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Do K-pop ao funk: o que o Brasil pode aprender com o soft power da Coreia do Sul
Do K-pop ao funk: o que o Brasil pode aprender com o soft power da Coreia do Sul
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Especialistas ouvidos pelo Mundioka discutem a importância para o Brasil de expandir seus mercados na Ásia e o que pode aprender com a Coreia do Sul. 07.08.2026, Sputnik Brasil
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Focando a estratégia de diversificação de parceiros e o multilateralismo, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Federação de Indústrias Coreanas (FKI, na sigla em inglês) realizaram a Brazil-Korea Business Roundtable no último dia 30. O evento contou com a assinatura formal de novos instrumentos de cooperação entre Brasil e Coreia do Sul nas áreas de comércio, tecnologia e inovação, dando sequência aos entendimentos iniciados durante a missão brasileira a Seul em fevereiro de 2026.Mediado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, no evento foram discutidos temas como manufatura e infraestrutura, indústrias avançadas e bens de consumo e distribuição. Também foram formalizados memorandos de entendimento entre empresas e instituições dos dois países.A agenda econômica também incluiu o avanço das negociações para a abertura do mercado sul-coreano à carne bovina brasileira — tratativa conduzida há cerca de 15 anos — e o interesse do Brasil em ampliar as exportações de frutas e café para o país asiático.Relação bilateral Brasil x Coreia do Sul"A Coreia do Sul é a segunda maior produtora de semicondutores do mundo e a maior produtora de chips que temos atualmente. […] é uma grande empreitada, justamente para diminuir a dependência entre a China, os Estados Unidos e a União Europeia", explica Nicole Almeida, bacharel em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora de migração e relações de trabalho na Coreia do Sul.Como aponta, os acordos firmados recentemente fortalecem a cooperação militar bilateral e abrem espaço para uma integração maior entre as indústrias dos dois países. Um dos exemplos é a escolha do cargueiro C-390 Millennium, da Embraer, pela Coreia do Sul, movimento que, na avaliação da pesquisadora, reforça a confiança mútua e amplia a presença da indústria brasileira de defesa no mercado asiático.Essa aproximação ocorre em um momento de profundas transformações no cenário de segurança da Ásia. Segundo Almeida, os conflitos recentes mostraram à Coreia do Sul que o país não pode depender exclusivamente dos Estados Unidos como principal aliado militar, e por isso vem acelerando investimentos em sua própria capacidade de defesa, seguindo uma tendência observada também no Japão.A península coreana sempre esteve cercada por grandes potências, tendo sido invadida e disputada por China e Japão. Com a intensificação das tensões entre China, Taiwan e Estados Unidos, e a crescente militarização da região, Seul busca diversificar suas parcerias estratégicas, dando outra camada de importância para o Brasil.Almeida ainda ressalta que essa capacidade de inovação e projeção internacional é resultado de uma estratégia de desenvolvimento construída ao longo de décadas, com uma industrialização marcada por forte coordenação do Estado, que adotou planos de desenvolvimento de longo prazo e direcionou investimentos para grupos empresariais nacionais, hoje conhecidos como chaebols — Samsung, Hyundai e LG são alguns exemplos."A Coreia do Sul é praticamente o milagre econômico da Ásia. Em cerca de 50 anos, saiu da miséria para figurar entre as 15 maiores economias do mundo." Para a pesquisadora, compreender esse processo ajuda a explicar por que o país se tornou uma referência em setores de alta tecnologia e um parceiro estratégico para o Brasil em áreas como semicondutores, defesa e inovação.Soft power sul-coreanoSobretudo, uma ponte que facilita essa relação é o soft power. Enquanto a Coreia do Sul consolidou sua influência global por meio de filmes, de séries e do K-pop, o Brasil tem ampliado sua presença cultural no exterior com o futebol e, mais recentemente, o funk e o trap, que ganharam popularidade entre artistas e jovens sul-coreanos. "Do ano passado para cá, ser brasileiro virou uma trend."Complementando, Carlos Gorito, colunista e apresentador de TV na Coreia do Sul, afirma que a cultura se tornou um dos principais instrumentos de política externa do país asiático. Embora o governo tenha desempenhado um papel importante na internacionalização da chamada Hallyu (onda coreana), esse processo foi sustentado por décadas de investimentos em educação e formação de capital humano."Quando a gente fala de Coreia, sempre se lembra dessa cultura popular, que transformou a imagem do país e se tornou hoje um dos principais instrumentos de política externa", afirma, dizendo que a expansão global do K-pop, dos doramas e da indústria do entretenimento ultrapassou o campo cultural e passou a gerar resultados econômicos concretos.Além de fortalecer a imagem da Coreia do Sul, esse movimento contribui para atrair investimentos, ampliar parcerias comerciais e impulsionar setores como turismo, cosméticos e produção audiovisual. Segundo ele, esse potencial é reconhecido pelas próprias lideranças políticas e integra a agenda das reuniões entre os presidentes brasileiro e sul-coreano.Sobretudo, Gorito também avalia que a aproximação entre Brasil e Coreia do Sul faz parte de uma estratégia de diversificação de alianças adotada por Seul desde o enfraquecimento de suas relações com a China, em meados de 2015 e 2016. Embora mantenha uma aliança estratégica com os Estados Unidos, a Coreia passou a buscar novos parceiros comerciais, voltando sua atenção para a América Latina.Gorito vê como principal desafio transformar essa imagem positiva do Brasil — no futebol, na música e na identidade — em um ativo econômico.Ele acrescenta que o sucesso da estratégia sul-coreana pode servir de referência para o Brasil: a difusão internacional da cultura coreana ajudou o país a bater recordes de turistas estrangeiros e impulsionou o consumo global de produtos e serviços ligados ao país. Para ele, o Brasil poderia seguir um caminho semelhante, convertendo sua influência cultural em novas oportunidades de negócios, investimentos e intercâmbio com mercados como o asiático.
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Do K-pop ao funk: o que o Brasil pode aprender com o soft power da Coreia do Sul
Especiais
Especialistas ouvidos pelo Mundioka discutem a importância para o Brasil de expandir seus mercados na Ásia e o que pode aprender com a Coreia do Sul.
Focando a estratégia de diversificação de parceiros e o multilateralismo, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Federação de Indústrias Coreanas (FKI, na sigla em inglês) realizaram a
Brazil-Korea Business Roundtable no último dia 30. O evento contou com a
assinatura formal de novos instrumentos de cooperação entre Brasil e Coreia do Sul nas áreas de comércio, tecnologia e inovação, dando sequência aos entendimentos iniciados durante a
missão brasileira a Seul em fevereiro de 2026.
Mediado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, no evento foram discutidos temas como manufatura e infraestrutura, indústrias avançadas e bens de consumo e distribuição. Também foram formalizados memorandos de entendimento entre empresas e instituições dos dois países.
A agenda econômica também incluiu o avanço das negociações para a abertura do mercado sul-coreano à carne bovina brasileira — tratativa conduzida há cerca de 15 anos — e o interesse do Brasil em ampliar as exportações de frutas e café para o país asiático.
Relação bilateral Brasil x Coreia do Sul
"A Coreia do Sul é a segunda maior produtora de semicondutores do mundo e a maior produtora de chips que temos atualmente. […] é uma grande empreitada, justamente para diminuir a dependência entre a China, os Estados Unidos e a União Europeia", explica Nicole Almeida, bacharel em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora de migração e relações de trabalho na Coreia do Sul.
Como aponta, os acordos firmados recentemente fortalecem a cooperação militar bilateral e abrem espaço para uma integração maior entre as indústrias dos dois países. Um dos exemplos é a escolha do cargueiro C-390 Millennium, da Embraer, pela Coreia do Sul, movimento que, na avaliação da pesquisadora, reforça a confiança mútua e amplia a presença da indústria brasileira de defesa no mercado asiático.
Essa aproximação ocorre em um momento de profundas transformações no cenário de segurança da Ásia. Segundo Almeida, os conflitos recentes mostraram à Coreia do Sul que o país não pode depender exclusivamente dos Estados Unidos como principal aliado militar, e por isso vem acelerando investimentos em sua própria capacidade de defesa, seguindo uma tendência observada também no Japão.
"Chegou um momento em que ou a Coreia investia na sua militarização, assim como o Japão está fazendo, ou ficava totalmente à mercê da boa vontade tanto dos Estados Unidos quanto das suas potências rivais."
