A aliança de segurança entre Estados Unidos e Tailândia, uma das mais antigas e robustas da Ásia, vem perdendo força à medida que Bangkok se aproxima de Pequim.
Segundo analistas que falaram ao Defense News, essa mudança tem implicações estratégicas profundas para Washington. Como destacou a especialista norte‑americana em segurança e política asiática, Emma Chanlett‑Avery, "os laços crescentes da Tailândia com a China aceleram a tendência de perda de influência estratégica dos EUA no Sudeste Asiático".
Embora a Tailândia seja aliada formal dos EUA desde meados do século XX, especialistas afirmam que seu "centro de gravidade" político e econômico há muito se inclina para a China. A relação histórica com Washington — que inclui o Pacto de Manila, o apoio durante a Guerra do Vietnã e a designação como aliado extra‑Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), já não garante alinhamento automático.
Os exercícios militares Cobra Gold, coorganizados desde 1982, continuam sendo um pilar da cooperação bilateral. No entanto, a aproximação econômica e militar da Tailândia com a China se intensificou, especialmente após o golpe de 2014, quando os EUA reduziram o engajamento e Pequim ocupou o espaço deixado.
A China se tornou um fornecedor dominante de armamentos para a Tailândia, vendendo quase o dobro do volume norte‑americano entre 2016 e 2022, além de cooperar na entrega do primeiro submarino tailandês. Embora os EUA ainda realizem exercícios mais sofisticados, Pequim vem diminuindo essa distância.
Para analistas ouvidos pela apuração, essa reconfiguração tem impacto direto no acesso militar dos EUA. Chanlett‑Avery afirma que, diante da competição estratégica com a China, Washington já não acredita que a Tailândia permitiria o uso de suas bases em caso de conflito no estreito de Taiwan.
O membro sênior do Instituto Empresarial Americano, Zach Cooper, alerta para um possível "desacoplamento" entre os dois aliados, com menos vendas de armas e restrições ao uso de instalações como a estratégica base aérea de U‑Tapao.
A inclinação tailandesa para Pequim também afeta a capacidade dos EUA de posicionar mísseis na região, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês), que avalia como improvável que Bangkok aprove sistemas norte‑americanos para conter ameaças chinesas ou norte‑coreanas. Além disso, cresce a preocupação em Washington sobre o compartilhamento de inteligência sensível, já que muitos líderes tailandeses veem seus interesses mais alinhados com a China.
Esse distanciamento ficou evidente quando os EUA negaram à Tailândia a compra de caças F‑35 em 2023, decisão atribuída, em parte, ao estreitamento das relações com Pequim. A hesitação norte‑americana também reflete receios de expor capacidades militares a radares chineses durante exercícios conjuntos.