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UE prefere que população pague a conta do aumento do custo de vida a negociar com a Rússia?
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Os protestos que eclodiram na França em meados de setembro tomaram conta de países vizinhos. A reclamação das populações? O aumento do custo de vida... 28.10.2026, Sputnik Brasil
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Teria chegado a hora de a Europa afastar o "fantasma da ameaça russa" para mitigar a crise?A jornalista Ana Paula Andreolla tem acompanhado o desenrolar das manifestações nas ruas de Paris. Nos últimos finais de semana, cenas de violência marcaram toda a França, quando pelo menos meio milhão de pessoas foram protestar. À Sputnik Brasil, ela conta o que viu.Nos protestos do último fim de semana, "foram mais de 600 policiais e bombeiros que ficaram feridos nos confrontos contra os manifestantes", completou.Ela confidenciou, ainda, que a polícia "utilizou granadas que tinham sido proibidas em outras manifestações", uma vez que já causaram ferimentos graves. Nos protestos do último dia 17, uma amiga de Andreolla não conseguiu chegar ao ato porque a polícia fazia dispersão com gás lacrimogêneo.Para ela, a fatura salgada do conflito ucraniano, deixada na mesa da União Europeia (UE) pelos Estados Unidos, e a crise energética afetaram de maneira severa o continente.A jornalista acrescenta que o Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos Econômicos (INSEE, na sigla em francês), da França, mostra que seis a cada dez franceses reduziram o consumo de alimentos por causa da alta dos preços. Além disso, nos últimos dez anos, os alimentos na França ficaram quase 35% mais caros, e, desse percentual, mais de 20% correspondem ao período pós-conflito na Ucrânia.O presidente francês, Emmanuel Macron, sabe que a crise energética é um elemento fundante dos atos que acontecem não só no seu país, mas também nos aliados europeus. Por isso, na última semana, ele visitou países do Golfo, centrado em abastecimento de energia.Por sua vez, o presidente Vladimir Putin, durante a VIII Cúpula do Fórum dos Países Exportadores de Gás (GECF, na sigla em inglês), em Moscou, na terça-feira (27), afirmou que a Europa prejudica sua própria indústria e seu setor social ao renunciar ao gás russo.Giovana Branco, doutoranda em ciência política da Universidade de São Paulo (USP), destaca que as sanções aos insumos energéticos russos contribuem diretamente para o aumento dos preços de energia na Europa, que foi agravado pela situação no Oriente Médio. Em ambos os casos, reforça, esperava-se uma atuação rápida e eficiente, o que não aconteceu."Os países europeus se engajaram em narrativas antirrussas logo no início do conflito, talvez também por esperar uma crise rápida. Porém fica claro que não é possível excluir a Rússia da economia e da política globais. Mas, como muitos líderes assumiram posições duras contra a Rússia, o espaço de negociação diminuiu", diz a analista.De acordo com Lucas Mendes, professor de geografia e geopolítica, criador da página Geopolítica Hoje, a União Europeia, ao cortar relações com a Rússia, também prometeu diversificar a compra de insumos energéticos. O bloco até conseguiu, mas a um alto custo, que foi repassado aos europeus."A União Europeia passou a comprar mais gás e petróleo dos Estados Unidos, do Catar, de outros países do Oriente Médio e do norte da África. Entretanto, essa substituição trouxe custos adicionais relacionados ao transporte, à infraestrutura e às condições de fornecimento."Agora, em meio à crise, o discurso sobre "a ameaça russa" vem se desgastando entre os cidadãos, embora alguns grupos ainda o defendam, diz Branco.A Alemanha, segundo a doutoranda da USP, é um ótimo exemplo de política externa guiada por ideias, não pela realidade da população. O chanceler alemão, Friedrich Merz, tem índice de aprovação em torno de 10%, o menor patamar para um líder federal da história das