- Sputnik Brasil, 1920
Panorama internacional
Notícias sobre eventos de todo o mundo. Siga informado sobre tudo o que se passa em diferentes regiões do planeta.

Análise: BRICS deve oferecer financiamento à União Africana para desenvolvimento de infraestruturas

© Sputnik / Maksim Blinov / Acessar o banco de imagensO ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov (à esq.), e o comissário da União Africana para Assuntos Políticos, Paz e Segurança, Bankole Adeoye (à dir.), em uma reunião em Moscou. Rússia, 11 de junho de 2026
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov (à esq.), e o comissário da União Africana para Assuntos Políticos, Paz e Segurança, Bankole Adeoye (à dir.), em uma reunião em Moscou. Rússia, 11 de junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 28.09.2026
Nos siga no
Especiais
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicaram benefícios da parceria e desmistificaram pensamento de uma neocolonização de países como China e Rússia na África de hoje.
A União Africana defendeu, após a última cúpula do BRICS, em Nova Deli, capital da Índia, o reforço da aliança entre o grupo e o continente africano, sobretudo no que diz respeito ao financiamento de infraestruturas de energia e água, além de novas oportunidades para a diversificação de parcerias e a ampliação dos investimentos em projetos estratégicos.
O presidente rotativo da União Africana e do Burundi, Évariste Ndayishimiye, declarou que o acesso à água potável e ao saneamento são as principais prioridades do grupo continental para 2026, segundo comunicado.
Mundioka #975 - Sputnik Brasil, 1920, 28.09.2026
Mundioka
União Africana bate à porta do BRICS?
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas são favoráveis ao Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) — mais conhecido como Banco do BRICS — para financiar obras nos países que compõem a União Africana. De acordo com os analistas, o tipo de apoio que as nações do BRICS prestam ao continente africano é completamente diferente do que o Ocidente ofereceu outrora.
Mamadou Diallo, doutor em estudos estratégicos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conta que esse pedido de apoio da União Africana não é recente. Em 2013, o grupo já solicitava um aprofundamento das relações com o BRICS, em uma tentativa de fugir das relações tradicionais com a Europa e os Estados Unidos.
Diallo destacou que os países africanos estiveram entre os que mais cresceram entre 2001 e 2010, parte deles recebendo investimentos de nações do BRICS, como Brasil, China, Índia e Indonésia. Embora o Banco do BRICS não tenha capital para atender a todas as demandas africanas, o grupo do Sul Global pode dar início a uma revolução no continente.

"Quem está por trás do Banco do BRICS? Quem coloca dinheiro no banco? A gente tem China, a gente tem Rússia, o Brasil está ali. Então tem recurso, eles têm capacidade de financiar grande parte desses projetos."

Para o especialista, a África possui tudo o que um investidor procura: recursos, demanda e, em especial, mercado. O analista ressalta que mais de 60% da população do continente é jovem, o que significa um expressivo mercado consumidor ao longo das próximas décadas.
Apesar dos avanços em questões de infraestrutura, como estradas, portos e saneamento, Diallo ainda vê grande necessidade de desenvolvimento desses pontos na África.
"Lembre-se de que a gente tem, ainda no continente africano, grande parte das terras aráveis, grande parte das reservas de recursos estratégicos que estão sendo buscados no sistema internacional ou na economia global. Então, grande parte dos países tem recursos suficientes. Eles têm condições de arcar com garantias para compensar financiamentos que são feitos a longo prazo."
Éden Pereira, professor de história, doutorando em história comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do Grupo de Estudos 9 de Maio e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), explica que a África é vista pelo BRICS como uma fronteira de expansão política e diplomática.
Para exemplificar a fala, Pereira destaca a entrada do Egito e da Etiópia no grupo, assim como o status de parceiros associados de Nigéria e Uganda.

"Vejo como um interesse muito grande da parte dos países africanos de estarem estreitando esses laços com o BRICS como uma forma de poder fortalecer internamente as suas condições para obter uma soberania política e econômica perante as antigas metrópoles coloniais […] e também, em alguma medida, poderem se posicionar internacionalmente enquanto atores extremamente importantes no que diz respeito às suas agendas próprias."

