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Levante de Soweto: conheça o episódio que consolidou a África do Sul como espaço de resistência
Levante de Soweto: conheça o episódio que consolidou a África do Sul como espaço de resistência
Sputnik Brasil
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o principal legado deixado pelo movimento, considerado o início do fim do Apartheid, foi a... 19.06.2026, Sputnik Brasil
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Em 16 de junho de 1976, milhares de estudantes negros sul-africanos saíram às ruas de Soweto para protestar contra a imposição do africâner, a língua do colonizador, nas escolas e contra o regime do Apartheid na África do Sul. A repressão à manifestação foi violenta e resultou em centenas de mortos e feridos.O episódio ficou conhecido como o Levante de Soweto, tornou-se um marco da luta contra a segregação racial e ajudou a ampliar a pressão internacional sobre o governo sul-africano.Hoje, 50 anos depois, o Levante de Soweto continua a ser símbolo da resistência popular e do papel da juventude nas transformações políticas.O episódio é considerado um ponto de inflexão na história sul-africana por ter conseguido unificar outros movimentos e dar uma "cara jovem" à identidade da revolução do país, conforme aponta ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Laura Ludovico, advogada especialista em direito internacional público e estudo humanitário diplomático e diretora de projetos e pesquisa do BRICS+ Tech Forum.A especialista avalia que o Levante de Soweto foi o início da queda do Apartheid, mas frisa que o fim do regime ainda demorou 18 anos para se consolidar. Um dos países que lutou pela queda do regime foi a União Soviética (URSS). Inicialmente, o apoio soviético deu ao Ocidente um pretexto para classificar o Levante de Soweto como ameaça comunista, mas, no decorrer o evento, foi percebido que o apoio ao movimento era indispensável para os direitos humanos."Além da União Soviética, também tivemos Cuba, tivemos Angola, tivemos Namíbia. Então, tivemos países que entenderam o que estava acontecendo ou que passaram por situações semelhantes."Enquanto isso, EUA e Reino Unido começaram a apoiar ainda mais o Apartheid, uma vez que viam a África do Sul como parceiro anticomunista confiável. "Eles definiam como uma questão interna, não era um problema deles."No entanto, quando as imagens da repressão ao levante circularam globalmente, expondo o que o Apartheid provocava, uma repulsa tomou conta do planeta, transformando o regime em uma questão não só regional africana, mas um escândalo moral internacional. Diante disso, os aliados anglófonos foram questionados publicamente e forçados a se realinhar.Ludovico aponta ainda que o episódio expôs como a comunidade internacional é seletiva, pois poderia ter agido contra o Apartheid de diversas formas, em diversos momentos, mas só interviu quando o conflito foi internacionalizado.Para a jurista, o Levante de Soweto foi parte essencial da construção da identidade sul-africana, porque, embora o país já fosse independente na época do episódio, era uma independência formal e subjetiva, com um governo formado por brancos, e a imposição do africâner como língua oficial agravaria a segregação.Ao podcast, Marcos Paulo Amorim, historiador e pesquisador visitante do Centro de Estudos em Ciências Sociais sobre os Mundos Africanos, Americanos e Asiáticos (CESSMA, na sigla em francês) e do Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (Inalco), ambos na França, aponta que o levante não foi o único fator que contribuiu para o fim da segregação na África do Sul. O regime do Apartheid criou um sistema que colapsou dentro de si.Desde o século XIX, quem pagava mais impostos na África do Sul era a população negra. Porém, a partir da década de 1960, o país passou por uma forte transformação de criação dos bantuntões, espaços que eram criados para segregar as pessoas negras."E aí o que vai acontecendo na África do Sul é que, com o passar dos anos, se você vai diminuindo a população negra das áreas industriais, a presença negra das áreas produtivas, você tem uma arrecadação menor e, portanto, tem menos trabalhadores, menos tributos. Então, vários colapsos vão se justapondo além do Levante de Soweto."Ele explica que os EUA, na época do Apartheid, não tinham a intenção de romper com o regime porque o mundo estava vivendo a Guerra Fria, momento em que a indústria bélica norte-americana estava em franco desenvolvimento e precisava importar da África do Sul platina, cobalto, manganês e outros recursos necessários para a sua produção. Porém, ele aponta também um fator ideológico, já que as Leis Jim Crow, que legalizaram a segregação racial nos EUA, perduraram e estiveram em vigor nos EUA até 1954.Já no caso do Reino Unido, ele aponta que há um complicador, porque o país era o colonizador, e boa parte da estrutura legal do Apartheid foi herdada do período colonial."Então, havia um receio de que, se o Reino Unido passasse a impor sanções à África do Sul, essas sanções virariam para o próprio Reino Unido."Amorim enfatiza que a África do Sul é um país com papel ativo no debate internacional, que não aceita o espaço de subalternidade que às vezes é imposto aos países africanos. O legado deixado pelo Levante de Soweto se converteu em soft power, com o país exportando uma imagem de espaço de resistência.
