Crise do varejo brasileiro se agrava com juros altos, dívidas e modelo físico esgotado, diz mídia

© Foto / Paulo Pinto/Agência Brasil
Nos siga no
Com juros altos, endividamento das famílias e perda de força do modelo baseado em lojas físicas, as grandes redes do varejo no Brasil tentam reestruturar mais de R$ 68 bilhões em dívidas recorrendo a recuperações judiciais e extrajudiciais.
O endividamento crescente e a escalada da Selic criaram um ambiente que sufocou o varejo tradicional brasileiro, levando grandes redes a reestruturar mais de R$ 68 bilhões em dívidas por meio de recuperações judiciais ou extrajudiciais nos últimos dois anos e meio.
Desde o colapso da Americanas, em 2023, ao pedido de Casas Bahia e Marabraz, nesta semana, ao menos oito varejistas recorreram a esses mecanismos, cinco delas somente em 2026.
A Americanas inaugurou a sequência após revelar fraudes contábeis que resultaram em R$ 43 bilhões em dívidas. Depois vieram Dia, Polishop, Grupo Pão de Açúcar, Casa & Vídeo, Tok&Stok, Casas Bahia e Marabraz, todas pressionadas por um cenário de juros altos, crédito restrito e queda na capacidade de consumo das famílias.
De acordo com especialistas consultados por um jornal de grande circulação no país, diferentemente da Americanas, os casos recentes refletem o esgotamento do modelo tradicional baseado em lojas físicas. A Selic, que saltou de 2% no fim de 2020 para 14% ao ano, encareceu tanto o financiamento das empresas quanto o crédito ao consumidor, reduzindo demanda e asfixiando operações.
Mesmo com desemprego baixo, o endividamento das famílias — hoje em 49,8% da renda — limita compras de maior valor, como eletrodomésticos. Segundo a apuração, consultores afirmam que a renda disponível passou a ser absorvida por dívidas e novos gastos digitais, alterando hábitos de consumo e reduzindo o espaço para bens duráveis.
Além da macroeconomia, há uma mudança estrutural no varejo. Modelos que apostavam em expansão física agressiva, como o da Casas Bahia, perderam força diante do e-commerce, uma vez que a presença territorial deixou de ser prioridade, tanto para o consumidor quanto para as empresas, fazendo com que a sustentabilidade financeira e eficiência operacional fiquem no centro da problemática.
Para além disso, a mídia destaca que a falta de adaptação também pesa na equação do varejo. Enquanto empresas como Magalu migraram cedo para o digital, outras mantiveram estruturas inchadas e dependentes de lojas físicas, com custos operacionais e financeiros incompatíveis com juros elevados. A dispersão do consumo para plataformas digitais e serviços de comunicação reforça essa perda de relevância.
Analistas apontaram à mídia que a crise se concentra no varejo de bens duráveis, segmento mais sensível aos juros e à concorrência on-line. Redes de móveis e eletrodomésticos, dependentes de financiamento ao cliente e de grandes estruturas físicas, foram atingidas simultaneamente pela queda das vendas e pelo aumento dos custos.
Para especialistas, novas recuperações judiciais não estão descartadas, mas é importante ressaltar que esses processos resolvem o passado e não a capacidade das empresas de reestruturar operações, reduzir custos e adaptar modelos de negócio a um varejo cada vez mais digital e competitivo para se manterem relevantes no presente ou no futuro, conclui a publicação.