pesquisas, realizadas desde 1997.Enquanto os alemães criticam as constantes visitas de Merz a Kiev, e com a transferência para a Ucrânia de dinheiro do qual a própria Alemanha precisa, o chanceler afirma que a influência da Rússia sobre a sociedade alemã é sua maior preocupação atual.De acordo com Mendes, muitos partidos que apoiaram as sanções contra a Rússia, e o fechamento do mercado energético russo, mesmo cientes das perdas econômicas que isso provocaria, continuam no poder. Em alguns países, porém, já houve mudanças políticas. "A Eslováquia é um exemplo expressivo. Mesmo onde os governos que apoiam essas políticas continuam no poder, como na França, na Alemanha e na Itália, é possível perceber um desgaste desse apoio à Ucrânia entre setores do eleitorado."Para a retomada do comércio com a Rússia como o caminho mais realista para a Europa recuperar sua competitividade industrial e reduzir o custo de vida, Branco acena positivamente, mas pondera: "Aqui, na Rússia, estamos pensando em um cenário pós-conflito em que as sanções permaneçam. A verdade é que as relações foram muito fragilizadas durante os últimos anos, então dificilmente veremos uma reversão rápida. É possível que a nova norma seja essa, mesmo que isso custe muito para as populações europeias". Ou seja, os europeus deverão continuar pagando caro para se proteger do "fantasma russo".
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UE prefere que população pague a conta do aumento do custo de vida a negociar com a Rússia?
16:25 28.10.2026 (atualizado: 17:58 28.10.2026) Especiais
Os protestos que eclodiram na França em meados de setembro tomaram conta de países vizinhos. A reclamação das populações? O aumento do custo de vida, diretamente ligado à crise energética causada pelas próprias sanções europeias ao mercado energético russo.
Teria chegado a hora de a Europa afastar o "fantasma da ameaça russa" para mitigar a crise?
A jornalista Ana Paula Andreolla tem acompanhado o desenrolar das manifestações nas ruas de Paris. Nos últimos finais de semana, cenas de violência marcaram toda a França, quando pelo menos meio milhão de pessoas foram protestar. À Sputnik Brasil, ela conta o que viu.
"Em Paris, a polícia abordou quase mil pessoas só no sábado [17]. É um recorde na história de manifestações na capital francesa. Em toda a França, acho que foram cerca de 2 mil pessoas abordadas, e cerca de 500 ainda estão presas. E dessas 500, quase 200 são adolescentes."
Nos protestos do último fim de semana, "foram mais de 600 policiais e bombeiros que ficaram feridos nos confrontos contra os manifestantes", completou.
Ela confidenciou, ainda, que
a polícia "utilizou granadas que tinham sido proibidas em outras manifestações", uma vez que já causaram ferimentos graves.
Nos protestos do último dia 17, uma amiga de Andreolla não conseguiu chegar ao ato porque a polícia fazia dispersão com gás lacrimogêneo.
Para ela, a fatura salgada do conflito ucraniano, deixada na mesa da União Europeia (UE) pelos Estados Unidos, e a crise energética afetaram de maneira severa o continente.
"A indústria alemã, por exemplo, foi extremamente impactada, com anúncios constantes de demissões em massa. E até na França, onde apenas 4% do gás natural vinha da Rússia, a conta de luz subiu mais de 15%. E a energia mais cara impacta diretamente o preço dos alimentos."
A jornalista acrescenta que o Instituto Nacional da Estatística e dos Estudos Econômicos (INSEE, na sigla em francês), da França, mostra que seis a cada dez franceses reduziram o consumo de alimentos por causa da alta dos preços. Além disso, nos últimos dez anos, os alimentos na França ficaram quase 35% mais caros, e, desse percentual, mais de 20% correspondem ao período pós-conflito na Ucrânia.
"O melhor termômetro para medir o humor dos franceses é o preço da baguete, que passou de € 1 para € 1,20 por causa do aumento na conta de luz", ilustra Andreolli, citando o livro "A era das revoluções", do historiador Eric Hobsbawm.
