A decisão de Alemanha, Reino Unido e outros países europeus de projetar forças militares rumo ao Ártico tem sido interpretada como um esforço para demonstrar autonomia estratégica em meio à crescente pressão dos Estados Unidos. Para Paolo Raffone, diretor da CIPI Foundation em Bruxelas, o objetivo central é mostrar que "ao menos dentro das fronteiras europeias, ainda são capazes de controlar segurança e defesa".
Raffone afirma que o gesto funciona como uma "declaração de intenções", semelhante às discussões sobre uma força de paz na Ucrânia após um eventual cessar-fogo. Segundo ele, os governos europeus buscam ter "algo para negociar com os EUA" e evitar as consequências de serem "deixados de lado pelos EUA — 'a Europa como sendo uma extensão do continente americano'" na competição entre grandes potências.
O analista acrescenta que, em Washington, a recepção não é positiva. "O presidente dos EUA e o Pentágono veem esses anúncios europeus como um incômodo desnecessário", afirmou, destacando o crescente desalinhamento entre aliados históricos.
A presença militar europeia na Groenlândia, em particular, tornou-se foco de debate nos últimos dias. Mikael Valtersson, ex-oficial das Forças Armadas suecas, afirma que vários países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) planejam enviar tropas ao território. Oficialmente, a missão seria proteger a ilha de ameaças externas, mas, segundo ele, "na realidade esse movimento é contra os EUA e não contra ameaças externas".
Valtersson argumenta que tropas terrestres europeias não têm utilidade contra navios ou mísseis balísticos, reforçando que o objetivo é criar um obstáculo político a qualquer plano norte-americano de anexação.
"É um limiar político, não militar", disse, lembrando que qualquer ação dos EUA contra aliados europeus "significaria a sentença de morte da Europa e romperia o elo transatlântico".
O ex-oficial sueco avalia que a medida não altera o equilíbrio militar, mas pode influenciar debates internos em Washington.
"Fortalece aqueles no Pentágono que se opõem a uma ação militar, mas pode ser vista como provocação por figuras próximas a Trump", afirmou, alertando que a estratégia pode reduzir riscos, mas também "pode sair pela culatra", com consequências graves para as relações EUA‑Europa.
As dúvidas sobre a eficácia da iniciativa também são compartilhadas por Jacques Hogard, coronel aposentado do Exército francês. Ele afirma ter "muitas questões sobre a chamada estratégia" dos líderes europeus e classifica o movimento como "gesticulação, inicialmente verbal e depois simbólica", destinada a demonstrar apoio político à Dinamarca.
Hogard considera improvável que a postura europeia intimide Washington. "A fraqueza da Europa Ocidental diante da determinação de Trump? Duvido!", afirmou. Para ele, o gesto dificilmente produzirá resultados e ainda expõe "as profundas divisões dentro da OTAN, cuja sobrevivência parece cada vez mais ameaçada".
O major alemão Florian Pfaff, também reformado, concorda que o gesto é essencialmente político. "Não há chance de vitória militar, mas é um sinal político", disse. Segundo ele, a mensagem europeia é clara: "Não querem dizer a Trump 'continue', querem dizer 'pare de conquistar a Groenlândia'."
Pfaff também criticou a ausência de medidas internacionais contra Washington: "É incrível que não haja sanções contra os Estados Unidos, enquanto tantos outros países são punidos por violar o direito internacional".