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'Há uma convergência entre Estado e mercado': os interesses por trás da Seção 301 contra o Brasil

© AP Photo / Andre PennerUm navio porta-contêineres se aproxima do porto de Santos, no Brasil
Um navio porta-contêineres se aproxima do porto de Santos, no Brasil - Sputnik Brasil, 1920, 20.07.2026
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O tarifaço da Casa Branca, apresentado como instrumento de negociação e proteção da indústria dos EUA, foi derrubado pela Suprema Corte em fevereiro de 2026. A Corte entendeu que o presidente excedeu sua autoridade ao agir sem aval do Congresso.
Isso, no entanto, não interrompeu Washington de tentar outras maneiras: a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 foi usada para investigar práticas comerciais do Brasil consideradas "injustas" ou "discriminatórias". No caso brasileiro, a investigação sai de questões tarifárias tradicionais e alcança temas como comércio digital, serviços de pagamento — incluindo o Pix —, propriedade intelectual e barreiras regulatórias.
O Brasil foi o primeiro país a ser tarifado através desse mecanismo. E a questão que fica é: estaria o Brasil se tornando um laboratório para a nova aplicação da Seção 301?
O ministro de Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente, Celso Amorim, conversam durante sessão especial de abertura da primeira reunião de sherpas da presidência brasileira do BRICS, no Palácio Itamaraty. Brasília (DF), 26 de fevereiro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 09.07.2026
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Seção 301 em outros momentos

Embora seja a primeira e única vez que a Seção 301 foi usada no segundo mandato do presidente Donald Trump, a ferramenta já foi aplicada no passado, até mesmo contra o Brasil.
Em 1988, durante o governo de Ronald Reagan, Washington respondeu com tarifas a chamada Política Nacional de Informática, que reservava parte do mercado de computadores, softwares e equipamentos eletrônicos para empresas nacionais. Paralelamente, outra investigação pressionou o país a ampliar a proteção de patentes, especialmente no setor farmacêutico.

Outras casos da 301 incluem, por exemplo, investigações contra a União Europeia por subsídios à indústria aeronáutica e pela tributação de serviços digitais; e contra a Índia por barreiras ao comércio eletrônico e dispositivos médicos. A guerra comercial desencadeada pelos EUA contra a China, durante o primeiro mandato de Trump, também foi fruto dessa legislação.

Como explica Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, ex-diretor da ApexBrasil e do Senado Federal, o episódio atual difere substancialmente de 1988. Diferentemente das investigações "contra o capitalismo de Estado chinês ou subsídios industriais em outra economias", a abordagem em relação ao Brasil foca na "modernização institucional e nos marcos regulatórios de uma democracia de mercado em consolidação".

"Enquanto, no passado, a disputa girava em torno de uma reserva de mercado rígida para a informática, hoje, o debate centraliza-se na governança de dados, ecossistemas modernos de pagamentos e na necessidade de alinhar as regras regulatórias com as melhores práticas de mercado global."

Para ele, o caso brasileiro se destaca por avaliar como ferramentas de sucesso doméstico, como o Pix, e políticas voltadas ao comércio eletrônico se relacionam com padrões internacionais de concorrência e propriedade intelectual.

"Outras ações buscavam conter desequilíbrios estruturais ou justificar retaliações tarifárias. O escopo atual procura estabelecer parâmetros para a integração de economias cada vez mais digitalizadas às regras do livre mercado global."

O então candidato à Presidência da Colômbia, Abelardo de la Espriella, faz aparição pública em carro blindado. Barranquilla, 21 de junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 15.07.2026
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Natali Hoff avalia que a principal diferença está na ampliação do escopo da investigação e na forma como Washington passou a usar a Seção 301, com o foco deixando de lado práticas comerciais específicas e abrangendo decisões judiciais, governança de dados, acordos comerciais e políticas ambientais.
Segundo a professora do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), isso torna a disputa mais complexa, pois a 301 deixa de contestar apenas barreiras comerciais e passa a questionar a forma como o Brasil regula sua economia e sua infraestrutura pública.
A gente não está falando dos Estados Unidos apresentando uma reclamação sobre uma prática comercial brasileira muito específica."

No caso do Pix, o relatório norte-americano trata o sistema de pagamentos como um "campeão nacional", favorecido pelo Estado e o Banco Central, caracterizado como um "concorrente" a bancos norte-americanos. Anteriormente, especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil refutaram essa alegação, destacando que o Pix é uma inovação tecnológica como qualquer outra em um processo de modernização.

Na avaliação da professora, a postura da Casa Branca é influenciada também por outros fatores, como a atuação de um lobby de grupos brasileiros em Washington, que acreditam que a atuação norte-americana pode facilitar a chegada da Onda Azul ao Brasil e ao conflito que se desenrola há um tempo entre as big techs e o governo brasileiro, em específico, o Supremo Tribunal Federal (STF).
Esses fatores contribuíram para endurecer a posição de Washington em relação ao Brasil, embora nenhum desses fatores, isoladamente, explique a adoção das sanções. "Há uma convergência entre Estado e mercado", avalia.
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O dilema de reciprocidade

Agora, a resposta do Brasil às investigações da Seção 301 também divide os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil entre uma estratégia mais conciliatória e outra voltada ao fortalecimento da autonomia brasileira em um cenário de crescente rivalidade geopolítica. Se o país deve aplicar a Lei de Reciprocidade ou não, a questão seria se teria capacidade de sustentar tal reação.
Para Coimbra, embora o país tenha o direito de contestar a investigação na Organização Mundial do Comércio (OMC), a crise enfrentada pelo órgão torna a via multilateral pouco eficaz. Negociações diretas e o alinhamento de normas regulatórias aos padrões internacionais tendem a produzir resultados mais rápidos e preservar a confiança dos investidores. O cientista político também considera que investigações desse tipo não afastam necessariamente investimentos estrangeiros.
De acordo com ele, o maior fator de insegurança é a existência de regras consideradas pouco previsíveis, enquanto reformas regulatórias poderiam, ao contrário, ampliar a atratividade do Brasil para o capital internacional.
Sede da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, Suíça, em 14 de fevereiro de 1997 - Sputnik Brasil, 1920, 17.10.2024
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Hoff concorda que a OMC atravessa um momento de forte enfraquecimento, mas defende que o Brasil recorra ao organismo caso considere que as medidas norte-americanas violam compromissos multilaterais. Para ela, a perda de efetividade da organização não elimina sua importância política nem o direito dos países de usarem os mecanismos disponíveis.
Sobretudo, avalia que o enfraquecimento do sistema multilateral prejudica principalmente economias médias, como a brasileira, que dispõem de menor capacidade de exercer pressão unilateral sobre grandes potências. Nesse cenário, Hoff defende que o Brasil aprofunde a diversificação de seus parceiros para reduzir vulnerabilidades.

"Se desenvolver, modernizar, crescer, decidir de maneira autônoma, manter sua soberania, manter os seus recursos mais preciosos e que trazem mais potencial econômico; a gente tem que colocar isso no centro e entender que a gente tem que sempre atuar tendo esses interesses em conta, e não adotar uma política, uma postura de alinhamento achando que isso vai resolver os nossos problemas."

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