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Brasil aposta no yuan para emitir títulos: medida pode gerar atritos com os EUA?
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Pela primeira vez na história, o Brasil planeja emitir títulos públicos em yuan no mercado chinês, em uma iniciativa que pode ampliar as fontes de... 22.06.2026, Sputnik Brasil
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Depois de voltar a emitir títulos da dívida pública em euro, em abril deste ano, após mais de dez anos, o Brasil agora aposta no mercado financeiro chinês e, pela primeira vez na história, a oferecer a investidores do país asiático os chamados Panda Bons.O objetivo do Ministério da Fazenda é diversificar cada vez mais as fontes de financiamento e reduzir a dependência brasileira sobre o dólar. A medida acontece em meio às políticas chinesas para promover o uso global do yuan, que em 2024 conseguiu superar o euro no comércio mundial, atingindo 6% das transações. Ainda assim, a moeda chinesa está bem distante do dólar norte-americano, que possui uma fatia de 82%.A expectativa é de que a oferta dos títulos públicos na moeda da China seja anunciada durante uma viagem de autoridades do Brasil ao país, entre os dias 24 e 26 de junho.Para o professor associado de finanças na Fundação Getulio Vargas (FGV) Hsia Hua Sheng, com a iniciativa, o Brasil aproveita as vantagens da abertura do mercado de capital de Pequim. Por outro lado, pelas altas taxas de juros no país, os títulos brasileiros possuem uma "clara vantagem" sobre as demais moedas, explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.Aliado a isso, o especialista lembra que a China tem o segundo maior mercado de capitais do mundo, com capitalização superior a US$ 11 trilhões (R$ 56,7 trilhões), ficando atrás apenas dos Estados Unidos.Contudo, Hua Sheng lembra que os Pand Bonds possuem uma restrição importante: enquanto títulos em moedas como dólar e euro podem ser emitidos para pagamento em longo prazo, chegando a 40 anos, os chineses possuem um período bem menor: no máximo, cinco anos.Outro ponto citado pelo professor da FGV é que a medida do governo brasileiro representa uma iniciativa importante na integração financeira entre os dois países, em um cenário em que a China se consolidou como o principal parceiro comercial do Brasil, com um volume de exportação que chegou a quase US$ 171 bilhões (R$ 882 bilhões) e superávit para os brasileiros de US$ 29,1 bilhões (R$ 150,1 bilhões).Medida pode afetar as relações entre Brasil e EUA?A venda de títulos públicos brasileiros em yuan ocorre em um momento de turbulência nas relações entre Brasil e Estados Unidos, que nas últimas semanas anunciaram a classificação das facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, e estudam retomar a taxação sobre a importação de produtos brasileiros em 25%. Questionado se a medida pode incomodar o governo norte-americano, Hsia Hua Sheng acredita que não."O Brasil é soberano e decide o que considera mais adequado aos seus interesses. Além disso, já temos empresas brasileiras emitindo Panda Bonds, e se o Tesouro Nacional vier a emitir, é o mesmo raciocínio econômico de mercado, que busca diversificar as fontes de financiamento. O próprio BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] tem uma modalidade de financiamento de multimoedas, o que mostra que é comum empresas e bancos brasileiros fazerem a captação de moedas de diversos países", afirma.Já o professor de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT/Ineu) Marcos Cordeiro Pires acredita que, mesmo se houver tentativas de retaliação dos Estados Unidos, o Brasil "não deve baixar a cabeça" para um lado que não deseja negociar.Por fim, Cordeiro pontua que a estabilidade macroeconômica da China atualmente é muito maior do que a de Washington, inclusive com uma volatilidade muito inferior do yuan sobre o real. Como a quitação desses títulos ocorrerá na moeda da China, quanto menor for a volatilidade da moeda, menor tende a ser o custo da dívida."A estabilidade econômica da China é um fator positivo para termos endividamento nessa moeda [na comparação com o dólar], já que ela é bastante estável, e a China tem um colchão enorme de liquidez, além das maiores reservas internacionais do mundo. E, na medida em que o Brasil vai se envolvendo mais com a China em assuntos financeiros, abre a possibilidade de ter acesso a um fluxo de capital que não é ideológico, como o dos Estados Unidos. É um investimento que não quer mudança de governo nem alteração na estrutura política."
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economia, brasil, china, estados unidos, comando vermelho (cv), fgv, marcos cordeiro pires, yuan, dólar, desdolarização, dívida pública, títulos do tesouro, relações comerciais, república da china, primeiro comando da capital (pcc), terrorismo, exclusiva
Brasil aposta no yuan para emitir títulos: medida pode gerar atritos com os EUA?
19:05 22.06.2026 (atualizado: 19:57 22.06.2026) Pela primeira vez na história, o Brasil planeja emitir títulos públicos em yuan no mercado chinês, em uma iniciativa que pode ampliar as fontes de financiamento do país, reduzir a dependência do dólar e acrescentar um novo elemento à já delicada relação com os EUA.
