Panorama internacional

Receio da oposição faz Planalto hesitar em ajudar Cuba de forma prática, aponta analista (VÍDEOS)

Havana enfrenta momentos difíceis devido à escassez de combustível, que afeta setores estratégicos e a população. Nesse cenário, o país caribenho recebeu ajuda humanitária do México, enquanto Rússia e China também planejam apoiar a ilha. Já o governo brasileiro ainda não teve uma ação prática além da retórica.
Sputnik
O Brasil, que sempre se colocou como um dos principais mediadores na América Latina devido à sua projeção e liderança histórica na região, atualmente se vê como espectador das mudanças drásticas que ocorrem em seu entorno, provocadas pelos Estados Unidos.
Com sua nova estratégia de segurança, Washington prevê que os países latino-americanos estejam em sua esfera de influência no então chamado "hemisfério ocidental". Em janeiro, houve o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.
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Desde então, os EUA passaram a ter participação no mercado de petróleo venezuelano, o que acabou prejudicando Cuba, que vive uma situação energética crítica por falta de combustível e tinha Caracas como seu principal fornecedor.
No contexto latino-americano, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, desafiou a Casa Branca e enviou ajuda humanitária aos cubanos, enquanto o Brasil segue na retórica política.
Na ocasião, o presidente Lula afirmou em seu discurso que Cuba enfrenta um "massacre de especulação" promovido pelos Estados Unidos e defendeu que o PT encontre formas diretas de auxiliar o país caribenho.
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Para a professora de relações internacionais Ana Carolina Marson, isso se deve ao fato de o Brasil praticar uma política externa pendular, por ter sempre que resistir ou se adaptar a partir da pressão política estadunidense.

"O Brasil pratica a política externa que chamamos de pendular. Ou seja, há momentos em que estamos mais alinhados aos Estados Unidos, e momentos nos quais estamos mais distanciados. Mas, até mesmo em um governo que se diz de centro-esquerda, como o do presidente Lula, ainda assim sofre pressões diretas dos EUA", observou.

Marson destacou que o Brasil historicamente tem a característica de atuar como mediador e conciliador, em vez de adotar uma postura de confrontação, como a que Claudia Sheinbaum adotou para ajudar Cuba. Ela acrescentou ainda que, por muitas vezes, o Brasil não adota posturas mais concretas em determinadas situações nas quais caberia que o país tomasse tais medidas.
Além disso, para a especialista, essa postura brasileira de se ater ao discurso e não ter ações assertivas como as mexicanas se deve mais ao fato da eleição presidencial de outubro do que por receio de alguma eventual retaliação norte-americana.
Uma ajuda efetiva à ilha caribenha empreendida pelo governo federal poderia ser usada como arma política pela oposição, uma vez que qualquer tema sobre Cuba ainda desperta discórdia e intolerância em setores da sociedade brasileira, o que pode influenciar na hora do voto.

"Todo ano eleitoral influencia a ação de quem está no pleito, e nós já vimos que o presidente Lula vai concorrer à reeleição neste ano. Aqui no Brasil, existe essa pecha de 'vai para Cuba' [usada de forma pejorativa]. Apesar de sabermos que Cuba não tem uma representatividade forte no sistema internacional, ainda é vista como uma ameaça no imaginário brasileiro. Isso é totalmente resquício do golpe militar de 1964 e de toda a influência que os Estados Unidos exerceram aqui", complementou.

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Política Externa Altiva e Ativa 2.0

Nos primeiros anos de mandato do presidente Lula e durante o governo de Dilma Rousseff, a política externa do Itamaraty passou a ser regida pelo princípio de ser ativa e altiva, com o objetivo de que o Brasil desenvolvesse sua projeção internacional para se envolver em grandes debates mundiais e ingressar em estruturas importantes no sistema-mundo, em uma época em que o multilateralismo não passava por uma crise como nos dias atuais.
Dessa forma, como analisa Marson, a política externa brasileira vem passando por uma adaptação, mas sem perder o conceito norteador.

"Quando a política externa altiva e ativa foi instituída, o cenário internacional não tinha um crescimento tão grande da extrema direita, estou falando da ultradireita, que beira o nazismo e o fascismo. Com isso, a política externa teve que se adaptar. Isso significa que, atualmente, no seu terceiro mandato, o presidente Lula tem praticado uma política de submissão aos Estados Unidos? Não, longe disso. Ele não pratica política de submissão, mas não adota posturas tão assertivas quanto as que adotou nos seus primeiros mandatos", comentou.

A analista também destaca que o Brasil e outras nações que prezam pelo multilateralismo como base de diálogo e negociação perderam espaço porque, além da ascensão da extrema direita, potências como os EUA preferem impor sua força militar e econômica para defender seus interesses.

"Não existe espaço no cenário internacional para o Brasil agir como mediador. Vivemos uma era de extremos. Temos um presidente estadunidense muito extremado, que no seu primeiro mandato era muito de retórica e ninguém levava muito a sério quando ele falava de ações mais duras. Agora, já tomamos mais cuidado. Isso é muito diferente dos primeiros mandatos do presidente Lula, quando o multilateralismo tinha muita força, apesar de já haver questionamentos à ONU, mas não era como hoje, em que os EUA não consultam ninguém antes de agir", concluiu.

Com a crise do multilateralismo, que afeta organizações como a própria ONU, e com a nova estratégia de segurança dos EUA, países em desenvolvimento do chamado Sul Global correm o risco de ter sua soberania aviltada, assim como ocorreu na Venezuela. Agora, mais uma vez, Cuba se encontra pressionada devido às sanções, com o fornecimento de petróleo ameaçado pela pressão política da Casa Branca.
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