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Falta de consenso interno faz Mercosul priorizar acordos extrarregionais, apontam analistas
Falta de consenso interno faz Mercosul priorizar acordos extrarregionais, apontam analistas
Sputnik Brasil
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que o interesse do Mercosul por acordos com países de outras regiões sinaliza mais a falta de estratégia... 26.06.2026, Sputnik Brasil
2026-06-26T19:13-0300
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Seis meses após oficializar a assinatura do acordo com a União Europeia (UE), encerrando duas décadas de negociações, o Mercosul mira outros mercados. No radar estão possíveis acordos de livre comércio com os Emirados Árabes Unidos e países do continente asiático, entre eles China, Japão e Coreia do Sul.Líderes do bloco se preparam para a cúpula no Paraguai, prevista para os dias 29 e 30, em Assunção, e a expectativa é o anúncio de novas tratativas comerciais com parceiros extrarregionais.À Sputnik Brasil, Corival Alves do Carmo, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), afirma que a busca por parcerias extrarregionais é um reflexo da falta de entendimento entre os membros do Mercosul. Como não há consenso sobre como avançar na integração sul-americana, acaba sendo mais fácil fazer acordos com parceiros de outras regiões.Segundo Carmo, 35 anos após sua fundação, o Mercosul ainda não avançou nem como mercado comum, nem como união aduaneira ou área de livre comércio.A falta de consenso também é um entrave para que países que hoje são membros associados do Mercosul ingressem como membros plenos do bloco. Carmo cita, em especial, o caso de Chile e Peru, que são membros associados e têm uma política de comércio exterior muito mais liberal que a do Mercosul; e destaca também o Equador."Os três países possuem acordo de livre comércio com a China. Chile e Peru têm acordo de livre comércio também com os EUA. Para ingressarem como membros plenos do Mercosul, o bloco teria de adotar uma política de comércio exterior bem mais liberal do que a adotada até agora; ou Chile, Peru e Equador teriam de ajustar as suas políticas às do Mercosul."Carmo pondera que a adesão de novos países sul-americanos ao Mercosul, em tese, beneficiaria o bloco, mas sublinha que nas condições atuais geraria um desequilíbrio prejudicial ao Brasil, pois predominaria uma agenda mais liberal do que a desejada pelo país.Na visão do especialista, o interesse do Mercosul por acordos extrarregionais sinaliza mais a falta de estratégia coletiva do bloco do que uma busca por inserção internacional. Ele observa que os acordos firmados são ad hoc, circunstanciais, e destaca que o pacto com a UE foi atrasado por décadas por conta de vetos e, no final, acabou sendo assinado em função do tarifaço dos EUA, com termos que anteriormente eram motivos para negativas."Cada novo acordo vai enfrentar as mesmas dificuldades, porque cada governo do Mercosul tem interesses distintos, e apenas as circunstâncias conjunturais vão definir o avanço ou não dos acordos extrarregionais."Rodrigo Lyra, professor adjunto de relações internacionais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), não considera que o Mercosul está mirando mais em parcerias externas. Ao contrário, ele afirma que, quando o Mercosul negocia com UE, Cingapura ou Emirados Árabes Unidos, está fazendo isso em bloco, ou seja, é a própria integração regional funcionando.Segundo ele, o que de fato está travado há anos é o aprofundamento interno do bloco — eliminar barreiras entre os próprios sócios, convergir regulações, tratar assimetrias.Lyra acrescenta que virar membro pleno do Mercosul significa adotar a Tarifa Externa Comum do bloco e abrir mão de fechar acordos comerciais por conta própria, e é exatamente essa perda de autonomia que trava a adesão de novos membros."O Chile, por exemplo, construiu toda sua estratégia comercial em cima de uma rede enorme de acordos bilaterais próprios. Entrar no Mercosul como membro pleno seria basicamente desmontar isso. Peru segue a mesma lógica. Os dois preferem ficar como associados, que já dá acesso comercial preferencial sem o custo de abrir mão da autonomia."Ele afirma que mais membros plenos significaria um mercado maior, e mais peso e voz nas negociações, o que poderia fortalecer o bloco. Por outro lado, o Mercosul decide por consenso, e cada novo membro pleno torna esse consenso mais difícil de alcançar.
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Falta de consenso interno faz Mercosul priorizar acordos extrarregionais, apontam analistas
19:13 26.06.2026 (atualizado: 21:06 26.06.2026) Especiais
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que o interesse do Mercosul por acordos com países de outras regiões sinaliza mais a falta de estratégia coletiva do bloco do que uma busca por inserção internacional.
Seis meses após
oficializar a assinatura do acordo com a União Europeia (UE), encerrando duas décadas de negociações, o Mercosul mira outros mercados. No radar estão
possíveis acordos de livre comércio com os Emirados Árabes Unidos e países do continente asiático, entre eles China, Japão e Coreia do Sul.
