IA, desinformação e água: Rio Innovation Week debate impactos e desafios do avanço tecnológico
IA, desinformação e água: Rio Innovation Week debate impactos e desafios do avanço tecnológico
Sputnik Brasil
Programação desta quarta-feira (5) teve experiências com inteligência artificial, exposição de NFTs no NAM Atlântico e discussões sobre os impactos da... 05.08.2026, Sputnik Brasil
Robôs interagindo com visitantes, obras digitais exibidas dentro do maior navio de guerra da América Latina e discussões sobre os efeitos da desinformação marcaram o segundo dia do Rio Innovation Week, nesta quarta-feira (5), no Píer Mauá, na Zona Portuária do Rio de Janeiro.Ao longo dos armazéns, empresas, instituições públicas e artistas apresentaram experiências que iam da inteligência artificial ao blockchain, passando por games, instalações imersivas e projetos de infraestrutura. O movimento era intenso desde a entrada, onde luzes, música e painéis artísticos se misturavam.Entre as atrações que mais chamavam a atenção do público estava um robô humanoide que conversava, estendia a mão aos visitantes e posava para fotos. O detalhe inusitado ficava nos pés: a máquina circulava pelo evento usando um par de tênis.Entre a mão, a máquina e o navioAtracado no cais do Píer Mauá, o NAM Atlântico (A140), maior navio de guerra da América Latina e capitânia da esquadra brasileira, também integrou a programação do Rio Innovation Week. Com capacidade para operações aéreas, transporte de aeronaves e missões humanitárias, a embarcação recebeu atividades ligadas a tecnologia, games e arte digital.Foi dentro do navio que tomou forma uma exposição com obras de aproximadamente 300 artistas brasileiros ligados ao universo dos NFTs.NFT é a sigla em inglês para non-fungible token, ou token não fungível. Trata-se de um registro digital associado a uma rede blockchain usado para identificar a propriedade e a autenticidade de um ativo digital. Em conversa com a Sputnik Brasil, o artista e desenvolvedor Maikão comparou o recurso à numeração de uma edição limitada de automóveis.Segundo Maikão, esse universo não se limita às artes visuais. Também inclui música, obras produzidas com inteligência artificial e outros formatos digitais. O próprio artista trabalha com arquivos em MP3 registrados em blockchain.A tecnologia, no entanto, não elimina necessariamente as etapas tradicionais da criação. Maikão contou que o processo pode começar com referências simples do cotidiano, como um som, uma luz, uma nuvem ou um desenho na parede, e seguir tanto para um caderno quanto para o computador.Para ele, a inteligência artificial abriu um novo campo dentro da produção artística, sem necessariamente retirar espaço de quem trabalha com técnicas manuais."Tem artistas que fazem arte com IA, fazem música com IA, e já tem um nicho para tais pessoas. Para quê? Para o artista que gosta de fazer o manual, pegar no pincel e fazer uma arte, não perder o seu espaço dentro do ambiente artístico, né? Então a gente fez nichos para cada um estar no seu meio, sem deixar de se encontrar ali no final", explicou.A mentira também virou negócio?No painel sobre desinformação, o debate passou pela perda de confiança nas instituições, pela fragilidade da imagem como prova e pelos incentivos econômicos que mantêm conteúdos falsos em circulação.Presidente do Instituto Palavra Aberta, Patricia Blanco alertou sobre o risco de a desinformação se tornar parte normal do ambiente digital. "Acho que o pior cenário é a gente normalizar a desinformação e não enfrentar da forma como a gente deve enfrentar. Porque a desinformação causa efeitos, danos individuais e coletivos. Mas o principal dano coletivo é a gente deixar de acreditar nas instituições, deixar de acreditar em quem faz políticas públicas."A discussão também abordou uma mudança provocada pelo avanço de montagens, vídeos manipulados e conteúdos produzidos por inteligência artificial. Registros visuais, antes usados como evidência de que algo aconteceu, passaram a ser recebidos com mais desconfiança. Para o comunicador Matheus Sodré, esse cenário pode levar a uma sociedade incapaz de reconhecer provas comuns.Outro ponto discutido foi a transformação da desinformação em atividade econômica. O problema, segundo os participantes, deixa de ser apenas a existência de conteúdos falsos e passa a envolver uma estrutura capaz de produzir audiência, influência e receita.Pesquisador, professor e publicitário, Márcio Borges afirmou que a desinformação pode se tornar mais rentável do que a própria informação. Para ele, o fenômeno não deve ser entendido apenas como um efeito colateral do mercado informacional, mas como a base de um novo setor que prospera em uma área ainda pouco regulada.Ao longo da conversa, os participantes também destacaram que a construção de conhecimento depende de algum acordo sobre os fatos, ainda que existam interpretações diferentes sobre eles. Quando até a existência de uma evidência passa a ser contestada, fica mais difícil discutir causas, responsabilidades ou soluções.O debate colocou ainda em questão o uso da liberdade de expressão