Europa resiste em reconhecer Zelensky como o ditador sanguinário que ele é, diz especialista
19:15 03.09.2026 (atualizado: 19:48 03.09.2026)

© AP Photo / Oleg Petrasyuk
Nos siga no
Especiais
À Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a sinalização de diálogo de Putin para solucionar o conflito é boa, mas será preciso disposição do lado ucraniano, e apontam que "há algo estranho" na resistência da Europa em apoiar a busca pela paz.
O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou nesta quinta-feira (3) que há uma chance de resolver o conflito na Ucrânia. A fala foi proferida em discurso na 11ª edição do Fórum Econômico do Oriente, em Vladivostok.
O líder russo destacou que vários países, incluindo China e EUA, estão dispostos a apoiar uma solução pacífica, mas frisou que, "em última análise, o problema deve ser resolvido pelas próprias partes em conflito".
"Somos gratos a todos que tentam contribuir para uma solução. Existe uma chance? Na minha opinião, sim, existe", disse Putin.
A afirmação trouxe uma centelha de luz após quatro anos de conflito, mas declarações hostis dadas pelo ucraniano Vladimir Zelensky seguem colocando em dúvida o engajamento de Kiev em um processo de paz. Recentemente, por exemplo, ele disse que os drones ucranianos tornariam o espaço aéreo russo completamente inseguro enquanto o conflito durar.
No discurso desta quinta-feira, Putin classificou as declarações de Zelensky como terrorismo de Estado e criticou o silêncio de aliados ocidentais de Kiev, afirmando que isso os torna cúmplices de terrorismo. Ele enfatizou que a Ucrânia está atacando alvos puramente civis, forçando a Rússia a responder na mesma moeda "para que eles não se atrevam a nos prejudicar".
"A Rússia presumia que instalações civis não poderiam ser alvo de ataque, mesmo em condições de conflito, mas estava enganada, o oponente pensa o contrário [...] E, a julgar por tudo, nossa resposta, no geral, provou ser bastante significativa para aqueles que abriram esta caixa de Pandora", advertiu o líder russo.
Ele também citou a mobilização forçada na Ucrânia, e disse que as perdas de Kiev no front superam significativamente o número de pessoas recrutadas à força.
À Sputnik Brasil, Ricardo Cabral, professor de história e especialista em história militar e conflitos internacionais, diz considerar que há disposição da Rússia em resolver o conflito por vias pacíficas desde a eclosão, em fevereiro de 2022.
"Nós temos mais de quatro anos de guerra, quatro anos e meio, foi um desperdício de vidas e recursos, já que poderia ser resolvido", afirma.
© Sputnik Brasil
Cabral avalia que a posição da Rússia de buscar uma paz duradoura é interessante porque a criação de uma zona tampão, como foi feito na Coreia, não resolveria o problema.
Segundo ele, o correto seria um tratado de paz entre as partes, onde as populações russas que agora fazem parte da Rússia sejam reconhecidas e a Ucrânia tenha um status de neutralidade, não seja usada como "ponta de lança" dos interesses extracontinentais no sentido de atingir a Rússia ou a Europa. E a gestão do presidente dos EUA, Donald Trump, é um terreno mais fértil nesse sentido.
"Com os republicanos, a relação tem sido melhor nos últimos anos. Há mais convergência de interesses e valores do que as administrações democratas [...] nos dois últimos anos do governo Biden não houve qualquer contato entre russos e americanos, isso é muito ruim. A Rússia é a maior potência nuclear do planeta, ela é a maior produtora de petróleo, produz urânio em grande quantidade, grandes recursos naturais, a produção russa é fundamental para o equilíbrio econômico do mundo."
Porém, no recorte da Europa, ele acrescenta que parte da resistência do continente em contribuir para um processo de paz se dá porque uma fatia da liderança europeia é russófoba.
"E também tem interesses econômicos muito fortes no financiamento da Ucrânia. E a gente aqui não vai ser leviano de fazer acusações, mas o regime [de Kiev], nós estamos na terceira equipe de governo ucraniano, sendo que as duas anteriores, todas foram afastadas por crimes de corrupção. E você vê a União Europeia enfiando cada vez mais dinheiro lá. Tem alguma coisa estranha nisso aí."
Outro ponto destacado pelo especialista é a postura de dois pesos e duas medidas em relação às ações ucranianas. Ele frisa que as declarações de Zelensky sobre atacar a aviação russa configuram crime de guerra, como Putin afirmou em seu discurso, e avalia, hipoteticamente, que, se a declaração tivesse partido da Rússia, a visão ocidental seria outra, completamente diferente.
