O presidente Orsi se reunirá com seu homólogo chinês, Xi Jinping, nesta terça-feira (3), em sua primeira visita à China desde que assumiu o cargo, dando continuidade ao que
se tornou uma tradição para os sucessivos presidentes do
país sul-americano.
Orsi partiu para a China
liderando uma delegação de aproximadamente 150 pessoas. Além do ministro das Relações Exteriores, Mario Lubetkin, e dos ministros da Pecuária, Alfredo Fratti, e da Indústria, Fernanda Cardona, dezenas de autoridades governamentais e um grande contingente de
líderes empresariais e representantes sindicais viajaram para o Uruguai.
Segundo o governo uruguaio, durante o encontro de Orsi com Xi Jinping, os dois governos vão assinar aproximadamente 30 acordos comerciais e de cooperação, incluindo cooperação técnica e científica, além do Acordo de Parceria Estratégica que o Uruguai mantém com o gigante asiático desde 2023.
Em entrevista à Sputnik, Nicolás Pose, especialista uruguaio em Economia Política Internacional, sugeriu que a visita de Orsi
poderia ajudar o país sul-americano a avançar em "acordos setoriais" que, por exemplo, facilitariam as aprovações sanitárias para
exportações de alimentos para a China, um componente-chave do comércio bilateral.
De acordo com dados oficiais, o Uruguai exportou um total de US$ 3,4 bilhões (cerca de R$ 17,88 bilhões) para a China em 2025, valor que representa 26% do total das exportações do país e um aumento de 12% em relação a 2024.
Embora a carne bovina continue sendo o principal produto das exportações uruguaias para a China, o mercado chinês agora responde por 86% das exportações de soja do país e é atualmente o
principal comprador de celulose produzida localmente.
Apesar do ritmo acelerado do comércio bilateral entre os dois países, a possibilidade de um Acordo de Livre Comércio — explorada por presidentes uruguaios anteriores, mas sem sucesso devido à
incapacidade do Uruguai de obter a aprovação de seus parceiros do Mercosul — mostra sinais de ter
perdido força.
Consultado por esta publicação, o economista uruguaio Gabriel Papa concordou que a busca por um
acordo de livre comércio "não está na agenda do governo Orsi", embora o país sul-americano ainda tenha a oportunidade de "promover uma agenda bilateral ampla e profunda" com o objetivo de "
expandir a cesta de bens e serviços" que o Uruguai vende para a China, facilitando a entrada de produtos lácteos e até mesmo promovendo a venda de alguns serviços tecnológicos.
De acordo com o Papa, o Uruguai também tem potencial para se beneficiar da cooperação no setor financeiro, já que o país sul-americano
é membro do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) desde 2020, entidade que pode ser fundamental para
projetos de infraestrutura no Uruguai.
Ambos os analistas concordam que o Uruguai
mantém sua relação com a China como uma "política de Estado" desde que os dois países estabeleceram
relações diplomáticas em 1988, mesmo com as mudanças de governo. Assim, a visita de Orsi complementa as realizadas nas últimas décadas por antecessores como Luis Lacalle Pou (2020-2025), José Mujica (2010-2015) e Tabaré Vázquez (2005-2010 e 2015-2020).
No entanto, analistas reconhecem que a visita de Orsi coloca essa relação histórica em foco dentro de um "
novo contexto geopolítico", no qual as
tensões comerciais entre a China e os EUA adicionam complexidade à busca por laços mais profundos entre Pequim e os países latino-americanos.
De fato, a Embaixada dos EUA no Uruguai admitiu que está "
monitorando de perto" a viagem de Orsi à China,
segundo uma fonte da missão diplomática que falou ao semanário uruguaio Búsqueda. De acordo com a fonte, a embaixada
permanece preocupada com as supostas "práticas de vigilância e ameaças à proteção de dados" que o gigante asiático possa realizar no Uruguai.
A este respeito, o analista enfatizou que o Uruguai deve "
ser muito cauteloso" ao apresentar os resultados de sua viagem à China, para
evitar potenciais consequências negativas em seu relacionamento com os EUA. Aliás, a nação latino-americana foi recentemente incluída por Washington em uma lista de países para os quais suspendeu os procedimentos de visto de imigração.
Papa, por sua vez, acredita que o
atual cenário global levou a uma "fragmentação geoeconômica" que está
impulsionando muitos países a tentar "diversificar" suas relações internacionais, buscando menor dependência de potências específicas. Nesse sentido, citou como exemplos mais claros as visitas do primeiro-ministro canadense Mark Carney e do primeiro-ministro britânico Keir Starmer a Pequim para se encontrarem com Xi Jinping, ambas em janeiro de 2026.
Nesse contexto, o analista considerou que o Uruguai
deveria aproveitar a
experiência adquirida em seu relacionamento com a China.
Nesse sentido, ele reafirmou que
manter a China como um parceiro fundamental é crucial para a política externa de Orsi, embora o governo uruguaio mantenha "uma avaliação constante" de como as
tensões entre Pequim e Washington podem influenciá-la.
Pose, por sua vez, enfatizou que o país continua relevante para o gigante asiático por fazer parte da América do Sul, uma região vital para os interesses do país asiático, especialmente devido à complementaridade de suas economias. "Nesse contexto, em que os EUA querem estabelecer esferas de influência, a China busca preservar suas relações com os países latino-americanos que estejam dispostos a fazê-lo, e essas cúpulas políticas são um mecanismo para isso", acrescentou.