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Imune a sanções, mas até quando: como ações dos EUA colocam sua impunidade em xeque

© AP Photo / Evan VucciO presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante cerimônia em Washington, em janeiro de 2026
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante cerimônia em Washington, em janeiro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 22.01.2026
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Especialistas ouvidos pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, explicam como os Estados Unidos se mantiveram imunes a sanções da comunidade internacional.
Os Estados Unidos têm um histórico problemático, caracterizado por intervenções militares no Oriente Médio – Iraque, Afeganistão – e na América Latina, recentemente na Venezuela no início deste ani, e sanções econômicas unilaterais, como as tarifas impostas por Washington no Brasil no meio de 2025. Além disso, recentes ameaças de anexação de territórios, como a Groenlândia, coloca o país norte-americano como um risco a ordem internacional.
Apesar de tudo, os EUA não enfrentam sanções econômicas ou políticas significativas. Nem mesmo com a invasão na Venezuela o país foi sancionado por entidades esportivas como a FIFA ou o Comitê Olímpico Internacional (COI). Essa aparente "imunidade" levanta questões sobre poder, diplomacia e regras internacionais.
Neste episódio de quinta-feira (21) do Mundioka, o podcast da Sputnik Brasil, vamos discutir como a influência do dólar e o poderio militar norte-americano, assim como alianças estratégicas com outros países, protegem os EUA de penalizações.
Um dos convidados do programa, Carlos Eduardo Martins, professor associado da Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ), doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor visitante na Universidade John Hopkins (EUA), ressalta a hegemonia militar e econômica dos Estados Unidos o protege de sanções.
"No nosso caso aqui na América Latina, nós vimos que sequer a CELAC ou a UNASUL foram capazes de lançar alguma nota de condenação à operação militar que sequestrou Nicolás Maduro", diz Martins.
"Isso é fruto exatamente do fato de que as nossas estruturas estatais estão permeadas pelo interesse norte-americano e nossas classes dominantes frequentemente veem o nosso povo como seu principal inimigo, e não o imperialismo norte-americano como um invasor externo."
Martins também explica o papel do dólar como ativo estratégico dos Estados Unidos para exercer influência econômica global, ao mesmo tempo em que aponta as fragilidades crescentes desse modelo. "Quanto mais Trump assume essa posição agressiva no cenário internacional, quanto mais ele coloca em risco a autonomia das reservas monetárias frente a sua ingerência política e maior é a desconfiança do mundo em manter suas reservas em dólar."
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Essa perda de confiança se reflete diretamente na valorização de ativos considerados mais seguros, como o ouro. Desde 1971, quando ocorreu a quebra da paridade entre o dólar e o ouro, o metal precioso já se valorizou cerca de 120 vezes em relação à moeda norte-americana.
Considerando apenas o século XXI, essa valorização é de aproximadamente seis vezes, enquanto, desde o início da guerra na Ucrânia, o ouro passou a valer duas vezes e meia mais em comparação ao dólar.
No cenário internacional, há poucas alternativas para manter e aplicar mecanismos efetivos de retaliação contra os Estados Unidos, aponta Martins. Nos principais organismos multilaterais, como a ONU, Washington dispõe de instrumentos institucionais decisivos, como o poder de veto no Conselho de Segurança, que inviabilizam qualquer tentativa de sanção formal ou responsabilização direta por suas ações no plano internacional.
"Agora, se poderia usar outros organismos para se criar sanções, por exemplo, o BRICS para se estabelecer algum tipo de prática consensual de retaliação em relação aos Estados Unidos. Se poderia usar a CELAC e certos organismos internacionais, onde os Estados Unidos não têm presença, como forma de agregação e construção de uma vontade coletiva para retaliar esse tipo de ação."
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Roberto Goulart, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UNB) aponta que grande parte dessa impunidade se apoia na dimensão midiática. Os Estados Unidos, como aponta Goulart, demonstram grande habilidade em nomear e comunicar suas ações, conferindo-lhes um verniz moral que contrasta com os efeitos concretos dessas intervenções.
Na prática, contudo, essas operações raramente correspondem às promessas de promoção da paz, da prosperidade ou do bem-estar das populações locais, revelando-se, em muitos casos, ações de força com impactos humanitários profundos e duradouros.
O caso da invasão do Iraque, em 2003, é emblemático nesse sentido. Embora apresentada pelo governo George W. Bush como uma intervenção voltada ao bem do povo iraquiano, a operação configurou uma clara violação do direito internacional.
A retórica utilizada evocava precedentes históricos seletivos, como a ocupação do Japão após a Segunda Guerra Mundial, sugerindo que a intervenção resultaria em estabilidade e desenvolvimento. No entanto, os desdobramentos posteriores desmentiram essa narrativa, como já era amplamente esperado por analistas críticos à época.

"Então, seja Trump, Biden, Clinton ou Obama, os Estados Unidos realizaram operações militares, rotulando-as como ‘operações de segurança’. Mesmo com o uso da força contra outros países, nenhuma sanção efetiva os atingiu."

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