como argumento contra medidas de enfrentamento à desinformação. A conclusão foi que educação midiática e checagem continuam importantes, mas podem ser insuficientes enquanto houver incentivos econômicos para produzir e impulsionar conteúdos falsos.O futuro também depende de infraestruturaEm meio às discussões sobre inteligência artificial e expansão tecnológica, outra questão apareceu no evento de forma menos visível: a infraestrutura necessária para sustentar esse avanço. No Armazém 3, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE) apresentou ao público sua trajetória e projetos ligados ao futuro do abastecimento, entre eles o Novo Guandu.Lucas Cardoso, gerente de marketing da companhia, afirmou que o planejamento considera o crescimento da população e as demandas das próximas décadas.A questão ganha outra dimensão diante da perspectiva de expansão de data centers no Rio. Essas estruturas, responsáveis pelo armazenamento e processamento de grandes volumes de dados, dependem não apenas de energia, podendo demandar também grande quantidade de água em seus sistemas de refrigeração.Questionado pela reportagem sobre o aumento dessas demandas com a expansão da infraestrutura tecnológica, Cardoso destacou que a atuação atual da CEDAE está concentrada na captação e no tratamento da água, que depois é entregue às concessionárias responsáveis pela distribuição aos consumidores, e que, nesse contexto, a empresa investe muito em tecnologias e infraestrutura."O que a gente tem é uma preocupação em excesso com a qualidade da captação e do tratamento, e também com a produção. Então essa atividade produtora, essa mobilização toda é para isso, para a gente conseguir comportar tanto hoje quanto daqui a 10, 20 anos."
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IA, desinformação e água: Rio Innovation Week debate impactos e desafios do avanço tecnológico
Programação desta quarta-feira (5) teve experiências com inteligência artificial, exposição de NFTs no NAM Atlântico e discussões sobre os impactos da tecnologia na informação e na infraestrutura.
Robôs interagindo com visitantes, obras digitais exibidas dentro do maior navio de guerra da América Latina e discussões sobre os efeitos da desinformação marcaram o segundo dia do Rio Innovation Week, nesta quarta-feira (5), no Píer Mauá, na Zona Portuária do Rio de Janeiro.
Ao longo dos armazéns, empresas, instituições públicas e artistas apresentaram experiências que iam da inteligência artificial ao blockchain, passando por games, instalações imersivas e projetos de infraestrutura. O movimento era intenso desde a entrada, onde luzes, música e painéis artísticos se misturavam.
Entre as atrações que mais chamavam a atenção do público estava um robô humanoide que conversava, estendia a mão aos visitantes e posava para fotos. O detalhe inusitado ficava nos pés: a máquina circulava pelo evento usando um par de tênis.
Entre a mão, a máquina e o navio
Atracado no cais do Píer Mauá, o NAM Atlântico (A140), maior navio de guerra da América Latina e capitânia da esquadra brasileira, também integrou a programação do Rio Innovation Week. Com capacidade para operações aéreas, transporte de aeronaves e missões humanitárias, a embarcação recebeu atividades ligadas a tecnologia, games e arte digital.
Navio NAM Atlântico, da Marinha do Brasil, no Píer Mauá. Rio de Janeiro (RJ), 5 de agosto de 2026
Foi dentro do navio que tomou forma uma exposição com obras de aproximadamente 300 artistas brasileiros ligados ao universo dos NFTs.
NFT é a sigla em inglês para non-fungible token, ou token não fungível. Trata-se de um registro digital associado a uma rede blockchain usado para identificar a propriedade e a autenticidade de um ativo digital. Em conversa com a Sputnik Brasil, o artista e desenvolvedor Maikão comparou o recurso à numeração de uma edição limitada de automóveis.
"Eu gosto de dar o exemplo do carro. Vamos supor que você tem a Ferrari e só foram feitas dez Ferraris nesse modelo. O NFT trouxe a possibilidade de trazer a raridade para algo que é digital, o que atualmente era impossível. Se você tivesse uma imagem e eu copiasse, eu teria a mesma imagem. Então o NFT trouxe essa possibilidade de ser o proprietário desse ativo digital."
Segundo Maikão, esse universo não se limita às artes visuais. Também inclui música, obras produzidas com inteligência artificial e outros formatos digitais. O próprio artista trabalha com arquivos em MP3 registrados em blockchain.
A tecnologia, no entanto, não elimina necessariamente as etapas tradicionais da criação. Maikão contou que o processo pode começar com referências simples do cotidiano, como um som, uma luz, uma nuvem ou um desenho na parede, e seguir tanto para um caderno quanto para o computador.
"Tem artistas que fazem arte com IA, fazem música com IA, e já tem um nicho para tais pessoas. Para quê? Para o artista que gosta de fazer o manual, pegar no pincel e fazer uma arte, não perder o seu espaço dentro do ambiente artístico, né? Então a gente fez nichos para cada um estar no seu meio, sem deixar de se encontrar ali no final", explicou.