Depois de voltar a emitir títulos da dívida pública em euro, em abril deste ano, após mais de dez anos, o Brasil agora aposta no
mercado financeiro chinês e, pela primeira vez na história, a oferecer a investidores do país asiático os chamados Panda Bons.
Panda Bonds são títulos de dívida emitidos por entidades estrangeiras na China, em yuan, para captar recursos de investidores chineses.
O objetivo do Ministério da Fazenda é diversificar cada vez mais as fontes de financiamento e reduzir a dependência brasileira sobre o dólar. A medida acontece em meio às políticas chinesas para promover o uso global do yuan, que em 2024 conseguiu superar o euro no comércio mundial, atingindo 6% das transações. Ainda assim, a moeda chinesa está bem distante do dólar norte-americano, que possui uma fatia de 82%.
A expectativa é de que a oferta dos títulos públicos na moeda da China seja anunciada durante uma
viagem de autoridades do Brasil ao país, entre os dias 24 e 26 de junho.
Para o professor associado de finanças na Fundação Getulio Vargas (FGV)
Hsia Hua Sheng, com a iniciativa, o Brasil
aproveita as vantagens da abertura do mercado de capital de Pequim. Por outro lado, pelas altas taxas de juros no país, os títulos brasileiros possuem uma "clara vantagem" sobre as demais moedas, explica ao podcast
Mundioka, da
Sputnik Brasil.
Aliado a isso, o especialista lembra que a China tem o segundo maior mercado de capitais do mundo, com capitalização superior a US$ 11 trilhões (R$ 56,7 trilhões), ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
"Isso significa que, uma vez emitida na China, os investidores do país vão conhecendo mais sobre os títulos brasileiros, fortalecendo a reputação do país."
Contudo, Hua Sheng lembra que os Pand Bonds possuem uma restrição importante: enquanto
títulos em moedas como dólar e euro podem ser emitidos para pagamento em longo prazo, chegando a 40 anos, os chineses possuem um período bem menor:
no máximo, cinco anos.
Outro ponto citado pelo professor da FGV é que a medida do governo brasileiro representa uma iniciativa importante na integração financeira entre os dois países, em um cenário em que a China se consolidou como o principal parceiro comercial do Brasil, com um volume de exportação que chegou a quase US$ 171 bilhões (R$ 882 bilhões) e superávit para os brasileiros de US$ 29,1 bilhões (R$ 150,1 bilhões).
"Também temos visto bastante investimento mútuo entre Brasil e China, e agora estamos observando uma interação maior no campo da tecnologia. Quando você olha para todas essas iniciativas de investimento e transações, há a necessidade de utilizar uma moeda, certo? E, quando os dois países podem usar mais as suas próprias moedas e realizar uma troca direta, tudo isso favorece um maior volume de transações, reduz os custos, aumenta a eficiência e melhora a formação de preços", complementa.
Medida pode afetar as relações entre Brasil e EUA?
A venda de títulos públicos brasileiros em yuan ocorre em um momento de turbulência nas relações entre Brasil e Estados Unidos, que nas últimas semanas anunciaram a classificação das facções criminosas
Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, e estudam retomar a taxação sobre a importação de produtos brasileiros em 25%. Questionado se a medida pode incomodar o governo norte-americano,
Hsia Hua Sheng acredita que não.
"O Brasil é soberano e decide o que considera mais adequado aos seus interesses. Além disso, já temos empresas brasileiras emitindo Panda Bonds, e se o Tesouro Nacional vier a emitir, é o mesmo raciocínio econômico de mercado, que busca diversificar as fontes de financiamento.
O próprio BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] tem uma modalidade de financiamento de multimoedas, o que mostra que é comum empresas e bancos brasileiros fazerem a captação de moedas de diversos países", afirma.
Já o professor de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT/Ineu) Marcos Cordeiro Pires acredita que, mesmo se houver tentativas de retaliação dos Estados Unidos, o Brasil "não deve baixar a cabeça" para um lado que não deseja negociar.
"Eu parto do princípio de que é preciso sempre pensar de onde partiram as flechas. Não houve nenhuma flecha disparada pelo governo brasileiro contra o governo norte-americano. Então, quando alguém age contra os interesses do outro, é preciso perguntar: por que? Está buscando algum tipo de consenso? Ou essa interferência ocorre justamente com o objetivo de influenciar as eleições no Brasil?"
Por fim, Cordeiro pontua que a estabilidade macroeconômica da China atualmente é muito maior do que a de Washington, inclusive com uma volatilidade muito inferior do yuan sobre o real. Como a quitação desses títulos ocorrerá na moeda da China, quanto menor for a volatilidade da moeda, menor tende a ser o custo da dívida.
"A estabilidade econômica da China é um fator positivo para termos endividamento nessa moeda [na comparação com o dólar], já que ela é bastante estável, e a China tem um colchão enorme de liquidez, além das maiores reservas internacionais do mundo. E, na medida em que o Brasil vai se envolvendo mais com a China em assuntos financeiros, abre a possibilidade de ter acesso a um fluxo de capital que não é ideológico, como o dos Estados Unidos. É um investimento que não quer mudança de governo nem alteração na estrutura política."
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