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Oscilação pendular? Onda azul pode ser movimento permanente, avaliam analistas
Oscilação pendular? Onda azul pode ser movimento permanente, avaliam analistas
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Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicaram o fenômeno da eleição de presidentes de direita nas Américas, além das... 15.07.2026, Sputnik Brasil
2026-07-15T18:46-0300
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Abelardo de la Espriella, na Colômbia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko Fujimori, no Peru; e Rodrigo Paz, na Bolívia. Em um espaço de menos de um ano, quatro países da América do Sul trocaram governos de esquerda e centro-esquerda por políticos alinhados à direita.Esse fenômeno, nomeado de onda azul, é o oposto ao vivido na região no início do século XXI, quando países sul-americanos elegeram diversos líderes de esquerda, incluindo o Brasil, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que esse movimento pode não ser pendular, assim como foi em outras oportunidades ao longo das últimas duas décadas.Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acredita que esta seja uma profunda reconfiguração estratégica no continente. Para a analista, esse movimento é contrário à integração regional.Bressan destaca que os governos que assumiram recentemente a gestão de países sul-americanos não se caracterizam apenas por ser de direita, e muitas vezes pregam a tensão de instituições, implicando na instabilidade política dessas nações.Lier Pires Ferreira, pesquisador do Núcleo de Estudos dos Países do BRICS da Universidade Federal Fluminense (NuBRICS/UFF), explica que o distanciamento ideológico marcado por embates públicos e ausência em cúpulas de grupos multilaterais pode minar a capacidade de grupos como o Mercosul, que exigem decisões unânimes para avançar em pautas.Já para Bressan, o Mercosul é um dos poucos órgãos multilaterais sul-americanos que pode resistir a essa onda azul, embora a especialista admita que ele já está bastante debilitado com a mudança, capitaneada nos últimos anos pelo presidente da Argentina, Javier Milei.América Latina: o projeto conservadorVictor Cabral, doutorando em relações internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), declarou que a América Latina foi construída como "uma região conservadora" e que seus habitantes e governos foram "podados desde a colonização a não ter muita independência", em uma busca constante por freios progressistas, em especial, ao longo das ditaduras do século passado.No entendimento de Cabral, há uma grande insatisfação popular nas Américas com seus respectivos governantes. Não necessariamente o continente está se tornando mais de direita, mas sim anti-incumbente, que busca novos nomes para lidar com problemas antigos.Cabral ressalta que os governantes dessa chamada onda azul têm dificuldade de governar e colocar as ideias de campanha em prática.EUA podem retomar prestígio nas Américas?Bressan explica que os Estados Unidos sempre entenderam que deveriam se fazer presentes nas Américas. No entanto, após os ataques de 11 de Setembro, Washington voltou sua atenção para o Oriente Médio, abrindo espaço para que a China ocupasse um espaço que outrora era dos norte-americanos.A especialista destaca que, por mais que no discurso de presidentes de direita, como Milei, seja pregada a necessidade de se afastar de Pequim e se reaproximar de Washington, esse realinhamento "carece de sustentação empírica".
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Oscilação pendular? Onda azul pode ser movimento permanente, avaliam analistas
18:46 15.07.2026 (atualizado: 19:58 15.07.2026) Especiais
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicaram o fenômeno da eleição de presidentes de direita nas Américas, além das respectivas consequências, tanto para as próprias nações quanto para governos opositores.
Abelardo de la Espriella, na Colômbia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko Fujimori, no Peru; e Rodrigo Paz, na Bolívia. Em um espaço de menos de um ano, quatro países da América do Sul trocaram governos de esquerda e centro-esquerda por políticos alinhados à direita.
Esse fenômeno, nomeado de onda azul, é o oposto ao vivido na região no início do século XXI, quando países sul-americanos elegeram diversos líderes de esquerda, incluindo o Brasil, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que esse movimento pode não ser pendular, assim como foi em outras oportunidades ao longo das últimas duas décadas.
Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acredita que esta seja uma profunda reconfiguração estratégica no continente. Para a analista, esse movimento é contrário à integração regional.
"Essa nova onda azul com certeza tensiona para o enfraquecimento dos processos de integração, mas também para o enfraquecimento das organizações multilaterais de maneira geral. Nós temos uma mudança ideológica que muda, de fato, a rota estratégica da região."