Maikão, artista e desenvolvedor, conversa com a Sputnik Brasil durante o Rio Innovation Week
No painel sobre desinformação, o debate passou pela perda de confiança nas instituições, pela fragilidade da imagem como prova e pelos incentivos econômicos que mantêm conteúdos falsos em circulação.
Presidente do Instituto Palavra Aberta, Patricia Blanco alertou sobre o risco de a desinformação se tornar parte normal do ambiente digital. "Acho que o pior cenário é a gente normalizar a desinformação e não enfrentar da forma como a gente deve enfrentar. Porque a desinformação causa efeitos, danos individuais e coletivos. Mas o principal dano coletivo é a gente deixar de acreditar nas instituições, deixar de acreditar em quem faz políticas públicas."
A discussão também abordou uma mudança provocada pelo avanço de montagens, vídeos manipulados e conteúdos produzidos por inteligência artificial. Registros visuais, antes usados como evidência de que algo aconteceu, passaram a ser recebidos com mais desconfiança. Para o comunicador Matheus Sodré, esse cenário pode levar a uma sociedade incapaz de reconhecer provas comuns.
"Eu acho que a gente caminha para o colapso da imagem enquanto forma verificadora da verdade e, portanto, para um colapso da verdade. A imagem, na verdade, não é mais confiável. E as instituições perdem confiança, e todo mundo perde confiança em tudo."
Robô interage com o público durante a Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro
Outro ponto discutido foi a transformação da desinformação em atividade econômica. O problema, segundo os participantes, deixa de ser apenas a existência de conteúdos falsos e passa a envolver uma estrutura capaz de produzir audiência, influência e receita.
Pesquisador, professor e publicitário, Márcio Borges afirmou que a desinformação pode se tornar mais rentável do que a própria informação. Para ele, o fenômeno não deve ser entendido apenas como um efeito colateral do mercado informacional, mas como a base de um novo setor que prospera em uma área ainda pouco regulada.
"Eu começo a imaginar que talvez a desinformação seja a sustentação de um mercado que antes não existia. E que é um mercado que, por não ter regulação, por operar ainda numa área cinzenta do aspecto regulatório, consegue prosperar. E esse é o dano com que a gente vai ter que lidar", destacou.
Ao longo da conversa, os participantes também destacaram que a construção de conhecimento depende de algum acordo sobre os fatos, ainda que existam interpretações diferentes sobre eles. Quando até a existência de uma evidência passa a ser contestada, fica mais difícil discutir causas, responsabilidades ou soluções.
O debate colocou ainda em questão o uso da liberdade de expressão como argumento contra medidas de enfrentamento à desinformação. A conclusão foi que educação midiática e checagem continuam importantes, mas podem ser insuficientes enquanto houver incentivos econômicos para produzir e impulsionar conteúdos falsos.
O futuro também depende de infraestrutura
Em meio às discussões sobre inteligência artificial e expansão tecnológica, outra questão apareceu no evento de forma menos visível: a infraestrutura necessária para sustentar esse avanço. No Armazém 3, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE) apresentou ao público sua trajetória e projetos ligados ao futuro do abastecimento, entre eles o Novo Guandu.
Ponto de hidratação da CEDAE no Rio Innovation Week
Lucas Cardoso, gerente de marketing da companhia, afirmou que o planejamento considera o crescimento da população e as demandas das próximas décadas.
"Como a população tem crescido, o mundo está mudando, a gente precisa já se programar para o que vai acontecer no futuro. Então o investimento da CEDAE está muito focado em grandes obras, para que as próximas gerações sejam beneficiadas", sublinhou à Sputnik.
A questão ganha outra dimensão diante da perspectiva de expansão de data centers no Rio. Essas estruturas, responsáveis pelo armazenamento e processamento de grandes volumes de dados, dependem não apenas de energia, podendo demandar também grande quantidade de água em seus sistemas de refrigeração.
Questionado pela reportagem sobre o aumento dessas demandas com a expansão da infraestrutura tecnológica, Cardoso destacou que a atuação atual da CEDAE está concentrada na captação e no tratamento da água, que depois é entregue às concessionárias responsáveis pela distribuição aos consumidores, e que, nesse contexto, a empresa investe muito em tecnologias e infraestrutura.
"O que a gente tem é uma preocupação em excesso com a qualidade da captação e do tratamento, e também com a produção. Então essa atividade produtora, essa mobilização toda é para isso, para a gente conseguir comportar tanto hoje quanto daqui a 10, 20 anos."
Tobias, robô desenvolvido pelo laboratório de inovação Bolha, de São Paulo, durante o Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de agosto de 2026
Tobias, robô desenvolvido pelo laboratório de inovação Bolha, de São Paulo, durante o Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro (RJ), em 5 de agosto de 2026
Painel sobre desinformação no Rio Innovation Week. Rio de Janeiro (RJ), 5 de agosto de 2026
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