipe africana a chegar a uma semifinal de Copa do Mundo, no estádio Al Bayt. Al Khor, Catar, 14 de dezembro de 2022
Torcedores do Marrocos apoiam a seleção que fez história ao se tornar a primeira equipe africana a chegar a uma semifinal de Copa do Mundo, no estádio Al Bayt. Al Khor, Catar, 14 de dezembro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 19.06.2026
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Na atual Copa do Mundo disputada nos EUA, Canadá e México, ficou ainda mais evidente o fluxo de jogadores que poderiam defender seleções europeias, mas optaram por representar os países de seus pais. Essa decisão perpassa várias camadas, como explicam os especialistas ouvidos pela reportagem da Sputnik Brasil.
Nesse sentido, Carmen Rial, professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos do Futebol Brasileiro (INCT Futebol), pondera diversos fatores, como a possibilidade de o atleta não ser convocado para uma seleção europeia, além do preconceito estrutural que enfrentam em centros como a Europa, apesar de muitas vezes terem nascido lá.

"Esses jogadores ainda sofrem discriminação. Claro que, quando se tornam celebridades, isso diminui. Não acredito que o Lukaku [jogador de origem congolesa que atua na Bélgica] seja considerado congolês quando perde a seleção, porque já tem um nome. Mas é o caso de muitos outros. Acho que o fato de serem discriminados no país é uma das razões, sim, por escolherem seleções do Sul Global", disse.

Já Luiz Carlos Rigo, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e integrante do INCT, ressalta que a projeção desses jogadores em seleções europeias, apesar de serem filhos de imigrantes, ajuda de certa forma a combater o preconceito. Mas isso ocorre principalmente com atletas de grandes clubes, que acabam recebendo um tratamento diferenciado em relação ao imigrante comum.

"Na Espanha, eu acompanhava lá [a dinâmica dos futebolistas]. Eles usam o termo 'selecionado brasileiro' que joga no Real Madrid. Tipo assim: o Neymar e esses jogadores, todos eles, principalmente os que jogam na primeira divisão, têm um outro tratamento", comenta.

A decisão na escolha por uma seleção é simbólica

Segundo Rial, o ato de escolher uma seleção nacional, isto é, que tem a capacidade de representar a identidade de um país, carrega um forte peso simbólico, que vai além do aspecto profissional. Dentre tantos fatores considerados, ela destaca a questão da luta anticolonial, um tema bastante em voga, principalmente em países africanos.

"A escolha da seleção que se vai representar é muito significativa. Há jogadores que poderiam atuar por países onde nasceram e que optam por atuar por outras seleções. E há casos de irmãos que jogam em seleções diferentes. Um joga na África, outro na Europa. Tem a ver, sim, com uma consciência pós-colonial, uma consciência que revela a importância de um pertencimento aos países do Sul Global", destaca.

Em contrapartida, o número de atletas filhos de imigrantes em seleções europeias que foram potências colonizadoras no passado continua alto. Como destaca a especialista, esse fenômeno é evidente sobretudo na França, país que abriga uma vasta população de origem estrangeira justamente em decorrência de seu histórico colonial.

"A gente tem, por exemplo, no Senegal: 70% da seleção foi formada na França, que escolhe jogar no Senegal, talvez por consciência política, talvez por pertencimento familiar, mas talvez também por uma oportunidade econômica. A gente não pode tirar essa parte. E econômico, que eu estou vendo, é no sentido mais largo", observa.

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Futebol expõe contradição europeia sobre imigrantes

Rigo levanta outra questão ao analisar o imaginário de movimentos anti-imigração na Europa, que defendem uma suposta "pureza" regional. O pesquisador compara essa retórica a preceitos nazistas e enfatiza que o futebol desmistifica essa ilusão.

"Parte da Europa tenta se mostrar com uma certa pureza europeia. Me lembro um pouco aí, infelizmente, essa 'pureza europeia' um pouco do nazismo. Essa busca de uma etnia mais pura pode levar a esses extremos. E o futebol, com essa não característica de 'onde eu nasci, o que eu sou exclusivo', ajuda a diluir esse sentimento", discorre.

Para o professor, o fato de jogadores nascidos na Europa, que defendem suas seleções e ainda assim não serem considerados verdadeiramente europeus por parte da opinião pública, insere um elemento de extrema complexidade no âmago da sociedade.

"O futebol tem isso: ele evidencia muito esse cruzamento étnico, faz uma espécie de ápice, a ponta de um iceberg, que já é a Europa toda. Então, nunca existiu essa Europa tão imaginada, e que muitos tentam defender, e que é o movimento contra os imigrantes. Nunca houve essa Europa. Os imigrantes sempre tiveram um papel muito forte", conclui.

Ao mesmo tempo em que as seleções europeias dependem do talento de filhos e netos de imigrantes para alcançar a glória nos gramados, garantindo-lhes uma espécie de aceitação muitas vezes provisória e utilitarista, a sociedade ainda resiste em integrá-los plenamente fora das quatro linhas. Já as seleções que representam países do Sul Global muitas vezes recebem atletas que nunca estiveram em seu território, mas que se identificam de forma subjetiva.
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