Líderes do bloco se preparam para a cúpula no Paraguai, prevista para os dias 29 e 30, em Assunção, e a expectativa é o anúncio de novas tratativas comerciais com parceiros extrarregionais.
À Sputnik Brasil, Corival Alves do Carmo, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), afirma que a busca por parcerias extrarregionais é um reflexo da falta de entendimento entre os membros do Mercosul. Como não há consenso sobre como avançar na integração sul-americana, acaba sendo mais fácil fazer acordos com parceiros de outras regiões.
Segundo Carmo, 35 anos após sua fundação, o Mercosul ainda não avançou nem como mercado comum, nem como união aduaneira ou área de livre comércio.
"De fato, até retrocedeu em alguns momentos em que os membros optaram por sacrificar a integração em função de objetivos internos. Como os países-membros querem não apenas expandir as exportações, mas principalmente obter superávit comercial, as parcerias extrarregionais tornam-se mais atrativas", explica o especialista.
A falta de consenso também é um entrave para que países que hoje são membros associados do Mercosul ingressem como membros plenos do bloco. Carmo cita, em especial, o caso de Chile e Peru, que são membros associados e têm uma política de comércio exterior muito mais liberal que a do Mercosul; e destaca também o Equador.
"Os três países possuem acordo de livre comércio com a China. Chile e Peru têm acordo de livre comércio também com os EUA. Para ingressarem como
membros plenos do Mercosul, o bloco teria de adotar uma política de comércio exterior bem mais liberal do que a adotada até agora;
ou Chile, Peru e Equador teriam de ajustar as suas políticas às do Mercosul."
Carmo pondera que a adesão de novos países sul-americanos ao Mercosul, em tese, beneficiaria o bloco, mas sublinha que nas condições atuais geraria um desequilíbrio prejudicial ao Brasil, pois predominaria uma agenda mais liberal do que a desejada pelo país.
"Por outro lado, o Brasil está avançando na integração com uma estratégia de longo prazo, com a construção dos corredores bioceânicos, que pode ser um caminho mais efetivo para promover a integração com o Chile e o Peru, e, ao mesmo tempo, facilitar o acesso ao mercado chinês para a produção brasileira."
Na visão do especialista, o interesse do Mercosul por acordos extrarregionais sinaliza mais a falta de estratégia coletiva do bloco do que uma busca por inserção internacional. Ele observa que os acordos firmados são ad hoc, circunstanciais, e destaca que o pacto com a UE foi atrasado por décadas por conta de vetos e, no final, acabou sendo assinado em função do tarifaço dos EUA, com termos que anteriormente eram motivos para negativas.
"Cada novo acordo vai enfrentar as mesmas dificuldades, porque cada governo do Mercosul tem interesses distintos, e apenas as circunstâncias conjunturais vão definir o avanço ou não dos acordos extrarregionais."
Rodrigo Lyra, professor adjunto de relações internacionais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), não considera que o Mercosul está mirando mais em parcerias externas. Ao contrário, ele afirma que, quando o Mercosul negocia com UE, Cingapura ou Emirados Árabes Unidos, está fazendo isso em bloco, ou seja, é a própria integração regional funcionando.
Segundo ele, o que de fato está travado há anos é o aprofundamento interno do bloco — eliminar barreiras entre os próprios sócios, convergir regulações, tratar assimetrias.
"E isso patina mais por razões políticas. Agora, a virada para fora também tem uma lógica clara. O mundo ficou mais protecionista, as tarifas viraram arma geopolítica, as cadeias produtivas estão se fragmentando. Então tudo isso se lê como tentativa de não ficar refém de ninguém, diminuir vulnerabilidade", argumenta o especialista.
Lyra acrescenta que virar membro pleno do Mercosul significa adotar a Tarifa Externa Comum do bloco e abrir mão de fechar acordos comerciais por conta própria, e é exatamente essa perda de autonomia que trava a adesão de novos membros.
"O Chile, por exemplo, construiu toda sua estratégia comercial em cima de uma rede enorme de acordos bilaterais próprios. Entrar no Mercosul como membro pleno seria basicamente desmontar isso. Peru segue a mesma lógica. Os dois preferem ficar como associados, que já dá acesso comercial preferencial sem o custo de abrir mão da autonomia."
Ele afirma que mais membros plenos significaria um mercado maior, e mais peso e voz nas negociações, o que poderia fortalecer o bloco. Por outro lado, o Mercosul decide por consenso, e cada novo membro pleno torna esse consenso mais difícil de alcançar.
"A heterogeneidade política já trava o bloco hoje. Ampliar sem antes resolver isso pode aprofundar a paralisia", resume.
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