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'Quer criar sozinho uma nova ONU': Lula critica Trump e seu Conselho da Paz

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi convidado pelo homólogo norte-americano Donald Trump para integrar o Conselho da Paz, mas ainda não respondeu oficialmente a Washington. Apesar do convite, o petista fez sua primeira crítica pública à proposta de criação do órgão nesta sexta-feira (23).
Sputnik
Durante discurso no 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador, Lula fez duras críticas à proposta do presidente Donald Trump de criar o Conselho da Paz à margem das instituições multilaterais tradicionais.
A iniciativa, que prevê criar uma governança global para atuar na manutenção da paz e reconstrução da Faixa de Gaza, já teve a adesão de 23 países, entre Argentina, Hungria e Israel. Mais cedo, França, Alemanha, Noruega, Eslovênia, Espanha e Suécia rejeitaram o convite.
Para Lula, o Conselho da Paz simboliza o esvaziamento da Organização das Nações Unidas (ONU) e a substituição do diálogo internacional pela imposição da força. "O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo. A lei do mais forte está prevalecendo", afirmou Lula, ao alertar para o que classificou como um momento delicado da política internacional.
Segundo ele, a Carta da ONU vem sendo ignorada por decisões unilaterais que concentram poder e enfraquecem os mecanismos coletivos de mediação, além de ressaltar que já defendia uma reforma da instituição desde 2003.
Na avaliação do presidente brasileiro, a proposta de Trump equivale à tentativa de criar uma "nova ONU", controlada por um único país — o líder estadunidense se autodeclarou líder do órgão, centralizando decisões estratégicas e até a definição ou veto de membros.

"O que está acontecendo é que o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU, como se ele sozinho fosse o dono da ONU."

Lula afirmou que tem buscado diálogo com diferentes lideranças globais sobre a proposta. Segundo o presidente, nas últimas semanas houve conversas com Rússia, China, Índia e México, com o objetivo de construir uma articulação internacional em defesa do multilateralismo. "Estou há uma semana telefonando para muitos países, tentando ver se é possível encontrar uma forma de se reunir e não permitir que o multilateralismo seja jogado no chão", afirmou.
O petista ainda criticou a lógica de reconstrução defendida por Trump sem considerar o custo humano. "Mataram mais de 70 mil pessoas para dizer que vão recuperar Gaza e fazer hotel de luxo. E o povo que morreu?", questionou.
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Trump e as ameaças militares

Em outro momento do discurso, Lula criticou a retórica militar adotada por Trump. "Toda vez que ele fala na televisão, diz que tem o exército mais forte do mundo, os melhores aviões, as melhores armas", comentou. Em contraste, afirmou que o Brasil não busca protagonismo bélico. "Eu olho para mim e digo: não tenho nada disso. Tenho Exército, Marinha e Aeronáutica que muitas vezes não têm dinheiro nem para comprar munição para treinar", diz.
Lula reforçou que não vê a guerra como instrumento legítimo da política internacional. "Não quero fazer guerra com os Estados Unidos, nem com a China, nem com a Bolívia", afirmou. Para ele, o poder deve estar no convencimento e no exemplo democrático. "A guerra que queremos fazer é a do convencimento, mostrando que a democracia é imbatível, compartilhando o que temos de bom".
Ao citar Mahatma Gandhi, considerado o pai da independência da Índia, o presidente defendeu a resistência pacífica como caminho político. "Gandhi derrotou o Império Britânico sem dar um tiro. É assim que queremos fazer política, na paz, na conversa, no diálogo, e não aceitando imposição", acrescentou.

Invasão na Venezuela e sequestro de Maduro

Mais uma vez, o presidente brasileiro ressaltou indignação com o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela no início do ano. Na ocasião, militares norte-americanos conseguiram sequestrar o presidente Nicolás Maduro, que foi levado para Nova York, onde segue aprisionado.
"O Maduro sabia que tinham 15 mil soldados americanos nos navios. Eles entraram a noite na Venezuela, foram no forte onde ele ficava e levaram o Maduro embora. E ninguém soube que ele foi embora", afirmou.
Diante disso, Lula defendeu que a América do Sul deve permanecer como zona de paz. "Isso não existe na América do Sul. É um território de paz. Não temos armas nucleares. Temos gente pobre que quer comer, almoçar e jantar. Não queremos guerra", concluiu.

'Graças a Deus tomaram a decisão de entrar na vida política'

Durante o encontro, o presidente Lula também falou sobre as expectativas para as eleições de 2026, do qual voltou a garantir que vai lutar para conquistar um quarto mandato, "seja contra quem for". Além disso, o petista comentou sobre a decisão do MST de lançar de forma coletiva a candidatura de integrantes do movimento.
Segundo o presidente, enquanto a bancada ruralista reúne centenas de parlamentares, apenas dois representantes ligados ao movimento sem-terra foram eleitos deputados federais. Para Lula, esse desequilíbrio é resultado da omissão política. "Não se envolver é permitir que outros decidam o projeto de país", afirmou, ao defender que gostar de política significa definir rumos, e não compactuar com erros.
Lula lembrou ainda o contexto de criação do PT, quando havia apenas dois trabalhadores no Congresso, e disse ver na decisão do MST um passo semelhante. Fico feliz que tenham decidido entrar na vida política", declarou, ao destacar que a presença de militantes do movimento nas urnas pode fortalecer a representação social nas instituições.
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