A península coreana sempre esteve cercada por grandes potências, tendo sido invadida e disputada por China e Japão. Com a intensificação das tensões entre China, Taiwan e Estados Unidos, e a crescente militarização da região, Seul busca diversificar suas parcerias estratégicas, dando outra camada de importância para o Brasil.
Almeida ainda ressalta que essa capacidade de inovação e projeção internacional é resultado de uma estratégia de desenvolvimento construída ao longo de décadas, com uma industrialização marcada por forte coordenação do Estado, que adotou planos de desenvolvimento de longo prazo e direcionou investimentos para grupos empresariais nacionais, hoje conhecidos como chaebols — Samsung, Hyundai e LG são alguns exemplos.
"A Coreia do Sul é praticamente o milagre econômico da Ásia. Em cerca de 50 anos, saiu da miséria para figurar entre as 15 maiores economias do mundo." Para a pesquisadora, compreender esse processo ajuda a explicar por que o país se tornou uma referência em setores de alta tecnologia e um parceiro estratégico para o Brasil em áreas como semicondutores, defesa e inovação.
Sobretudo, uma ponte que facilita essa relação é o soft power. Enquanto a Coreia do Sul consolidou sua
influência global por meio de filmes, de séries e do K-pop, o Brasil tem ampliado sua presença cultural no exterior
com o futebol e, mais recentemente, o funk e o trap, que ganharam popularidade entre artistas e jovens sul-coreanos.
"Do ano passado para cá, ser brasileiro virou uma trend.""Como a Coreia do Sul está tendo muito espaço no consumo brasileiro, tenho certeza que a exportação da mídia brasileira para a Coreia, para a Ásia no geral, também vai fazer muito sucesso."
Complementando, Carlos Gorito, colunista e apresentador de TV na Coreia do Sul, afirma que a cultura se tornou um dos principais instrumentos de política externa do país asiático. Embora o governo tenha desempenhado um papel importante na internacionalização da chamada Hallyu (onda coreana), esse processo foi sustentado por décadas de investimentos em educação e formação de capital humano.
"Quando a gente fala de Coreia, sempre se lembra dessa cultura popular, que transformou a imagem do país e se tornou hoje um dos principais instrumentos de política externa", afirma, dizendo que a expansão global do K-pop, dos doramas e da indústria do entretenimento ultrapassou o campo cultural e passou a gerar resultados econômicos concretos.
Além de fortalecer a imagem da Coreia do Sul, esse movimento contribui para atrair investimentos, ampliar parcerias comerciais e impulsionar setores como turismo, cosméticos e produção audiovisual. Segundo ele, esse potencial é reconhecido pelas próprias lideranças políticas e integra a agenda das reuniões entre os presidentes brasileiro e sul-coreano.
Sobretudo, Gorito também avalia que a
aproximação entre Brasil e Coreia do Sul faz parte de uma estratégia de diversificação de alianças adotada por Seul
desde o enfraquecimento de suas relações com a China, em meados de 2015 e 2016. Embora mantenha uma aliança estratégica com os Estados Unidos, a Coreia passou a buscar novos parceiros comerciais, voltando sua atenção para a América Latina.
Gorito vê como principal desafio transformar essa
imagem positiva do Brasil — no futebol, na música e na identidade — em um ativo econômico.
"O que talvez tenha faltado ao Brasil, e que a Coreia fez muito bem, foi transformar esse soft power em um produto tangível, em algo que as pessoas vão consumir."
Ele acrescenta que o sucesso da estratégia sul-coreana pode servir de referência para o Brasil: a difusão internacional da cultura coreana ajudou o país a bater recordes de turistas estrangeiros e impulsionou o consumo global de produtos e serviços ligados ao país. Para ele, o Brasil poderia seguir um caminho semelhante, convertendo sua influência cultural em novas oportunidades de negócios, investimentos e intercâmbio com mercados como o asiático.
"A gente vê o número de filmes, de novelas coreanas crescendo, sendo apresentados em diferentes espaços […]. Como é que a gente pode começar a transformar isso [a cultura brasileira] num produto, em algo que vai ser consumido e desejado pelas pessoas?"
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