O presidente francês, Emmanuel Macron, sabe que a crise energética é um elemento fundante dos atos que acontecem não só no seu país, mas também nos aliados europeus. Por isso, na última semana, ele visitou países do Golfo, centrado em abastecimento de energia.
Por sua vez, o presidente
Vladimir Putin, durante a VIII Cúpula do Fórum dos Países Exportadores de Gás (GECF, na sigla em inglês), em Moscou, na terça-feira (27), afirmou que a
Europa prejudica sua própria indústria e seu setor social ao renunciar ao gás russo.
Giovana Branco, doutoranda em ciência política da Universidade de São Paulo (USP), destaca que as sanções aos insumos energéticos russos contribuem diretamente para o aumento dos preços de energia na Europa, que foi agravado pela situação no Oriente Médio. Em ambos os casos, reforça, esperava-se uma atuação rápida e eficiente, o que não aconteceu.
"As sanções aplicadas contra a Rússia também passaram a ter efeitos reversos: em vez de enfraquecer a economia russa e impedir o financiamento do conflito, elas fragilizam o poder de compra europeu e dificultam a entrada de combustíveis no continente."
"Os países europeus se engajaram em narrativas antirrussas logo no início do conflito, talvez também por esperar uma crise rápida. Porém fica claro que não é possível excluir a Rússia da economia e da política globais. Mas, como muitos líderes assumiram posições duras contra a Rússia, o espaço de negociação diminuiu", diz a analista.
De acordo com Lucas Mendes, professor de geografia e geopolítica, criador da página Geopolítica Hoje, a União Europeia, ao cortar relações com a Rússia, também prometeu diversificar a compra de insumos energéticos. O bloco até conseguiu, mas a um alto custo, que foi repassado aos europeus.
"A União Europeia passou a comprar mais gás e petróleo dos Estados Unidos, do Catar, de outros países do Oriente Médio e do norte da África. Entretanto, essa substituição trouxe custos adicionais relacionados ao transporte, à infraestrutura e às condições de fornecimento."
Agora, em meio à crise, o discurso sobre "a ameaça russa" vem se desgastando entre os cidadãos, embora alguns grupos ainda o defendam, diz Branco.
A Alemanha, segundo a doutoranda da USP, é um ótimo exemplo de política externa guiada por ideias, não pela realidade da população. O chanceler alemão, Friedrich Merz, tem índice de aprovação em torno de 10%, o menor patamar para um líder federal da história das pesquisas, realizadas desde 1997.
Enquanto os alemães criticam as constantes visitas de Merz a Kiev, e
com a transferência para a Ucrânia de dinheiro do qual a própria Alemanha precisa, o chanceler afirma que a influência da Rússia sobre a sociedade alemã é
sua maior preocupação atual."A possível ameaça russa tomou proporções tão grandes, que parece haver um distanciamento das demandas latentes do povo", ressalta Branco.
De acordo com Mendes, muitos partidos que apoiaram as sanções contra a Rússia, e o fechamento do mercado energético russo, mesmo cientes das perdas econômicas que isso provocaria,
continuam no poder. Em alguns países, porém,
já houve mudanças políticas. "A Eslováquia é um exemplo expressivo. Mesmo onde os
governos que apoiam essas políticas continuam no poder, como na França, na Alemanha e na Itália, é possível perceber um desgaste desse apoio à Ucrânia entre setores do eleitorado."
Para a retomada do comércio com a Rússia como o caminho mais realista para a Europa recuperar sua competitividade industrial e reduzir o custo de vida, Branco acena positivamente, mas pondera: "Aqui, na Rússia, estamos pensando em um cenário pós-conflito em que as sanções permaneçam. A verdade é que as relações foram muito fragilizadas durante os últimos anos, então dificilmente veremos uma reversão rápida. É possível que a nova norma seja essa, mesmo que isso custe muito para as populações europeias". Ou seja, os europeus deverão continuar pagando caro para se proteger do "fantasma russo".
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