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Levante de Soweto: conheça o episódio que consolidou a África do Sul como espaço de resistência
18:15 19.06.2026 (atualizado: 21:05 19.06.2026) Especiais
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que o principal legado deixado pelo movimento, considerado o início do fim do Apartheid, foi a construção do soft power sul-africano de resistência e de não aceitar o espaço de subalternidade que às vezes é imposto aos países africanos.
Em 16 de junho de 1976, milhares de estudantes negros sul-africanos saíram às ruas de Soweto para protestar
contra a imposição do africâner, a língua do colonizador, nas escolas e contra o regime do
Apartheid na África do Sul. A repressão à manifestação foi violenta e resultou em centenas de mortos e feridos.
O episódio ficou conhecido como o Levante de Soweto, tornou-se um marco da luta contra a segregação racial e ajudou a ampliar a pressão internacional sobre o governo sul-africano.
Hoje, 50 anos depois, o Levante de Soweto continua a ser símbolo da resistência popular e do papel da juventude nas transformações políticas.
O episódio é considerado um ponto de inflexão na história sul-africana por ter conseguido unificar outros movimentos e dar uma "cara jovem" à identidade da revolução do país, conforme aponta ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Laura Ludovico, advogada especialista em direito internacional público e estudo humanitário diplomático e diretora de projetos e pesquisa do BRICS+ Tech Forum.
"Antes de 1976, essa resistência era muito dispersa, era um movimento de consciência negra isolado, um outro em relação às mulheres. Então esse levante de Soweto unificou essas frentes porque a pauta, que era educação, tocava todas as famílias."
A especialista avalia que o Levante de Soweto foi o início da queda do Apartheid, mas frisa que o fim do regime ainda demorou 18 anos para se consolidar. Um dos países que
lutou pela queda do regime foi a União Soviética (URSS). Inicialmente,
o apoio soviético deu ao Ocidente um pretexto para classificar o Levante de Soweto como ameaça comunista, mas, no decorrer o evento, foi percebido que o apoio ao movimento era indispensável para os direitos humanos.
"Além da União Soviética, também tivemos Cuba, tivemos Angola, tivemos Namíbia. Então, tivemos países que entenderam o que estava acontecendo ou que passaram por situações semelhantes."
Enquanto isso,
EUA e Reino Unido começaram a apoiar ainda mais o Apartheid, uma vez que viam a África do Sul como parceiro anticomunista confiável. "Eles definiam como uma questão interna, não era um problema deles."
No entanto, quando as imagens da repressão ao levante circularam globalmente, expondo o que o Apartheid provocava, uma repulsa tomou conta do planeta, transformando o regime em uma questão não só regional africana, mas um escândalo moral internacional. Diante disso, os aliados anglófonos foram questionados publicamente e forçados a se realinhar.