Bressan destaca que os governos que assumiram recentemente a gestão de países sul-americanos não se caracterizam apenas por ser de direita, e muitas vezes pregam a tensão de instituições, implicando na instabilidade política dessas nações.
"A única exceção da região é o Uruguai, que, como nós sabemos, é um país de estabilidade, de instituições políticas estáveis e consolidadas, cujos governos, independentemente da ideologia, conseguem muitas vezes governar sem esse tensionamento."
Lier Pires Ferreira, pesquisador do Núcleo de Estudos dos Países do BRICS da Universidade Federal Fluminense (NuBRICS/UFF), explica que o distanciamento ideológico marcado por embates públicos e ausência em cúpulas de grupos multilaterais
pode minar a capacidade de grupos como
o Mercosul, que
exigem decisões unânimes para avançar em pautas.
"Há uma certa pressão interna dessas lideranças da onda azul para flexibilizar as amarras dos blocos comerciais. Na onda do pragmatismo, que está inserida nessa dinâmica, há uma perspectiva, há um desejo de que cada país tenha liberdade para negociar seus próprios tratados de livre comércio."
Já para Bressan,
o Mercosul é um dos poucos órgãos multilaterais sul-americanos que pode resistir a essa onda azul, embora a especialista admita que ele já está bastante debilitado com a mudança, capitaneada nos últimos anos pelo
presidente da Argentina, Javier Milei.
"A integração regional deveria ser sempre um projeto de Estado, não apenas de governo, para conseguir driblar essas diferenças, nuances, inclusive escapando de ser uma plataforma política. […] O Mercosul deveria ser uma plataforma de integração, de mais comércio."
América Latina: o projeto conservador
Victor Cabral, doutorando em relações internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), declarou que a América Latina foi construída como "uma região conservadora" e que seus habitantes e governos foram "podados desde a colonização a não ter muita independência", em uma busca constante por freios progressistas, em especial, ao longo das ditaduras do século passado.
"Somente no século XXI, com a eleição de alguns governos mais progressistas, principalmente na América do Sul, é que a gente começa a ver um momento realmente de diferença do padrão conservador que a gente tinha até então na nossa região. Esse movimento não existia, foi chamado de onda rosa, só que ele teve seu fim."
No entendimento de Cabral, há uma grande insatisfação popular nas Américas com seus respectivos governantes. Não necessariamente o continente está se tornando mais de direita, mas sim anti-incumbente, que busca novos nomes para lidar com problemas antigos.
"A gente tem graves problemas com segurança pública, com narcotráfico. As nossas economias estão estagnadas. Já desde a pandemia, a gente não conseguiu recuperar ainda o nosso ritmo de crescimento. A gente está com dificuldade em voltar a combater a desigualdade socioeconômica, e isso tudo impacta o desejo da população de querer votar, fazer diferente."
Cabral ressalta que os governantes dessa chamada onda azul têm dificuldade de governar e colocar as ideias de campanha em prática.
"Quando chegam ao cotidiano, eles se dão conta da vida burocrática, da necessidade de passar pelo Congresso, de ter que lidar com os Poderes, já que o Legislativo e o Judiciário servem como freios e contrapesos, principalmente para os arrombos autoritários que a gente vê na América Latina."
EUA podem retomar prestígio nas Américas?
Bressan explica que os Estados Unidos sempre entenderam que deveriam se fazer presentes nas Américas. No entanto, após os ataques de 11 de Setembro,
Washington voltou sua atenção para o Oriente Médio, abrindo espaço para que
a China ocupasse um espaço que outrora era dos norte-americanos.
"Naquele momento, o Brasil tentou exercer certa liderança na região. O próprio México também tentou uma liderança regional, mas, ao mesmo tempo, a China se tornou cada vez mais presente em vários âmbitos, em praticamente todos os países da região."
A especialista destaca que, por mais que no discurso de presidentes de direita, como Milei, seja pregada a necessidade de se afastar de Pequim e se reaproximar de Washington, esse realinhamento "carece de sustentação empírica".
"A China vem se consolidando como um grande parceiro comercial, importante fonte de investimentos em infraestrutura em grande parte dos países sul-americanos. Importante dizer que o Milei, ao longo da sua campanha de governo, duelou muito com a China, dizendo que não iria mais negociar com o país e, quando ele assumiu, se deu conta dos grandes investimentos chineses na região."
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