"Quando o Zelensky fala que vai atacar aeroporto civil, isso é crime de guerra. 'Ah, vou atacar os aeroportos de Moscou'. Por quê? Eles estão sendo usados como bases militares para atacar a Ucrânia? Não. Ele [Zelensky] está atacando para provocar terror, para atiçar a população, para dizer, 'Olha só, vocês não estão seguros, o governo russo não provê a segurança de vocês'. Esse é o objetivo, minar politicamente o governo russo."
Diante disso, Cabral afirma que a Europa está evitando reconhecer Zelensky "como o que ele é, um ditador sanguinário".
"Ele é um ditador, temos informações disso, já tivemos caso de inimigos políticos do Zelensky presos, alguns são presos políticos e outros foram simplesmente eliminados. E a Europa não chama o Zelensky daquilo que ele é: ele é um ditador sanguinário que está destruindo o seu povo em troca de alguns dólares e euros que recebe da União Europeia."
© Sputnik Brasil
Sobre as mobilizações forçadas, Cabral afirma que a Ucrânia, atualmente, tem a menor natalidade do mundo e parte significativa de sua população ativa fora do país, fugindo do conflito. Segundo ele, isso terá reflexos em mais de uma geração futura.
"A Ucrânia tem uma dívida geracional de mais de uma geração, não vai pagar essa dívida de guerra nem nessa e nem na próxima geração. O país está completamente destruído e deve ser ainda mais, porque eu não consigo ver os ucranianos fazendo uma negociação séria que implique concessões para que se possa chegar à paz."
Rodolfo Laterza, analista, pesquisador geopolítico, militar e diretor do Instituto de Altos Estudos em Segurança, Geopolítica e Conflitos (GSEC), considera que o conflito ucraniano será resolvido apenas conforme a visão e necessidade estratégica do Kremlin, "equacionando as causas e origens da guerra e conforme a realidade no terreno".
Ele acrescenta que o Ocidente coletivo há tempos demoniza a Rússia e deliberadamente ignora as ações contra civis no país. Segundo ele, essa postura se enquadra no âmbito da guerra cognitiva do Ocidente contra a Rússia.
"Desde 2014, os ataques a civis em Donbass se tornaram comuns e legitimados, inclusive com parcialidade da OCSE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico], que monitorava a linha de contato. A mídia corporativa ocidental nunca fez uma cobertura factual e isenta desse detalhe."
Na visão de Laterza, o regime de Kiev não tem como oferecer à Ucrânia capacidade de combate para manter o conflito sem recrutamento forçado de massa humana.
"A escassez de pessoal é tão crônica que já há preparação para mobilização de mulheres, além de mudança dos padrões de recrutamento de categorias sociais outrora isentas, como deficientes físicos e mentais. Isso se correlaciona com a estratégia da guerra até o último ucraniano."
João Pedro Guedes, pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES), afirma que desde o início do conflito foi criada uma narrativa colocando os dois lados em uma espécie de espetacularização, onde há um herói e um vilão. E para a mídia ocidental, nessa construção, o herói é a Ucrânia, enquanto a Rússia seria a vilã. Por isso, ele avalia que as declarações de Zelensky não foram condenadas.
"Porque nesse contexto épico de espetacularização do conflito, a Ucrânia foi colocada como o herói. Então, o herói está acima do bem e do mal. E dessa história, se fosse ao contrário, se a Rússia tivesse dito isso, ela seria condenada porque nessa história ela é a vilã", pondera.
Guedes considera que a sinalização do presidente russo em direção ao diálogo é boa, porque simboliza disposição para buscar uma saída diplomática para um conflito que já dura quatro anos.
"Em termos de sinalização, é um bom sinal, significa disposição para dialogar, disposição para encontrar uma saída diplomática, e em termos de oportunidade é a melhor desde 2022, quando começou o conflito. Então a Rússia precisa explorar essa oportunidade ao máximo para pôr um fim a esse conflito agora ou nunca", afirma.
Apesar disso, ele diz ver com cautela a relação entre a Rússia e os EUA, "principalmente pela parte de Trump, não pela parte de Putin".
"Porque ele [Trump] é uma pessoa muito instável, a psique dele, o psicológico dele, em análise de política externa, quando se analisa a psicologia do líder, ela é muito volátil, ele muda muito de opinião como a pessoa troca de roupa. Então hoje ele pode ter uma opinião favorável à Rússia, mas amanhã pode mudar", avalia o especialista



