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Milei privatiza rodovias enquanto Judiciário investiga desvio de verbas de manutenção viária

© AP Photo / Natacha PisarenkoO presidente da Argentina, Javier Milei, durante discurso em Buenos Aires, na Argentina, em 13 de agosto de 2023
O presidente da Argentina, Javier Milei, durante discurso em Buenos Aires, na Argentina, em 13 de agosto de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 26.08.2026
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O Poder Executivo argentino concedeu a gestão de oito corredores rodoviários a empresas privadas por um período de 20 anos, mesmo enquanto o Judiciário investiga o desvio de quase R$ 15,4 bilhões — recursos legalmente destinados à manutenção dessas vias.
O governo, liderado pelo presidente Javier Milei, avança com a privatização da rede rodoviária nacional, ao mesmo tempo em que autoridades investigam o suposto desvio de verbas legalmente arrecadadas para a sua conservação. A Casa Rosada concedeu a gestão de oito corredores a entidades privadas por 20 anos, coincidindo com um processo judicial que acusa o Executivo de utilizar esses recursos para cobrir o déficit fiscal.
Por meio da Resolução 1379/2026 do Ministério da Economia, publicada em 24 de agosto no Diário Oficial, a Direção Nacional de Estradas concedeu a exploração de oito trechos que totalizam aproximadamente 3.900 km de rodovias nacionais. Esses corredores abrangem 11 províncias, principalmente nas regiões litorânea e noroeste da Argentina.
A medida faz parte da Etapa III da Rede Federal de Concessões, um plano que designou a empresa estatal Corredores Viales Sociedad Anónima para privatização sob a chamada "Lei de Bases", promulgada no início da gestão. Com essa concessão, a extensão total de rodovias sob gestão privada chega a 9.000 km — rotas que concentram quase 80% do tráfego do país, segundo dados oficiais.
O anúncio ocorre no momento em que o Judiciário federal avança na investigação sobre o fundo fiduciário do Sistema Integrado de Vias (SisVial), financiado por um imposto sobre combustíveis líquidos e legalmente destinado à manutenção das rodovias nacionais. Entre janeiro de 2024 e maio de 2026, o fundo arrecadou 1,5 trilhão de pesos — aproximadamente R$ 5,1 bilhões —, dos quais apenas 26,2% foram efetivamente gastos em obras viárias.
O restante, equivalente a mais de R$ 3,8 bilhões, permaneceu parado em depósitos a prazo e títulos públicos, segundo uma investigação jornalística que motivou denúncias judiciais. O juiz federal Ernesto Kreplak aceitou uma ação coletiva e ordenou que o Ministério da Economia, a Direção Nacional de Rodovias e o Banco Nación informassem sobre o destino desses recursos.
A província de La Rioja, no norte do país e governada pelo partido peronista de oposição, ingressou nesta semana como parte autora na ação penal que investiga o suposto desvio de verbas. A denúncia original, apresentada pela deputada peronista Victoria Tolosa Paz, pede uma investigação para apurar se autoridades governamentais cometeram peculato e gestão fraudulenta de recursos públicos.
O porta-voz da presidência, Adrián Ravier, rejeitou as acusações, sustentando que não houve irregularidades no uso dos recursos do SisVial. No entanto, o representante oficial reconheceu que parte da receita é utilizada para manter o equilíbrio das contas públicas — um pilar central do programa econômico do governo — em um período de severa austeridade fiscal.
Para o Poder Executivo, o superávit fiscal é a principal prova do sucesso de sua gestão econômica. A privatização das rodovias segue a mesma lógica: o governo sustenta que o novo modelo de concessão operará sem subsídios estatais, sendo financiado integralmente por pedágios, e busca superar o que descreve como um modelo de administração rodoviária deficitário.
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O custo da austeridade

"Isso tem um impacto significativo, pois o governo nacional reconheceu que os recursos não estão sendo destinados para onde deveriam. É uma acusação grave que precisa ser tratada com seriedade", disse à Sputnik Fabián Catanzaro, líder do sindicato dos trabalhadores rodoviários nacionais e autor de uma das ações judiciais.
O sindicalista alertou que as autoridades "se expõem a uma série de processos, uma vez que o número de acidentes e mortes nas estradas aumentou drasticamente".
Catanzaro quantificou o custo de oportunidade dos recursos retidos pelo governo nacional.

"Ter esses recursos disponíveis hoje teria sido crucial: poderíamos ter realizado a manutenção de 20 mil quilômetros de estradas, ou até mesmo construído entre 3 mil e 4 mil quilômetros de novas vias com essas mesmas verbas, que atualmente estão bloqueadas."

O líder sindical detalhou a extensão da deterioração do setor.

"Em dezembro de 2023, 50% da rede rodoviária nacional apresentava condições de regulares a precárias. Hoje, estamos diante de quase 75% [...]. A cada ano em que a manutenção é negligenciada, o pavimento perde entre três e cinco anos de sua vida útil."

Catanzaro citou dados sobre segurança viária: "Encontramos uma correlação entre as condições das vias e os acidentes. Mais de 60% das ocorrências viárias durante o período do estudo aconteceram em trechos em más condições", concluiu ele, com base em um levantamento realizado pelo próprio sindicato sobre uma amostra de acidentes de trânsito.
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Um superávit com ressalvas

Ao ser consultado pela Sputnik, o economista Miguel Ponce argumentou que o superávit fiscal alardeado pelo governo não se sustenta em bases sólidas.
"Isso confirma o que muitos de nós já vínhamos dizendo: o equilíbrio fiscal não foi alcançado por meios sustentáveis", observou. Ele acrescentou que "isso envolve uma dívida pendente com um setor que exige investimentos constantes e é altamente sensível".
O especialista alertou que esse esquema está começando a mostrar seus limites.
"Ele começa a apresentar fissuras quando as receitas começam a encolher. O próprio modelo desencadeia um processo recessivo — reduzindo os níveis de atividade econômica, de vendas e de arrecadação de impostos —, o que leva à necessidade de um novo aperto fiscal."
O analista associou a meta fiscal às exigências de instituições às quais o país deve dinheiro, como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
"Existe uma narrativa que eles pretendem manter para fins eleitorais, e o superávit fiscal ajuda, de certa forma, a mostrar ao FMI que estão sendo feitos esforços para cumprir os compromissos estabelecidos no atual acordo."
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