Pereira conta que os países da África ainda têm dificuldade para acessar um financiamento que seja capaz de fomentar capacidades produtivas, já que, para grupos econômicos ocidentais, o interesse é investir em projetos que possam gerar dividendos em juros. O Banco do BRICS, por sua vez, aparece como um ator que pode contribuir a partir de projetos conjuntos que desenvolvam as capacidades produtivas de cada país-cliente.

"Esse é um diferencial muito grande com relação às iniciativas por parte do BRICS, sobretudo do Novo Banco de Desenvolvimento, de tentar justamente se colocar enquanto uma instituição que atua em favor do desenvolvimento de questões materiais concretas nos países."

Para Pereira, há apenas um grande empecilho para que projetos entre o BRICS e os países africanos saiam do papel: o dólar. A ancoragem das transações entre as partes com base na moeda norte-americana dificulta que o grupo se descole do sistema-dólar.
"É necessário que os países do BRICS pensem em uma maneira de, aos poucos ou paulatinamente, desenvolver uma associação entre o Banco de Desenvolvimento dos BRICS e as iniciativas de desdolarização para que também esses projetos de financiamento, que são desenvolvidos em conjunto com não apenas os países africanos, mas diversos outros países, sejam cada vez menos afetados pelo dólar."
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, discursa durante a 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, na sede da ONU. - Sputnik Brasil, 1920, 23.09.2026
Panorama internacional
'Refém dos poderosos': crise na ONU expõe limites do multilateralismo e urgência por renovação

BRICS estão colonizando a África?

A discussão de investimentos estrangeiros na África pode remeter para alguns os tempos em que os colonizadores europeus partilharam o continente e iniciaram a extração das riquezas locais. Após deixarem o território africano, a metrópole continuou a exercer influência sobre a economia local, dominando os povos da área, ainda que não mais de forma oficial.
Diallo é claro: a antiga dependência africana em relação à Europa não tem como ser replicada e, hoje, não se deve pensar que os países do continente estão na mesma posição. O especialista destaca que, atualmente, as nações da África possuem políticas, estratégias e articulações que norteiam suas negociações com investidores internacionais.
Para o analista, uma visão de que os africanos podem ser explorados economicamente de novo carrega uma carga de racismo, dada a perspectiva de que eles seriam incapazes de saber quais são os seus interesses.

"Claro que tem um grande discurso, principalmente ocidental, e isso faz parte da disputa pelos recursos, pelos espaços de que os africanos estão substituindo a colonização europeia pela colonização chinesa, só que isso é um discurso que vem há muito tempo. […] Isso é discurso de quem está de fora. Não acredito que haja substituição de uma colonização por outra. Acho que a gente tem que entender que a era das colonizações acabou, apesar de que tem gente que não entende isso hoje."

Diallo também explica que os países da África não querem meramente financiamentos para os projetos, mas também a transferência de tecnologia embarcada nessas empreitadas.

"Diria que esses países [do BRICS] têm capacidade de ajudar bastante ou de contribuir bastante com o desenvolvimento de infraestruturas e de tecnologia do continente africano, ajudando a transformar [o continente]. Hoje, não tem outra opção: qualquer país africano que pense em continuar uma relação com as que vinham sendo desenvolvidas desde a década de 1960, ele não vai prosperar."

Pereira destaca que o BRICS tem a seu favor o processo de agregar potências regionais ao grupo de maneira coordenada para manter o equilíbrio. As características dessa expansão, baseadas no consenso, contrapõem-se ao que é visto dentro do Conselho de Segurança da ONU.
"Esse princípio [de consenso] foi se perdendo na ONU, mas no BRICS a gente vê o restabelecimento desse princípio, que é muito importante em nível internacional e que, no BRICS, nós vemos isso sendo reafirmado cúpula após cúpula. E com a entrada dos países africanos no BRICS, nós vemos justamente que evidentes conflitos vão surgir, mas que esses conflitos, inclusive dentro do continente africano, vão tender a ser resolvidos a partir desse princípio do consenso."
Logo da emissora Sputnik - Sputnik Brasil
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.

Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).

Feed de notícias
0
Para participar da discussão
inicie sessão ou cadastre-se
loader
Bate-papos
Заголовок открываемого материала