Panorama internacional

'A Amazônia Argentina': por que o mundo deve prestar atenção nos incêndios na Patagônia

Região próxima a Antártida possui uma das maiores reservas de petróleo e gás não convencional do mundo, além de também concentrar quase o dobro de carbono armazenado na Amazônia.
Sputnik
Enquanto vivemos em um dos verões mais quentes da história, outro lugar também está queimando: a Patagônia, na Argentina. Mais 12 mil hectares foram destruídos recentemente só na região andina de Chubut, a pior tragédia ambiental argentina em 20 anos. Dados do governo argentino mostram que os maiores incêndios ocorrem nos arredores de El Hoyo, Epuyén e Puerto Patriada.
Ao menos 3 mil pessoas foram evacuadas da região, em um contexto de cortes no orçamento ambiental no atual governo argentino. Segundo dados da imprensa local, os recursos destinados para o combate a incêndios florestais foram reduzidos drasticamente por orientação do presidente argentino, Javier Milei.
Especialistas alertam para os riscos ambientais dessa tragédia, ressaltando a recuperação lenta do bioma da Patagônia e como isso pode ser agravado com as mudanças climáticas e falhas estruturais do governo, que investiga se houve motivações criminosas. Um ponto importante: a Patagônia possui geleiras e a maior reserva de petróleo do mundo. Como esse fogo pode ser prejudicial à América Latina?
No episódio do Mundioka desta terça-feira (27), podcast da Sputnik Brasil, discutimos com especialistas como tragédias ambientais testam a resposta dos governos e se o caso na Patagônia deve ser o suficiente para gerar uma solução internacional para a crise climática.
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Segundo Juan Agulló, professor e pesquisador de economia, sociedade e política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), o agravamento dos incêndios está relacionado com a fragilidade do Estado argentino, que "não cobra responsabilidades ambientais aos piromaníacos."
"O pior é que, nos últimos anos, o Estado argentino está ainda mais enfraquecido, ajustando, por exemplo, o gasto público até limites absurdos para pagar a dívida para os fundos abutres estrangeiros. E, nesse contexto, pioram ainda mais as coisas em segurança que criam a possibilidade de que a lei de terras rurais acabe sendo modificada."

"E, pelo jeito, isso provocaria que o uso das terras queimadas pudesse ser legalmente mudado e isso, na prática, acaba funcionando como um incentivo para continuar queimando. É uma situação muito triste, muito preocupante."

O alarde para os incêndios não é algo estritamente de preocupação climática, mas também tem seus efeitos geopolíticos, como pontua Agulló. A Patagônia é uma das mais frias do mundo, com uma temperatura média de 12°C e podendo chegar a -22,5°C no inverno. Contudo, as mudanças climáticas estão permitindo que territórios antes inabitáveis estejam disponíveis para usos estratégicos, mas sob alto custo ecológico do planeta.
"Eu quero lembrar que está muito perto do Estreito do Magalhães, que está muito perto da Antártica, que essa região sul da Argentina e do Chile é a única entrada permanente, que dá para entrar inclusive durante o inverno, então é uma região especialmente sensível." O professor sublinha que a região poderia ser uma possível fonte não só de recursos, mas de renda através de rotas de comércio.

"A Patagônia poderia ser um pouco, para que os ouvintes brasileiros compreendam bem, 'a Amazônia Argentina'."

Astrid Cazalbon, doutoranda em relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (GESENE) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), complementa a fala de Agulló, dizendo como sua importância ambiental está atrelada ao seu valor geopolítico.
"É uma região que, inclusive, é muito mais importante em termos ambientais do que a região amazônica. Pela produção, digamos, para a armazenagem mais ou menos do dobro do carbono por hectare em comparação com as florestas amazônicas", diz Cazalbon. A Patagônia concentra cerca de 430 toneladas de carbono por hectare, podendo aumentar para 508 toneladas por hectare em áreas protegidas. Esse nível é quase o dobro do carbono concentrado nas florestas da Amazônia.
"Se é uma região que tem um potencial ambiental e também em termos energéticos em vários recursos, a questão dos incêndios florestais pode atingir e afetar de alguma maneira isso." A região concentra algumas das mais importantes reservas de hidrocarbonetos da Argentina, como a formação de Vaca Muerta — considerada uma das maiores reservas de petróleo e gás não convencional do mundo —, responsável por cerca de 40% da produção nacional de gás e uma parcela significativa do petróleo do país. Além delas, somam-se as bacias do Golfo de San Jorge e da Neuquina.
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Como destaca Cazalbon, a atual conjuntura política da Argentina aprofunda esse cenário. O alinhamento do governo de Javier Milei com Estados Unidos e Israel, somado à retração do Estado em áreas estratégicas, amplia a percepção de abertura a interesses estrangeiros em setores sensíveis como energia, terras e infraestrutura.
Com a crise econômica profunda do país, além do aumento da vulnerabilidade social e queda do consumo interno, o risco é que a Patagônia se torne apenas um espaço de extração de recursos e não um polo de desenvolvimento nacional. Para a pesquisadora, a destruição dos biomas da região afetam não apenas o equilíbrio climático regional, mas também um espaço estratégico para a soberania energética e territorial da América Latina.
"Acabamos de ver a questão da Venezuela e a gente também tem a questão do lítio, que é muito importante para a Argentina, se bem que está bem distante da região que a gente está falando."

"É uma questão essencial e, para tudo isso, a gente sempre volta naquele assunto da ausência de integração de órgãos que tenham mais interesse no cuidado dos recursos, no cuidado da população e de evitar esse tipo de conflitos de interesses estrangeiros que se colocarem por cima de interesses nacionais."

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