Em meio às terras áridas do Saara, o azul do rio Nilo contrasta com o domínio do marrom característico da paisagem do deserto. Entre as margens verdes, a fertilidade que marcou um dos impérios mais icônicos de toda a civilização: o Egito Antigo. Com quase 7 mil quilômetros de extensão e responsável por matar a sede de mais de 100 milhões de pessoas na África, um dos maiores cursos hídricos do mundo voltou ao centro da geopolítica nos últimos anos por conta de uma disputa entre Egito, Sudão e Etiópia.
Isso porque, em setembro do ano passado, o governo etíope concluiu a construção da Grande Barragem do Renascimento, iniciada em 2011, ao custo de quase US$ 5 bilhões (R$ 26 bilhões), e localizada a apenas 14 quilômetros da fronteira com o Sudão. Apenas para encher o reservatório da estrutura, localizada no rio Nilo Azul — que, juntamente com o Nilo Branco, forma um dos maiores sistemas hídricos do planeta —, foram necessários três anos.
Ao todo, são 74 bilhões de metros cúbicos de água e uma capacidade instalada da hidrelétrica de mais de 5,1 mil megawatts (MW), valor que vai dobrar a capacidade de produção elétrica da Etiópia, segundo país mais populoso da África, com seus 130 milhões de habitantes, dos quais 45% não possuem acesso à eletricidade. Atualmente, as duas turbinas em funcionamento geram 750 MW, pouco menos de 20% do potencial total.
Além disso, a hidrelétrica tem potencial para fornecer energia elétrica a países da região, como Quênia, Uganda, Ruanda, Tanzânia e Eritreia. Em contrapartida, Sudão e Egito — países cuja dependência do Nilo é quase total para o abastecimento de água — veem com preocupação os impactos da obra na vazão de um de seus principais afluentes, o que levanta riscos à segurança hídrica regional. Diante do impasse, o presidente norte-americano, Donald Trump, sugeriu que os Estados Unidos atuem como mediadores da disputa, proposta prontamente aceita pelo homólogo egípcio, Abdel Fattah al-Sisi.
Para a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora sobre Oriente Médio, mundo árabe e islamismo Samira Osman, o governo etíope não deve aceitar a oferta de Trump. "Para muitos países, um princípio básico da geopolítica é sempre desconfiar dos Estados Unidos, e especialmente do atual governo", explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.
A especialista lembra que o Egito possui um histórico de parceria com a Casa Branca, sendo inclusive um dos mediadores do cessar-fogo na Faixa de Gaza proposto por Trump. "Então, acho que em uma queda de cabo de guerra, eu vejo o Egito com mais força política e econômica em relação à Etiópia. Mas o país tem conseguido, desde a própria proposta de construção da barragem que surge no bojo da Primavera Árabe, tirar o projeto do papel e mostrar que é importante para a sua subsistência e desenvolvimento", acrescenta.
'Egito é uma dádiva do Nilo': a base do impasse
O historiador grego Heródoto foi responsável por criar uma das frases mais famosas que designam a região: "O Egito é uma dádiva do Nilo", já que o rio foi fundamental para permitir a agricultura da região que ao longo dos séculos garantiu o título de um dos principais produtores de alimentos do continente. "Não é apenas uma frase de efeito, mas ela justifica a existência do país, que depende das águas do Nilo para consumo da população e manter a atividade econômica, assim como também é vital para o Sudão, que ao mesmo tempo também pode ser beneficiado com a questão da energia [que será gerada]", pontuou a especialista.
Diante do agravamento das mudanças climáticas, Osman cita que as preocupações sobre o impacto da hidrelétrica na segurança hídrica da região são ainda maiores — as mudanças no fluxo d'água do Nilo Azul podem intensificar problemas de abastecimento de água durante os períodos de estiagem, cada vez mais irregulares por conta do aquecimento global.
"O Egito, inevitavelmente, sentirá os impactos. Pode-se argumentar que o Egito utiliza a água do Nilo para atender sua população, mas também a emprega de forma intensiva na agricultura. Trata-se, sobretudo, da produção de algodão, o famoso algodão egípcio, uma cultura altamente dependente de recursos hídricos. É nessa tensão permanente que o problema se estabelece: de um lado, a exaustão das condições físicas e naturais; de outro, as demandas econômicas. O ponto central é que o Egito explora essa atividade agrícola desde o século XIX. Agora, a Etiópia afirma que, se todos podem utilizar o rio em benefício próprio, ela também tem o direito de fazê-lo", resume.
Outro ponto que contribui para a falta de consenso sobre a questão é o argumento egípcio de que a Etiópia violou acordos históricos de uso das águas da bacia do Nilo fechados ainda na década de 1920, com intermediação do Império Britânico. Na época, apesar de ser um dos poucos territórios que não se tornou colônia europeia, a Etiópia era uma das regiões mais pobres do continente.
"Nesse acordo, era a parte mais fraca. Agora, para o país, esse tratado é obsoleto, assinado há quase um século. E a Etiópia tem feito isso, bancado e apostado alto sobre a questão. Em 2015, tentou fazer um novo acordo, até chegou a aceitar, mas depois falou que continuaria enchendo o reservatório. O encheu, enquanto o Egito falava que poderia demorar até 20 anos, foi feito em três", destaca.
Já a doutora em relações internacionais pelo Programa San Tiago Dantas e professora da Universidade Positivo Bárbara Neves afirma ao Mundioka que também contribui para a balança o fato de o Sudão ser historicamente aliado do governo egípcio.
"Em vários acordos do século XX, o país apoiou o Egito na construção de barragens ao longo do Nilo, cujas conversas nunca compreenderam a Etiópia. Então, não seria um agente confiável para potencial mediador da questão, já que o Nilo Azul também passa pelo Sudão [o Nilo é formado justamente na capital, em Cartum] e, assim como o Egito, depende desses recursos hídricos", enfatiza.
Há risco de conflito armado entre Egito e Etiópia?
Um eventual agravamento das tensões que provoquem um conflito militar na região ainda é uma realidade distante, segundo Neves. Apesar disso, a especialista cita que há registros de movimentação militar e securitização da água no território egípcio, com especial atenção às áreas de barragem.
"Eu acho que ainda está mais no aspecto da negociação, uma conversa mais diplomática, mesmo porque existem outros interesses muito maiores. E se houver algum tipo de conflito armado, temos que lembrar que um dos principais afluentes do Nilo nasce na Etiópia, que poderia usar isso a seu favor. Então, atualmente não há essa visão de um embate, mas sempre existe, em uma disputa geopolítica, o potencial de utilização de armas, pelo menos como tentativa de pressão", finaliza.