"Depois disso, o que aconteceu foi todo mundo fingir que ninguém apoiava o Apartheid e passaram a apoiar Nelson Mandela e o discurso de direitos humanos."
Ludovico aponta ainda que o episódio expôs como a comunidade internacional é seletiva, pois poderia ter agido contra o Apartheid de diversas formas, em diversos momentos, mas só interviu quando o conflito foi internacionalizado.
"Os países do Sul Global não contam com a solidariedade automática dessas potências, só quando não existe mais nada o que ser feito. Então, mesmo 50 anos depois de Soweto, a principal herança que a gente pode demonstrar aqui é justamente essa transformação estrutural, que sempre vai partir por dentro, e não por uma intervenção de fora. Não é um país que vai salvar outro, é justamente o próprio povo."
Para a jurista, o Levante de Soweto foi parte essencial da construção da identidade sul-africana, porque, embora o país já fosse independente na época do episódio, era uma independência formal e subjetiva, com um governo formado por brancos, e a imposição do africâner como língua oficial agravaria a segregação.
"Queria dizer que as pessoas que não falavam o africâner não teriam acesso à educação. A política foi para que elas não aprendessem, para que elas fossem escravizadas a vida inteira."
Ao podcast, Marcos Paulo Amorim, historiador e pesquisador visitante do Centro de Estudos em Ciências Sociais sobre os Mundos Africanos, Americanos e Asiáticos (CESSMA, na sigla em francês) e do Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (Inalco), ambos na França, aponta que o levante não foi o único fator que contribuiu para o fim da segregação na África do Sul. O regime do Apartheid criou um sistema que colapsou dentro de si.
Desde o século XIX, quem pagava mais impostos na África do Sul era a população negra. Porém, a partir da década de 1960, o país passou por uma forte transformação de criação dos bantuntões, espaços que eram criados para segregar as pessoas negras.
"E aí o que vai acontecendo na África do Sul é que, com o passar dos anos, se você vai diminuindo a população negra das áreas industriais, a presença negra das áreas produtivas, você tem uma arrecadação menor e, portanto, tem menos trabalhadores, menos tributos. Então, vários colapsos vão se justapondo além do Levante de Soweto."
Ele explica que os EUA, na época do Apartheid, não tinham a intenção de romper com o regime porque o mundo estava vivendo a Guerra Fria, momento em que a indústria bélica norte-americana estava em franco desenvolvimento e precisava importar da África do Sul platina, cobalto, manganês e outros recursos necessários para a sua produção. Porém, ele aponta também um fator ideológico, já que as Leis Jim Crow, que legalizaram a segregação racial nos EUA, perduraram e estiveram em vigor nos EUA até 1954.
"Então, nesse sentido, há um encontro ideológico também. Um terceiro fator também para os EUA é que ali é um tampão anticomunista. Então o Sul estava caindo sob revoluções à esquerda. Quase toda a região da África Meridional estava caindo em revoluções à esquerda. E a África do Sul era o último bastião capitalista que duraria até ali naquele momento."
Já no caso do Reino Unido, ele aponta que há um complicador, porque o país era o colonizador, e boa parte da estrutura legal do Apartheid foi herdada do período colonial.
"Então, havia um receio de que, se o Reino Unido passasse a impor sanções à África do Sul, essas sanções virariam para o próprio Reino Unido."
Amorim enfatiza que a África do Sul é um país com papel ativo no debate internacional, que não aceita o espaço de subalternidade que às vezes é imposto aos países africanos. O legado deixado pelo Levante de Soweto se converteu em soft power, com o país exportando uma imagem de espaço de resistência.
"A África do Sul passar a exportar também isso. Não só a cultura, a cultura sul-africana, a questão da conciliação, o debate internacional sobre o Apartheid. Formula políticas sobre isso, denuncia questões de Apartheid internacionalmente, mas também passa a exportar esse espaço da resistência."
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